Ala socialista dos democratas amplia presença no Congresso dos EUA e tenta impor agenda radical

4 de Nov de 2026 - 12:50
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Ala socialista dos democratas amplia presença no Congresso dos EUA e tenta impor agenda radical

Os Democratas Socialistas da América (DSA), ala mais à esquerda do Partido Democrata, ampliaram nas midterms desta terça-feira (3) sua presença no Congresso dos Estados Unidos.

A apuração indica que o grupo, que tem o prefeito nova-iorquino, Zohran Mamdani, como seu maior nome, terá pelo menos sete representantes na Câmara a partir de janeiro.

Além da reeleição das deputadas Alexandria Ocasio-Cortez (representando Nova York) e Rashida Tlaib (Michigan), também venceram suas disputas nesta terça-feira Chris Rabb (Pensilvânia), Donavan McKinney (Michigan), Melat Kiros (Colorado), Darializa Avila Chevalier e Claire Valdez (ambas de Nova York).

Embora não seja integrante do DSA, o senador eleito por Michigan Abdul El-Sayed participou de eventos organizados pelo grupo e foi apoiado por alguns dos seus membros.

Nas disputas locais, a maior vitória do grupo foi a eleição de Janeese Lewis George para a prefeitura da capital americana, Washington.

Programa nacional do grupo prevê medidas radicais

As propostas radicais do DSA assustam democratas moderados e republicanos. O programa nacional do grupo prevê “desmilitarizar os departamentos de polícia” e “redirecionar recursos [da área] para [outros] serviços públicos” com o objetivo de “abolir totalmente a polícia”.

O DSA afirma no plano ter as metas de “redigir uma nova Constituição” para os Estados Unidos e “criar uma república socialista democrática”.

Nos três poderes federais, o grupo defende “expandir a Câmara dos Representantes”, “abolir o Senado” e “substituir o presidente e a Suprema Corte por um Executivo e um Judiciário escolhidos pelo Congresso e a ele subordinados”.

Na área econômica e trabalhista, o DSA quer impor uma jornada de trabalho de 32 horas semanais, “estabelecer a propriedade pública das maiores corporações e indústrias essenciais para garantir o controle democrático e a prestação de contas ao povo” e “instituir impostos agressivos sobre a riqueza dos indivíduos e corporações mais ricos para financiar bens públicos e infraestrutura”.

Outras metas são “legalizar a migração, conceder anistia a todos os imigrantes independentemente do seu status, oferecer um caminho para a cidadania a todos os residentes permanentes e acabar com os limites e cotas de vistos”.

Na área de família, o DSA prega “encerrar políticas que oprimem a autonomia corporal e a vida íntima, incluindo restrições patriarcais ao aborto, ao parto e à criação de filhos”.

Na política externa, os socialistas querem “cortar o financiamento do Departamento da Guerra” e “encerrar todas as guerras no exterior e fechar bases militares em outros países”.

Também defendem a necessidade de reconhecimento da Palestina, medida que seria acompanhada pelo encerramento de “toda a ajuda militar e econômica a Israel” e por processos judiciais contra “líderes dos EUA e de Israel” responsáveis ​​pelo que o DSA chama de “genocídio em Gaza”.

O programa do DSA também afirma a intenção de “encerrar a guerra econômica [sanções] contra países cujos governos agem de forma independente dos Estados Unidos, como Cuba, Venezuela e Irã”.

Em julho, o Departamento de Estado americano listou o DSA como um dos grupos de extrema-esquerda inspirados e/ou que possuem ligação com o regime cubano.

Jornalista prevê choque com lideranças democratas tradicionais

Em artigo publicado após as vitórias do grupo, Holly Otterbein, setorista do Partido Democrata do site Axios, disse que “o socialismo ganha força” nos Estados Unidos e ameaça até mesmo setores moderados da legenda.

“O número crescente de socialistas democráticos no Congresso pode se tornar uma dor de cabeça para Hakeem Jeffries [líder democrata na Câmara], já que alguns deles sinalizaram que estão dispostos a adotar uma postura de confronto para pressionar por pautas progressistas”, disse Otterbein.

Natali Hoff, professora do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse em entrevista à Gazeta do Povo que a ascensão do DSA, assim como a da direita nacionalista pelo mundo, reflete um contexto de desilusão com políticas mais ao centro.

“Eles falam com uma população que se vê muito cansada de entra governo, sai governo, e as coisas continuam praticamente iguais”, afirmou.

Hoff projetou, porém, que essa ala deve ser mais discreta nos dois anos que restam do mandato do presidente Donald Trump.

“Eles são um grupo ainda minoritário dentro do Partido Democrata. Eles têm essa agenda que é uma agenda mais à esquerda e progressista em relação à política mais tradicional implementada pelos democratas. Só que eles também vão ter que fazer política em um contexto onde Donald Trump governa”, afirmou a analista.

“Então, eu acredito que a gente vai ver nesses dois anos esse grupo buscando aprofundar a sua agenda dentro do Legislativo, mas ao mesmo tempo não colidindo de maneira tão significativa com o restante do partido por conta da oposição em comum a Trump”, disse Hoff, que afirmou que será necessário observar a partir das próximas primárias democratas, em 2028, ano em que o partido tentará voltar à Casa Branca, “como é que vai se desenhar isso: essas novas lideranças que estão surgindo com relação a lideranças democratas tradicionais”.