Entenda como a genética dos cães pode ter revelado mistérios do desastre de Chernobyl
O desaste na Usina Nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986, liberou toneladas de radioisótopos e contaminantes tóxicos na atmosfera, transformando a região em um dos cenários mais inóspitos do planeta. No entanto, o local ainda guarda mistérios, e um deles passa pelos cães que continuaram a viver e se reproduzir ao longo de mais de 35 gerações.
Um estudo publicado na revista científica Genes revelou que a resposta para a sobrevivência dos animais na Zona de Exclusão está gravada no próprio DNA. Ao mapear o genoma completo dos cães da região, os cientstas ajudaram a elxplicar segredos sobre a adaptação biológicas em ambientes radioativos.
Acaso ou evolução?
Uma das maiores dúvidas dos biólogos era se as diferenças genéticas observadas nos cães da usina eram resultado do acaso, como o isolamento geográfico e o cruzamento entre parentes, ou se representavam uma evolução adaptativa real.
O estudo comprovou que a diferenciação não ocorreu por sorte. Os cães que vivem nas imediações da Usina Nuclear de Chernobyl passaram por um processo de seleção natural adaptativa.
Ou seja, as condições extremas do ambiente atuaram como uma pressão evolutiva que favoreceu os indivíduos portadores de mutações protetoras.
O enigma dos vizinhos
O mistério passa pela discrepância genética entre populações de cães que vivem a poucos quilômetros de distância. Os pesquisadores compararam os cães da usina nuclear com os cães da Cidade de Chernobyl e com cães isolados nas Ilhas Galápagos.
Como resultado, perceberam que os os cães das Ilhas Galápagos são mais parecidos com os cães da Europa continental do que os cães da usina nuclear são em relação aos seus vizinhos da Cidade de Chernobyl.
O movimento provou que a contaminação ambiental por radiação e metais pesados exerceu um impacto evolutivo muito mais profundo e acelerado do que o isolamento geográfico em uma ilha.
“Armas Biológicas” no DNA contra radiação
Mas, uma pergunta ainda precisava ser respondida. Como o organismo desses animais consegue resistir à contaminação por tantos anos? A análise genômica identificou 1.138 regiões com alterações marcantes e 247 genes-candidatos sob seleção positiva na população da usina.
A genética revelou que os cães desenvolveram reforços em três frentes biológicas, sendo reparo de DNA, controle de tumores e resistência inflamatória.
Na primeira frente, o desenvolvimento está em genes aprimorados para revisar e reconstruir o cógido genético danificado pela radiação ionizante. A segunda é a ativação de vias genéticas que bloqueiam a proliferação de células cancerígenas e evitam o surgimento de tumores precoces.
Por último, estão mecanismos imunológicos capazes de conter inflamações crônicas causadas por metais pesados e toxinas ambientais.
A hipótese dos cientistas é que, nas gerações imediatamente posteriores ao acidente de 1986, apenas os cães com essas mutações protetoras conseguiram atingir a idade adulta e deixar descendentes, transmitindo o “escudo genético” para as gerações atuais.
O que os cães revelam sobre o futuro humano?
Para os cientistas, além de desvendar a história de Cehrnobyl, o estudo aponta para o futuro. Os cães domésticos são considerados sentinelas biológicas para a saúde humana, pois compartilham ambientes e respostas metabólicas semelhantes às nossas.
O estudo indica que compreender como os cães de Chernobyl reescreveram o genoma para resistir ao estresse ambiental crônico fornece pistas para a oncologia comparada e para entender os limites da resiliência biológica humana diante de futuros acidentes industriais, nucleares ou contaminações por toxinas.