Flávio Bolsonaro diz ao NY Times que 'vai levar para o túmulo' como saiu do Brasil; jornal aponta ajuda dos EUA

5 de Nov de 2026 - 18:50
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Flávio Bolsonaro diz ao NY Times que 'vai levar para o túmulo' como saiu do Brasil; jornal aponta ajuda dos EUA

Em sua primeira entrevista , o senador afirmou ao jornal americano The New York Times que organizou sozinho sua saída do Brasil para os e que não recebeu ajuda de nenhum governo para deixar o país.

Publicada nesta quinta-feira (5/11), a reportagem questiona o senador brasileiro sobre como ele conseguiu chegar a Miami. "Como cheguei aqui", afirmou, "vou levar isso para o túmulo comigo".

A declaração contrasta com informações obtidas pelo próprio jornal com autoridades americanas. Segundo elas, um funcionário da Casa Branca organizou o jatinho que transportou Flávio para Miami, e sua entrada nos Estados Unidos foi autorizada diretamente pelo presidente .

O candidato derrotado nas eleições presidenciais deixou o país na semana passada e aterrissou nos Estados Unidos em 28 de outubro, três dias após o segundo turno.

O senador também passou pelo Equador e pela Argentina durante o trajeto. Neste último país, um dos principais assessores do presidente Javier Milei o encontrou em um aeroporto, aponta a reportagem.

Na entrevista de 75 minutos, Flávio negou ter recebido assistência oficial. "Foi tudo por minha conta", afirmou ao jornal. "Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo."

O senador disse que a decisão de deixar o país foi tomada espontaneamente, em conversa com a mulher, depois de concluir que poderia enfrentar o mesmo destino de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Segundo seu relato, a decisão foi tomada na manhã seguinte à derrota na eleição presidencial. Na ocasião, Flávio deixava o condomínio onde o pai cumpre prisão domiciliar quando teria sido informado pelas autoridades de que deveria entregar seus passaportes em 24 horas.

O senador afirmou que, antes de partir, Jair Bolsonaro o chamou para uma conversa. "Ele olhou nos meus olhos e disse: 'Você já sabe onde eles vão chegar com isso, não sabe?'", contou.

"Eu disse: 'Pai, já sei. E estou preparado, sei o que tenho de fazer.' Virei as costas e fui embora", relatou o senador ao jornal americano.

Horas depois, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais no qual dizia que entregaria os documentos e que nunca havia pensado em deixar o Brasil. Cerca de 40 horas mais tarde, apareceu em Miami.

O parlamentar afirmou ao New York Times que preferiu sair do país a correr o risco de ser preso. "Já sei que o desfecho final será minha prisão", disse, ao acusar o Judiciário brasileiro de agir com excesso de rigor e motivação política.

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Flávio é alvo de duas investigações que apuram suspeitas de irregularidades financeiras e lavagem de dinheiro.

Uma delas envolve , filme sobre a trajetória política de seu pai.

A suspeita dos investigadores é que parte dos recursos possa ter sido desviada para outras finalidades. O dinheiro não foi diretamente para a produtora, mas para um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador.

Flávio nega irregularidades e afirma que se tratou de uma negociação privada, sem contrapartida.

A segunda investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro em operações envolvendo o advogado Willer Tomaz, amigo próximo de Flávio, empresas de pagamento e o setor de apostas no Rio de Janeiro.

Segundo relatório da PF, foram encontradas referências a encontros entre os dois, além de registros de uma conta de uma empresa com sede em Portugal na qual Flávio apareceria como "usuário master".

O documento também aponta movimentações milionárias em contas ligadas a Tomaz e viagens internacionais pagas por uma holding do setor de apostas de propriedade do advogado.

Flávio reconhece a amizade com Tomaz, mas nega ter tido acesso ou poderes sobre contas de empresas do advogado.

O senador não foi formalmente acusado de nenhum crime. As duas apurações estão no Supremo Tribunal Federal (STF), uma sob relatoria do ministro André Mendonça e outra sob a do ministro Alexandre de Moraes.

