Petista 'liberal'? Como governador Rafael Fonteles entrou no radar de Lula para comandar a economia do Brasil
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- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
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No discurso da vitória após sua , o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) definiu que o seu "comandante" era Rafael Fonteles (PT), governador reeleito do Piauí.
"Quero dizer para vocês que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo. Eu inclusive já ganhei um celular do meu comandante Rafael [Fonteles]", disse Lula.
Posicionado ao lado do presidente nos momentos-chave de comemoração, Fonteles ganhou papel de destaque na campanha do segundo turno das eleições após se tornar o do país no primeiro turno, com mais de 70% dos votos no seu Estado.
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Agora, seu nome tem sido o mais cotado para o cargo de ministro da Fazenda no quarto governo Lula, segundo uma fonte ouvida pela BBC News Brasil.
Fonteles, que é matemático com pós-graduação em economia matemática, não tem confirmado a informação, dizendo que seu plano é seguir no governo do Piauí e que ainda não trabalha com a hipótese de ir para a Fazenda. Seus assessores também não confirmam um convite de Lula.
"Nunca tratei com Lula sobre qualquer cargo no mandato", disse Fonteles em entrevista ao canal Globonews na segunda (26/10).
Mesmo com as negativas do governador, o mercado e jornalistas já especulam sobre como seria uma eventual gestão de Fonteles na Fazenda.
Visto por analistas e colegas do PT como um petista pragmático, de uma ala mais liberal do partido e defensor de uma "frente ampla" com partidos de centro, nos últimos quatro anos Fonteles tem sido lembrado com frequência como um quadro com potencial de alçar voo nacional dentro do partido.
O cientista político Vitor Sandes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), avalia que o governador simboliza uma perspectiva de renovação do PT.
"Ele consegue enquadrar, de alguma maneira, uma herança do lulismo, fundamental dentro do PT, mas ao mesmo tempo trazer uma renovação com eleitores que até se identificam (com o PT) , mas com outras perspectivas e demandas", diz o professor.
O que esperar de Fonteles na Fazenda
A primeira incursão de Fonteles na gestão pública veio em 2015, quando foi convidado para ser secretário da Fazenda pelo então governador Wellington Dias (PT), no início de seu terceiro mandato no Piauí.
Embora seja filho de um quadro histórico do PT no Piauí, o ex-deputado Nazareno Fonteles, Rafael ganhou projeção por sua experiência empresarial, e não pela militância de base.
Estudou em uma das escolas particulares mais conceituadas de Teresina, a Dom Barreto, onde se destacou acumulando prêmios em olimpíadas de química, física e matemática.
Uma reportagem do Estadão de 2007 sobre alunos superdotados trazia uma entrevista com o jovem Rafael Fonteles, com 21 anos, após ele terminar em um único ano o mestrado em Economia no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro.
O texto dizia que Fonteles escolheu não pular nenhuma série no colégio: "Quando você acelera muito, sua maturidade não acompanha", declarou na época.
Aos 17 anos, iniciou o curso de Bacharelado em Matemática, após chegar em primeiro lugar no vestibular da UFPI.
Ali, fundou um cursinho pré-vestibular, que depois viraria um dos principais colégios particulares de Teresina, o CEV. Como empresário, também tinha uma consultoria de investimentos, além de ter sido assessor de investimentos na XP.
Segundo o professor Sandes, a gestão de Fonteles na Fazenda do Estado ficou marcada pela adoção de medidas para garantir a responsabilidade fiscal.
Escolhido por Dias como sucessor, foi eleito governador em 2022, aos 37 anos — o mais jovem já eleito do Piauí —–, e reeleito aos 41 anos.
No seu governo, foi favorável às Parcerias Público-Privadas (PPPs), contratos de longo prazo entre a administração pública e empresas privadas para viabilizar obras e serviços.
A principal foi o concessão do serviço de água e saneamento para a iniciativa privada, extinguindo a empresa de Águas e Esgotos do Piauí (Agespisa), mesmo com protestos de servidores e com críticas da militância de esquerda.
Também cedeu à iniciativa privada o Parque Potycabana, um dos principais de Teresina, às margens do rio Poti. Hospitais estaduais também passaram a ser geridos por organizações sociais.
"Fonteles é visto dentro do PT como mais liberal, com uma trajetória política de estimular a concessão de serviços. É uma leitura diferente do restante do PT", explica Vitor Sandes.
"Mas isso também faz com que ele tenha avaliação positiva em setores mais conservadores, liberais, conseguindo dialogar com esse público", conclui.
Segundo o professor, ao mesmo tempo em que busca atrair investimentos privados, o governador também "não deixou de lado o apoio a politicas sociais", em áreas como educação e agricultura familiar, o que se reflete na sua alta aprovação. Também instituiu um processo de monitoramento e avaliação de políticas públicas com base em dados.
