NASA, Trump, Academia Espacial e o que esperar do futuro

17 de Set de 2026 - 22:15
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NASA, Trump, Academia Espacial e o que esperar do futuro

Muita gente não gostou quando, durante seu primeiro mandato, Donald Trump criou a Força Espacial dos Estados Unidos (USSF), e esses mesmos voltaram a pegar em tochas imaginárias para condenar o passo seguinte, quando o presidente dos EUA assinou um decreto criando a Academia Espacial, que ficará sob jurisdição da NASA.

Enquanto a Força Espacial é um dos seis braços das Forças Armadas do país, a Academia terá como função não só formar militares, mas também profissionais civis das mais diversas áreas, todos voltados ao desenvolvimento espacial.

O 47.º presidente dos EUA, Donald Trump, exibe uma jaqueta de voo que lhe foi presenteada pelos membros da tripulação da Artemis II, Christina Koch (da esq. para a dir.), Victor Glover, Reid Wiseman e Jeremy Hansen (não visível na foto), após a tripulação receber a Medalha de Honra Espacial do Congresso em 28 de agosto de 2026, no Centro Espacial Johnson, em Houston (Crédito: Mark Schiefelbein/AP)

Para Donald Trump, o Espaço é o próximo território a ser conquistado pelos EUA, e tanto a Força quanto a Academia Espacial são partes do plano (Crédito: Mark Schiefelbein/AP)

Recentemente, a NASA abriu uma requisição formal para um terreno onde a Academia Espacial será estabelecida, em que os 50 estados poderão apresentar propostas; enquanto isso, o Congresso não desgosta totalmente da ideia do Trump, mas exige participação e controle na empreitada, às vésperas da eleição dos midterms.

NASA vai comandar Academia Espacial, mas...

No papel, a ideia de Trump não é tão ruim: a criação da Força Espacial visava essencialmente evitar o pesadelo burocrático que é cada setor dos militares investir por conta própria em tecnologia aeroespacial, assim como aconteceu com a aviação até a criação da USAF, e mesmo hoje, a Marinha não abre mão de operar seus próprios aviões.

De cara, a Força Espacial absorveu todos os lançamentos confidenciais que antes ficavam a cargo da Força Aérea, do GPS (que é um asset estratégico militar, assim como o GLONASS russo e o BeiDou chinês; apenas o GALILEO europeu é de uso exclusivo civil) e outros sistemas, e conta com um orçamento que em 2026 chegou a quase US$ 40 bilhões (~R$ 205,4 bilhões, cotação de 14/09/2026).

Assim como Exército, Marinha, Força Aérea, Fuzileiros Navais e Guarda Costeira, a Força Espacial é uma instituição estritamente militar, que não é sujeita a um órgão civil como a NASA; por isso, não surpreende que a criação da Academia Espacial, mesmo sob administração da agência espacial e voltada à formação desde a base também de cientistas e engenheiros, será modelada segundo o presidente em... West Point.

Mesmo considerando a metralhadora de memes gerados por IA nas redes sociais, não é segredo que Trump quer garantir o domínio dos EUA no Espaço, seja na Lua, em Marte e/ou além, sozinho e antes de qualquer outra nação, especialmente da China, que vale lembrar também possui uma Força Espacial própria; os russos foram os primeiros nesse sentido.

Post de Donald Trump na rede social TRUTH, mostrando imagem gerada em IA com suposto futuro uniforme da Força Espacial (Crédito: Truth Social)

Mantenha em mente que isso foi (provavelmente) apenas mais um meme, mas como ninguém entendeu Tropas Estelares... (Crédito: Truth Social)

No dia 10 de setembro de 2026, a NASA apresentou um novo documento (cuidado, PDF), no qual define uma janela de tempo para que os 50 estados apresentem propostas para sediar a Academia, e deixa algumas dicas:

"A Academia Espacial formará os futuros cientistas, engenheiros, astronautas, pilotos, operadores, empreendedores, servidores civis, combatentes e outros líderes, a fim de avançar os interesses americanos no setor aeroespacial."