No dia seguinte ao segundo turno das eleições, Moraes determinou a apreensão dos passaportes de Flávio no âmbito da investigação sobre sua relação com Tomaz. Mas o parlamentar não entregou os documentos no prazo estabelecido.

Com o fim de seu mandato, em 31 de janeiro de 2027, Flávio perderá a imunidade parlamentar. Isso, porém, não significa necessariamente que os casos deixarão o STF.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a jurisprudência da Corte prevê a manutenção do foro quando os supostos crimes tiverem sido cometidos durante o exercício do mandato e estiverem relacionados às funções do parlamentar.

Flávio volta a questionar derrota sem apresentar provas

Além de falar sobre sua saída do Brasil, Flávio voltou a questionar o resultado da eleição presidencial, vencida por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por 51,79% dos votos válidos. Embora seu partido tenha reconhecido a derrota, o senador afirmou ao jornal americano que a vitória do petista seria .

"Sei que isso não vai levar a nada", disse, ao comentar sua insatisfação com o resultado. "Perdi para o sistema."

O parlamentar também reclamou das medidas do chamado do petista às vésperas das eleições presidenciais. Por terem sido lançadas às vésperas das eleições e preverem possíveis custos aos cofres públicos, as medidas foram criticadas por serem supostamente eleitoreiras. Segundo o senador, elas teriam dado a Lula uma vantagem injusta.

Ele também criticou a mobilização digital que favoreceu o petista e voltou a fazer as acusações sobre supostas irregularidades no processo eleitoral, retomando questionamentos sobre as urnas eletrônicas e a apuração dos votos, sem apresentar provas.

"Tenho minhas suspeitas", afirmou, ao ser questionado sobre as alegações. "Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado."

Uma das principais queixas do senador diz respeito à prorrogação do horário de votação.

A mudança, no entanto, havia sido solicitada pelos dois candidatos, diante de dificuldades provocadas por chuvas e atrasos no transporte público. Segundo levantamento feito pela BBC News Brasil,, número insuficiente para alterar o resultado. Lula venceu por uma diferença de 4,4 milhões de votos.

O TSE rejeitou as acusações de fraude. Já e elogiaram a capacidade técnica da Justiça Eleitoral.

O New York Times afirma que o cenário é diferente daquele enfrentado por Jair Bolsonaro após a derrota para Lula em 2022. Na ocasião, as alegações de fraude do ex-presidente mobilizaram apoiadores, o que culminou na invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.

Desta vez, afirma o jornal, poucos brasileiros foram às ruas para protestar contra a derrota de Flávio. Lideranças importantes do próprio PL reconheceram o resultado, assim como aliados de direita do senador na América Latina.

Planos para atuar na política brasileira mesmo fora

Mesmo nos Estados Unidos, Flávio disse que pretende continuar atuando na política brasileira. O senador afirmou que vai contestar judicialmente a vitória de Lula, embora reconheça que as chances de sucesso são pequenas.

Também pretende apoiar aliados que defendem pautas de seu campo político. O parlamentar evitou responder, contudo, se pretende pressionar o governo Trump a adotar novas medidas contra o Brasil.

Neste ano, o Departamento de Estado americano classificou as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Trump também recorreu ao tarifaço e sanções para tentar pressionar o governo brasileiro a abandonar o processo contra Jair Bolsonaro.

Flávio, sua mulher e suas duas filhas poderão permanecer nos Estados Unidos por pelo menos um ano, com um tipo de autorização migratória geralmente concedido por razões humanitárias.

O senador disse que ainda não sabe onde a família vai se estabelecer. Ele afirmou esperar que a mudança seja temporária. "Vou precisar seguir com minha vida a partir dos Estados Unidos, pelo menos por enquanto", disse.

Ele também sinaliza que pretende disputar novamente a Presidência caso haja uma nova eleição. "Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente."

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que .