É para comparar (por Mary Zaidan)

20 de Set de 2026 - 09:40
 0  0
É para comparar (por Mary Zaidan)

Possivelmente pela perigosa proximidade do adversário nas pesquisas de intenção de voto, o presidente Lula anunciou reajuste no Bolsa Família a dias da eleição. Os riscos da medida, que além do desgaste de ser incontestavelmente eleitoreira tem chance razoável de não “chegar a tempo” ao eleitor, pode vir a ser compensada se jogar luzes sobre o benefício, marca de impacto de Lula, em vigor há 23 anos. A despeito das críticas, a equipe do presidente-candidato aposta que, assim, traz o debate para o seu campo, desnudando o seu opositor, que nada teria para mostrar, nem mesmo atividade legislativa nos seus mais de sete anos como senador e outros 16 como deputado fluminense.

Eleito pelo Rio de Janeiro com 4,3 milhões de votos no mesmo ano em que seu pai chegou à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL) teve uma atuação discretíssima no Senado. Ao longo do tempo apresentou 67 propostas, tendo conseguido aprovar apenas uma – o PL 3.190 de 2023, prevendo limites diferenciados de taxas de juros dentro do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado. Outras três iniciativas de sua autoria aguardam votação na Câmara: reciclagem de baterias de carros elétricos, regras para a formação de cadeias de transmissão em radiodifusão e a inclusão da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR) entre as entidades que recebem recursos de loterias.

A maioria de seus projetos de lei versa sobre segurança, incluindo uso de armas e proteção de policiais, além da redução da maioridade penal, tópico que também aparece em seu programa de governo. Mas nem no seu carro-chefe Flávio se destacou. Presidente da Comissão de Segurança do Senado, faltou em 73% das sessões realizadas neste ano, sendo que apenas uma delas poderia ser justificada por agenda de campanha. Não apareceu também para votar a proposta de enquadrar facções criminosas como organizações terroristas, iniciativa derrotada no ano passado pela Casa. A classificação ecoa Donald Trump e aparece com destaque no programa de governo e nos discursos do candidato.

Com 76 páginas, seu programa registrado no TSE é como um manual de magia. Tem solução pronta para todas as coisas. De olho no público feminino, eleitorado em que perde para Lula em todas as sondagens, Flávio propõe o Brasil por Elas, nome bonito para uma série de ações espetaculares que fazem valer a máxima de que “o papel aceita tudo”.

Na linha inversa à repentina preocupação com as mulheres, de 2003 a 2026, portanto em quatro mandatos como deputado estadual e um no Senado, Flávio apresentou apenas três propostas de lei direcionadas a elas, segundo levantamento da Agência Pública. A mais relevante, que permite à autoridade policial conceder, em caráter emergencial, medidas protetivas em caso de violência doméstica e familiar, foi protocolada em março deste ano, meses depois de ele ser ungido candidato pelo pai.

Os resultados medíocres em 24 anos de vida pública se diferem bastante de sua meteórica progressão financeira. Nesse período, Flávio enriqueceu – e muito. Declarou, oficialmente, possuir R$ 8,1 milhões contra R$ 4,7 milhões de Lula.

Na campanha, tem conseguido driblar reveses. Se em maio foi nocauteado com a revelação de que havia pedido R$ 134 milhões e recebido R$ 61 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que ele jurava desconhecer, há pelo menos um mês tem sido beneficiado pela crise no STF, que engolfou a disputa eleitoral. Assim, até agora não teve de mostrar o que (não) fez, nem como pretende fazer o que promete.

Mesmo com críticas de que ele só navega no passado, Lula se esbalda no campo das realizações, mais confortável para ele do que qualquer outro. O que ele quer é espaço para falar mais de Bolsa Família, Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida e outros programas sociais que, inegavelmente, reduziram a pobreza e até tiraram o Brasil, por duas vezes, do Mapa da Fome da ONU. Nesta altura, o melhor dos mundos para Lula é trazer o debate para o lado do compromisso com os pobres contra as regalias dos ricos, aumento do salário mínimo acima da inflação, escola integral, fim da jornada 6 x 1. E se contrapor a quem não tem história.

A Flávio, espremido pela fraca atuação como legislador, resta elogiar o governo do pai, ainda que traga junto a rejeição que o ex acumulou. Prefere manter o disco na rotação atual, com as promessas de efeito, como impeachment de ministros do Supremo e linha dura na segurança, bradando castração de abusadores sexuais com um facão de plástico na mão, como, dramaticamente, fez em um palanque pernambucano.

Lula erra ao usar o Bolsa Família como moeda eleitoral. Do outro lado, Flávio, que em mais de duas décadas pouco fez além de construir vasto patrimônio, vê encorpar a aprovação da mentira e do ludibrio – do performático falso facão.

 

Mary Zaidan é jornalista