Dirceu diz que vitória de Lula não foi do PT e cobra reconstrução “urgente” do partido

3 de Nov de 2026 - 17:00
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Dirceu diz que vitória de Lula não foi do PT e cobra reconstrução “urgente” do partido

O ex-ministro José Dirceu (PT-SP) afirmou que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não representou uma vitória do Partido dos Trabalhadores e defendeu uma reformulação da legenda.

Em entrevista ao jornal O Globo, publicada nesta terça-feira (3), o petista classificou como "urgente" a renovação do partido e cobrou mudanças na organização interna, na formação política e na atuação nas redes sociais.

"A vitória na eleição não foi do PT. Temos que tirar consequências disso, não pode só falar. Temos que fazer quase uma reconstrução do PT", declarou Dirceu.

O ex-ministro também defendeu a aproximação com outras siglas de esquerda, como PSOL, Rede, PDT e PSB, para formar uma força política "mais orgânica"

Segundo ele, o futuro do partido depende da união de diferentes setores progressistas e democráticos.

"Temos de democratizar mais o PT, melhorar a formação política e a atuação nas redes. A renovação no PT é urgente", afirmou.

Dirceu reconheceu que o partido precisa abrir espaço para novas lideranças e ampliar a participação de mulheres e jovens.

Embora a renovação da direção petista esteja prevista apenas para 2029, a legenda deverá discutir mudanças em seu estatuto durante um congresso.

Aproximação com jovens e evangélicos

O ex-ministro também apontou dificuldades do PT para dialogar com setores da sociedade insatisfeitos com a esquerda, especialmente jovens e evangélicos.

Ele defendeu que a legenda abandone estigmas e não associe automaticamente os eleitores evangélicos ao bolsonarismo.

"Temos de compreender melhor os setores da sociedade, sobretudo a juventude, insatisfeitos com a esquerda. Precisamos superar essa questão que o PT é antievangélico. Não podemos ter preconceito de que os evangélicos são bolsonaristas", disse.

Dirceu também cobrou do governo Lula uma postura aberta aos eleitores que apoiaram o senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário do presidente no segundo turno.

Para ele, parte desse eleitorado votou em Lula por compromisso com a democracia e espera que o governo represente suas reivindicações.

"Não podemos decepcionar essas pessoas e temos que ganhar a juventude que votou legitimamente no Flávio. Nós não devemos estigmatizar, atacá-la como se fosse um pecado votar na direita. Temos que dialogar", afirmou.

Ex-ministro defende pacto político e reformas

Na avaliação de Dirceu, a reeleição de Lula representou uma "revolução pacífica e democrática pelo voto".

Ele afirmou que o resultado deu ao presidente uma oportunidade para ampliar a composição do governo e construir um pacto político nacional.

"O presidente tem uma oportunidade histórica de chamar o país a um pacto político", declarou.

O ex-ministro defendeu que o governo negocie reformas tributária, financeira, política e do Judiciário com diferentes setores da sociedade.

"O Brasil precisa de reformas, que precisam ser pactuadas: tributária, financeira, política e do Judiciário. Ele tem autoridade para liderar isso", disse.

Dirceu também abordou a situação das contas públicas. Para ele, o país precisa enfrentar a dívida pública e reduzir os juros, mas o governo não deve promover um ajuste fiscal contrário às expectativas do eleitorado que reelegeu Lula.

"Precisa fazer reforma, mas então vamos começar pela renúncia fiscal", afirmou.

Sucessor de Lula terá de provar capacidade de liderança

Questionado sobre a sucessão de Lula no campo da esquerda, Dirceu afirmou que o surgimento de uma nova liderança dependerá da capacidade de cada nome de demonstrar experiência política e administrativa.

"Terão de provar isso governando ou liderando. Alguém vai se destacar", disse.

O ex-ministro citou o titular da Fazenda, Fernando Haddad (PT), como exemplo de liderança que ganhou projeção ao comandar os ministérios da Educação e da Fazenda.

Para Dirceu, a derrota eleitoral de Haddad não elimina suas possibilidades políticas.

"O Haddad se destacou como ministro da Fazenda e da Educação e ganhou espaço. Perdeu a eleição, mas isso não quer dizer nada. O Lula perdeu três e se elegeu quatro vezes presidente", afirmou.

Dirceu também avaliou que o PT do Nordeste terá maior participação nas decisões internas da legenda.

Dirceu atribui derrota eleitoral à ausência de campanha

Derrotado na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo, Dirceu atribuiu o resultado, em parte, à impossibilidade de fazer campanha durante o tratamento contra um linfoma.

"Eu não fui eleito porque não fiz campanha. Fiquei em casa de 10 de maio a 22 de setembro", afirmou.

O ex-ministro também mencionou a perda de aproximadamente 700 mil votos do PT para deputado federal em São Paulo em relação à eleição anterior.

"Já virei essa página. Não serei mais candidato", concluiu.