Frear a IA ou vencer a China? O dilema dos EUA na nova corrida tecnológica

17 de Set de 2026 - 22:11
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Frear a IA ou vencer a China? O dilema dos EUA na nova corrida tecnológica

Os Estados Unidos enfrentam neste momento um debate que pode definir os rumos da grande disputa tecnológica mundial: desacelerar o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) para evitar que sistemas cada vez mais autônomos escapem ao controle humano ou manter o ritmo para impedir que o regime comunista da China assuma a liderança de uma tecnologia considerada estratégica para a economia e a segurança nacional.

O debate ganhou força nos últimos dias depois que os chefões das principais empresas americanas de IA passaram a reconhecer que o desenvolvimento dos modelos mais avançados da tecnologia pode estar ocorrendo mais rápido do que a capacidade de entendê-los e controlá-los.

Dario Amodei, presidente da Anthropic, criadora da plataforma de IA Claude, defendeu no sábado (12) que as empresas reduzam a velocidade de desenvolvimento dos modelos. Sam Altman, da OpenAI, criadora do ChatGPT, Demis Hassabis, do Google DeepMind, e Elon Musk, da xAI, criadora do Grok, manifestaram apoio à ideia. Amodei propôs, entre outras medidas, abrir os laboratórios a avaliadores independentes e buscar alguma forma de coordenação entre empresas e governos.

O debate provocou uma reação dura do presidente Donald Trump. No domingo (13), durante uma viagem à Irlanda, ele rejeitou os apelos para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia e afirmou que havia “forças negativas” exagerando os riscos da IA. “Estamos à frente da China em IA. Somos o país mais avançado do mundo. E, francamente, quero que continue assim, porque quem vencer com a IA, vence”, afirmou.

Trump elevou ainda mais o tom no dia seguinte. Em publicação na Truth Social, classificou como uma “conspiração doentia” a pressão contra a expansão da IA e dos data centers nos Estados Unidos e afirmou que “o único que se alegra com isso é a China”. O presidente também chamou críticos do setor de “teóricos da conspiração, traidores e vazadores de informações” e deixou um aviso: “cuidado!”.

A preocupação da Casa Branca em relação ao regime da China tem base. Em relatório publicado neste ano, o Instituto de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano, da Universidade Stanford, concluiu que a vantagem americana sobre a China no desempenho dos principais modelos de IA praticamente desapareceu.

Segundo o relatório, modelos americanos e chineses alternaram posições entre os melhores do mundo desde o início de 2025. Em março deste ano, o modelo americano mais bem colocado, o Claude, superava o melhor modelo chinês por apenas 2,7% no Arena Leaderboard, ranking que compara o desempenho de sistemas de IA a partir de avaliações feitas por usuários.

O documento aponta que os Estados Unidos ainda produziram 59 modelos de IA considerados relevantes em 2025, contra 35 da China. Pequim, porém, já lidera em volume de pesquisas publicadas sobre o tema, citações científicas e concessões de patentes relacionadas à tecnologia.

Samm Sacks, pesquisadora sênior da Johns Hopkins School of Advanced International Studies especializada em tecnologia chinesa, resumiu a situação em declaração à Associated Press nesta terça-feira (15): “A diferença entre os modelos americanos e chineses é estreita e frágil”. 

EUA e China estão em uma corrida tecnológica pela liderança em IA

Graham Brookie, vice-presidente de programas de tecnologia do think tank Atlantic Council, afirmou em análise publicada pela instituição que os Estados Unidos estão atualmente em uma competição tecnológica global na qual a liderança em IA terá consequências para o poder econômico, a capacidade militar e a influência política dos países. Segundo ele, o resultado dessa disputa poderá “determinar se sociedades abertas e mercados livres, como os dos EUA, continuarão competitivos” diante de uma “alternativa autoritária baseada em vigilância”, em referência à China.

Brookie pondera, contudo, que apenas “vencer a competição pela superioridade em IA não significará nada” se o avanço da tecnologia aproximar os piores cenários de risco mais rapidamente do que governos e instituições conseguem administrá-los.

Por sua vez, Kenton Thibaut, especialista em China do Digital Forensic Research Lab do Atlantic Council, afirmou que tanto Washington quanto Pequim demonstram neste momento preocupação com a possibilidade de perda de controle sobre sistemas avançados de IA.