À Globonews, Fonteles disse que durante a campanha eleitoral deste ano não tratou de assuntos econômicos com o presidente Lula. Mas deu sinais de que equilíbrio fiscal seria uma preocupação que ambos têm em comum.
"Não tenho como falar quais os planos de Lula, mas quero deixar claro que o presidente, nos dois primeiros mandatos, foram oito anos de superávit primário. Ele tem compromisso com equilíbrio das contas públicas. Muitas vezes não é o que mercado deseja, mas ele não é presidente apenas daqueles que atuam no mercado", declarou.
"Muita gente pensa que responsabilidade fiscal é uma bandeira da direita e dos liberais. Quando, na verdade, não existe política pública sem equilíbrio fiscal", disse Fonteles no fim de 2025 ao podcast Market Maker, direcionado a investidores da Faria Lima.
No discurso da vitória, Lula se dirigiu uma segunda vez a Fonteles para destacar investimentos em áreas caras a ele que poderiam levar o Brasil ao desenvolvimento:
"Como diria o Rafael, muito investimento na economia digital, na economia verde e na economia criativa", disse o presidente reeleito.
O Piauí com um 'Rafa boy'
Caso aceite um eventual convite para assumir a Fazenda, Fonteles viveria a situação inédita de deixar o cargo de governador logo após ser reeleito.
Para o cientista político Vitor Sandes, porém, no Estado há um "clima positivo" com a repercussão nacional de um líder piauiense.
O vice-governador que assumiria o Palácio de Karnak, em Teresina, é Washington Bandeira (PT).
Ele é considerado uma escolha pessoal de Fonteles, mesmo que setores do PT tenham defendido outros nomes para o cargo, como Vinícius Dias, filho do ex-governador Wellington Dias.
Bandeira é enxergado como um "Rafa boy", alcunha usada pela imprensa local para se referir a nomes de confiança e alinhados ao governador.
"Em tese, teremos uma continuidade, sem destoar do estilo de Fonteles", diz Sandes.
Ex-juiz, Bandeira não tem histórico em movimentos sociais e deixou a magistratura para assumir a secretaria de Educação do governo Fonteles, sendo responsável pela estratégia de expansão das escola em tempo integral.
O cargo de vice foi o primeiro eletivo que disputou.
Sobre a possibilidade de assumir o governo, Bandeira disse em entrevista à TV Cidade Verde que está "pronto para todas as missões que o povo do Piauí me confiar".
"Se isso vier a acontecer, vamos abraçar a missão, mas reitero que ainda é muito cedo e estamos no campo das especulações", afirmou.
Bandeira é visto como alguém que daria continuidade ao "estilo Fonteles", do jeito que é visto por correligionários no Estado.
A ex-governadora e ex-senadora Regina Sousa, nome histórico do PT no Piauí, em entrevista ao portal local 180 Graus, destacou que Fonteles tem um diferente estilo de liderança, com métodos que podem ser novos para o PT.
"Ele é elétrico, e sua forma de agir pode parecer estranha, ele é muito tecnológico", declarou Sousa, ao comentar discussões internas do PT. É comum a imprensa do Estado relatar um clima de descompasso entre o governador e petistas mais antigos.
As marcas no Piauí
Além de se colocar com um gestor que valoriza políticas sociais ao mesmo tempo que busca investimento privado, Fonteles acumulou bons resultados do Piauí na educação (hoje entre as melhores colocações nacionais no Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e, especialmente, na segurança pública, com uso de tecnologia para recuperar celulares, atender ocorrências policiais e um projeto de blitze focadas em recuperar veículos roubados.
Hoje, o Piauí é o Estado menos violento do Nordeste, levando em conta o índice de homicídios, segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
"O nosso governo é muito bem aprovado na segurança pública. Sem dúvida, é um dos fatores que nos colocam com uma boa aprovação popular", disse Fonteles à BBC News Brasil em agosto.
Entre as críticas públicas mais recorrentes à gestão de Fonteles estão as frequentes viagens internacionais do governador e os gastos associados a elas. Fonteles defende as viagens como missões para atrair investimentos, especialmente para projetos de infraestrutura.
As críticas também atingem projetos audaciosos, apresentados como símbolos da transformação econômica do Estado, entre eles, o porto de Luís Correia, prometido há 50 anos no diminuto litoral piauiense e inaugurado em 2023.
Em julho passado, o governo anunciou o início da fase operacional do porto, apesar de a dragagem do canal de acesso, essencial ao funcionamento pleno do terminal, ainda não ter sido concluída. Assim, um navio exportador que levava minério de ferro para a China teve de ser abastecido em uma operação de transbordo em alto-mar.
Opositores como Ciro Nogueira (PP-PI) argumentam que, sem a obra de dragagem concluída, não há um porto operacional.
Outro projeto criticado é o bilionário polo de hidrogênio verde, prometido para a região de Parnaíba, que tem sofrido reveses na Justiça por questões ambientais e ainda não entrou em operação.