10 meses após liquidação, Master faz STF entrar em guerra e afeta eleição
A liquidação extrajudicial do Banco Master completa dez meses nesta sexta-feira (18/9) com desdobramentos inimagináveis para o início da investigação. A maior fraude financeira da história do país revelou que a empresa era o centro de uma teia de crimes arquitetada com centenas de fundos de investimentos.
Daniel Vorcaro, personagem principal dessa história, teria construído uma ampla rede de conexões, envolvendo vários espectros políticos, para sustentar o esquema.
A influência do ex-banqueiro chegou até o Judiciário, que vive uma crise sem precedentes por causa da suspeita do envolvimento dos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta estrutura criminosa.
A quebra de sigilo da investigação e o acesso aos celulares do empresário apontaram as supostas relações dele com políticos, ministros do STF, políticos, ex-governantes e servidores públicos em suspeitas de contratos, repasses e tráfico de influência.
As investigações também apontaram o uso de redes de intimidação, acesso indevido a sistemas sigilosos de órgãos públicos e ligações funcionais de troca de favores políticos e vantagens financeiras para políticos e autoridades.
No STF, a primeira crise relativa ao Master ocorreu em março. O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso devido a um conflito de interesses e investigações financeiras sobre a venda de fatias de um empreendimento de luxo, o Resort Tayayá, para fundos ligados a Daniel Vorcaro.
Nas últimas semanas, o Supremo se viu mergulhado em uma crise inédita com troca de acusações e embates públicos entre os integrantes da Corte.
O ministro Alexandre de Moraes teria trocado mensagens com Vorcaro em 17 de novembro do ano passado, dia da prisão dele em São Paulo. A PF também investiga uma suposta análise dele em um contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado.
Moraes acusa Mendonça de agir com viés político-eleitoral e de prejudicá-lo propositalmente. Diante da situação, o presidente da Corte, Edson Fachin, assumiu a relatoria de alguns processos dos dois ministros até que a situação seja resolvida.
No meio desse embate, o STF está dividido. De um lado, a ala pró-Moraes (Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin) faz críticas à condução de Mendonça sobre o Master e chama diálogos com Vorcaro de “farsa”.
De outro lado, há, pelo menos, Luiz Fux — que apoia Mendonça e pede a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes. Kassio Nunes Marques, também alinhado a Mendonça, no entanto, preferiu não participar da sessão que analisava o possível início de investigação sobre Moraes. Os filhos de Fux e Nunes aparecem em supostas conversas com Vorcaro.
O que aconteceu com o Master
O Banco Master teve um crescimento meteórico nos últimos anos e levantou suspeitas após o Banco Central (BC) vetar a venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).
A Polícia Federal apontou gestão fraudulenta de ex-diretores da estatal em operações e na compra de carteiras de crédito da empresa de Vorcaro, que vão de R$ 12 bilhões a R$ 17 bilhões.
Em 3 de setembro do ano passado, o BC rejeitou a compra pelo BRB após mais de cinco meses de análise.
As investigações apontaram que o Master sustentou uma fraude bilionária baseada na fabricação massiva de carteiras de crédito falsas. Segundo a PF, o esquema envolveu a venda de R$ 12 bilhões a R$ 17 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) sem lastro para o BRB.
Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta.
Um dia depois, o banco foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central. Essa ação equivale ao encerramento efetivo da empresa. Todas as atividades são suspensas, e os depósitos ficam bloqueados temporariamente para saques – o que aciona a atuação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Vorcaro foi colocado em liberdade, mas, em março, foi preso novamente após a Polícia Federal descobrir uma “milícia privada” atuando em prol do ex-banqueiro. O grupo estava envolvido em suspeitas de ameaças, espionagem e fraudes.
Desdobramentos do Caso Master
- Envolvimentos políticos — As relações de Vorcaro atingem políticos de vários espectros partidários e autoridades dos Três Poderes. Entre os citados, estão Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Cláudio Castro (PL-RJ), Ciro Nogueira (PP-PI) e Jaques Wagner (PT-BA).
- Judiciário — Vorcaro também teria relações com integrantes do STF. As investigações apontam ligações com os nomes de Alexandre de Moraes, Nunes Marques, Luiz Fux, André Mendonça e Dias Toffoli.
- Milícia privada — É apurada a existência de um grupo criminoso que tinha como finalidade intimidar adversários, jornalistas e espionar sistemas de Justiça.
- Prisão Vorcaro — O ex-banqueiro foi preso duas vezes pela PF. Ele está detido no Complexo da Papudinha, em Brasília.
- Delações rejeitadas — O dono do Master teve duas propostas de delação premiada rejeitadas pela PF e pela PGR por apresentar informações “insuficientes” para a investigação.
- Investigação da PF — A Operação Compliance Zero teve nove fases deflagradas com prisões de aliados, parentes, banqueiros, empresários e suspeitas envolvendo políticos e autoridades.
- CVM — Em 8 de setembro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) condenou Vorcaro por fraudes no mercado financeiro. Ele foi penalizado em R$ 20 milhões e o banco foi sancionado em R$ 12,5 bilhões.
- Dark Horse — A PF investiga o financiamento milionário de Vorcaro ao filme do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Impacto nas eleições
Faltando menos de um mês para o primeiro turno das eleições gerais de 2026, o Caso Master domina a pauta dos presidenciáveis.
Depois de preferir, inicialmente, manter distância, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição, defendeu investigações a respeito do escândalo. O petista tem cobrado de Fachin uma solução para a crise.
Já o candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), foi mais incisivo e aproveitou o caso para intensificar os ataques ao Judiciário e agitar seu eleitorado. O parlamentar cobrou a abertura “imediata” de um processo e disse que os senadores estão “anestesiados”.
Outros presidenciáveis têm discurso alinhado ao do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista, Ronaldo Caiado (PSD) disse que o Senado “tem maioria para pedir e votar” o impeachment de Moraes. Segundo ele, a manutenção do magistrado no cargo é insustentável diante da quantidade de elementos trazidos no relatório da PF.
No Congresso, a crise no STF deve abrir caminho para que o Congresso Nacional vote, logo após as eleições, uma minirreforma do Judiciário, com a possibilidade de mudar até mesmo a forma de indicação dos ministros do Supremo.