Thibaut lembrou que o próprio ditador chinês, Xi Jinping, já defendeu mecanismos para detectar comportamentos perigosos da tecnologia, identificar riscos com antecedência e manter a IA sob controle humano. Apesar dessa convergência, ela considera “altamente improvável” que os dois países fechem um “grande acordo” para desacelerar os avanços na tecnologia dentro do atual ambiente político.

Segundo Thibaut, assim como os EUA desconfiam da China, Pequim também desconfia das motivações dos Estados Unidos e teme que negociações nessa linha sejam usadas por Washington para preservar sua superioridade tecnológica.

Na segunda-feira (14), o Ministério das Relações Exteriores da China acusou os chefões da IA nos EUA de promover “narrativas de ameaça” ao pedir a desaceleração no desenvolvimento de novos modelos e de praticar “competição maliciosa”. A imprensa estatal chinesa também passou a apresentar as propostas de desaceleração feitas nos EUA como uma tentativa de Washington de limitar o desenvolvimento tecnológico de Pequim.

Em editorial publicado no domingo (13), o jornal estatal Global Times, ligado ao Partido Comunista Chinês (PCCh), acusou o chefe da Anthropic, Dario Amodei, de esconder uma “agenda oculta” por trás do discurso sobre segurança da IA. Segundo o jornal, a estratégia defendida pelo executivo seria uma espécie de “manual da Guerra Fria” destinado a conter o avanço chinês por meio de restrições a chips e outras tecnologias antes que Washington negociasse qualquer redução conjunta no ritmo de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, o ministro da Segurança do Estado chinês, Chen Yixin, reconheceu no domingo que a IA pode criar riscos para a segurança cibernética, estabilidade política e até para o próprio sistema de governo do país.

Os riscos da IA

Em julho, durante testes internos de cibersegurança da OpenAI, modelos de inteligência artificial que deveriam permanecer isolados descobriram maneiras de se comunicar, obter acesso à internet e entrar em sistemas da plataforma Hugging Face, uma das principais plataformas usadas por desenvolvedores para hospedar e compartilhar modelos de IA.

A própria OpenAI reconheceu posteriormente que os modelos contornaram sozinhos os controles criados para isolá-los e realizaram ações que não correspondiam ao objetivo das tarefas recebidas. Os agentes exploraram vulnerabilidades, acessaram sistemas de terceiros e comprometeram partes da infraestrutura da Hugging Face e da própria OpenAI.

O caso acirrou o debate entre os que temem uma perda de controle humano sobre sistemas de IA. Contudo, avaliações independentes ressaltam que casos como o da Hugging Face não significam que já exista atualmente uma inteligência artificial capaz de escapar completamente ao controle humano ou representar, por si só, uma ameaça à humanidade.

O relatório International AI Safety Report 2026, publicado em fevereiro, que é elaborado com a participação de mais de uma centena de especialistas, afirma que os modelos de IA atuais já até apresentam sinais iniciais de capacidades consideradas relevantes para esse tipo de risco, como planejamento autônomo, identificação de brechas em avaliações e comportamentos capazes de contornar mecanismos de supervisão. Contudo, o documento mostra que tais modelos ainda não conseguem combinar, de maneira robusta e por períodos prolongados, capacidades como escapar da supervisão, executar planos de longo prazo e impedir que humanos adotem contramedidas.

No relatório, alguns especialistas consideram improváveis cenários em que sistemas de IA escapem ao controle humano. Outros, no entanto, avaliam que a possibilidade merece atenção diante da gravidade potencial das consequências.

Na semana passada, o pesquisador Jacob Coxon, que trabalhou nos últimos três anos no desenvolvimento de IA na OpenAI e na Anthropic, deixou seu cargo na empresa de Amodei após acusar as duas companhias de estarem avançando de forma “irresponsável” na corrida por sistemas de IA cada vez mais poderosos.

“Elas estão correndo diretamente para uma superinteligência capaz de se autoaperfeiçoar e apostando com nossas vidas”, escreveu ao anunciar sua saída.

Coxon afirmou ainda que pessoas envolvidas diretamente na construção desses sistemas acreditam seriamente que a IA “poderia matar todos nós até o fim da década”.

Em posterior entrevista à revista Wired, Coxon afirmou que os próximos “um ou dois anos” serão um período decisivo para definir se sistemas mais avançados poderão ser desenvolvidos com segurança. Ele também apontou a a competição entre laboratórios americanos, e entre estes e empresas chinesa, como um dos fatores capazes de levar as companhias a assumir riscos maiores para não ficar para trás.