A intenção da NASA é garantir um terreno de 300 acres (~1,2 km2), com preferência de proximidade a propriedades da agência ou de campi de universidades; a capacidade inicial prevista é de 1.200 graduandos, podendo ser expandida para até 4 mil no futuro. Especula-se que os estados do Texas (graças ao Centro Espacial Johnson), Flórida (Centro Espacial Kennedy) e Alabama (Centro de Voos Espaciais George C. Marshall) apresentem as propostas mais atraentes.

Embora o documento cite que a Academia será uma instituição mista, o regimento de ensino já mostra que sua real missão será formar mais militares do que cientistas e engenheiros ou, na melhor das hipóteses, militares com habilidades extras; na visão de Trump, o Espaço não será conquistado por homens de jaleco e óculos, mas por aqueles com fardas e armas em punho.

Convenhamos, mesmo a utopia de Star Trek gira em torno de uma força militar interplanetária, e não de cientistas ou engenheiros civis.

Capitão Jean-Luc Picard (Sir Patrick Stewart) e comandante William T. Riker (Jonathan Frakes) disparam seus phasers em cena do episódio "Conspiracy" (S01E25) de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (Crédito: Reprodução/Paramount) / nasa

Lower Decks nos lembrou que phasers têm múltiplos usos, mas eles são armas antes de tudo (Crédito: Reprodução/Paramount)

Congresso não quer ficar de fora

O administrador da NASA, Jared Isaacman, foi incumbido por Trump de avaliar o processo de seleção, e uma comissão formada pela Chefe de Gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, e pelos secretários de Estado e Defesa, respectivamente Marco Rubio e Pete Hegseth, irão avaliar a decisão da agência, mas a palavra final ainda caberá ao presidente que, muito provavelmente, tende a favorecer estados controlados pelo Partido Republicano.

Notou falta de alguém no processo? Pois é, o Congresso também, e ele não ficou nada contente com isso.

O senador democrata John Hickenlooper, por exemplo, chamou o projeto de criação da Academia Espacial de "uma ideia duplicada, cara e nada séria", mas suas declarações soam mais como uma defesa da Academia da Força Aérea, que fica em seu estado, Colorado; já o representante George Whitesides (DEM/Califórnia) foi bem mais político, se limitando a chamar a ideia de "intrigante", enquanto levantou dúvidas sobre de onde virá o dinheiro para financiar a empreitada.

A também representante democrata da Califórnia, Zoe Loefgren, que é membro do comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia, apontou para o óbvio que nenhum dos seus pares quis mencionar: o Congresso VAI se envolver nas tomadas de decisão, Trump queira ou não. A possibilidade de que os republicanos percam o controle de ambas as casas durante os midterms, que muitos apontam como uma possibilidade real, jogaria ainda mais água no chope na Coca Light do presidente.

Whitesides levantou uma questão pertinente ao mencionar o custo: a Academia Espacial irá fornecer ensino "gratuito" que, segundo fontes, deverá ser pago com serviço ao governo; embora o documento da NASA não deixe claro, é esperado que a maioria dos graduados, especialmente cientistas e engenheiros, seja alocada na agência, enquanto outros poderão optar por ir para a Força Espacial.

Essencialmente, é uma instituição para formar novos membros do membro caçula das Forças Armadas, e também novos servidores públicos, que espera-se, prestem trabalhos à nação por um bom tempo. No geral, o Congresso não desgosta da ideia; só está azedo por ser deixado de fora do rolê pela Casa Branca.

De qualquer forma, Trump tem pressa: o documento prevê que as aulas comecem já em 2028, antes do fim de seu segundo mandato, mas muitos dos próximos desenvolvimentos vão depender dos resultados nas urnas, em novembro de 2026.

Fonte: Ars Technica

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