Latinos, guerra e anti-Trump: o que explica a "tsunami democrata" nos EUA

5 de Nov de 2026 - 03:20
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Latinos, guerra e anti-Trump: o que explica a "tsunami democrata" nos EUA

Uma combinação de insatisfação com o governo de Donald Trump, dificuldades econômicas e mudanças no comportamento do eleitorado está por trás da vitória histórica do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as chamadas midterms, realizadas na terça-feira (3/11).A legenda, de oposição ao presidente republicano, conquistou o controle das duas Casas do Congresso e avançou sobre redutos tradicionalmente republicanos.O resultado, apelidado de “tsunami democrata”, foi impulsionado por diferentes fatores. Entre eles estão a rejeição às políticas de Trump, o impacto da guerra contra o Irã no custo de vida, a recuperação do apoio entre eleitores latinos e a mobilização de uma nova geração de candidatos do partido.A dimensão da vitória foi além da disputa pelo Legislativo federal. Até a última atualização dos resultados, os democratas haviam conquistado 28 governos estaduais, incluindo vitórias em territórios historicamente associados aos republicanos, como Texas e Kansas.Embora seja comum que o partido de oposição ao presidente conquiste espaço nas eleições de meio de mandato, o avanço desta vez chamou a atenção pela quantidade de regiões em que os democratas conseguiram reverter resultados tradicionais.Para especialistas ouvidos pelo Metrópoles, a principal explicação está no desgaste da administração Trump, especialmente na área econômica. A combinação de inflação, aumento dos preços da energia, tarifas comerciais e endurecimento das políticas migratórias contribuiu para afastar eleitores que haviam apoiado o republicano em 2024.Rejeição a Trump impulsionou a onda azulA baixa popularidade do republicano já indicava dificuldades para o Partido Republicano antes mesmo da abertura das urnas. Em outubro, a aprovação do presidente chegou a 31%, o menor índice registrado durante o segundo mandato até então.Para o cientista político e professor adjunto do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Frederico Bertholini Santos Rodrigues, o resultado representa, sobretudo, uma reação às decisões tomadas pelo governo republicano.“Então, sim, eu diria que é basicamente uma rejeição a Trump”, afirmou.Segundo o professor, a dimensão da derrota foi ampliada pelas vitórias democratas em territórios nos quais o partido tinha dificuldades históricas. No Kansas, por exemplo, os democratas conquistaram uma disputa para o Senado pela primeira vez desde 1932. No Texas, a legenda também obteve vitórias estaduais após décadas sem alcançar resultados semelhantes.O cientista político André Rosa avalia que o desgaste não se restringiu às decisões internas do governo. A condução das relações diplomáticas e comerciais também contribuiu para a desconfiança de parte do eleitorado.Para ele, a política externa de Trump gerou receio sobre o futuro das relações dos Estados Unidos com outros países e sobre os possíveis efeitos desse isolamento para a economia norte-americana.O desgaste também era indicado pelas pesquisas de aprovação. Em outubro, a avaliação positiva do presidente havia chegado a 31%, o menor índice registrado durante o segundo mandato. A baixa popularidade dificultou a mobilização dos eleitores republicanos e ampliou o espaço para a oposição. .reuters-ptbr-power-bar-map { width: 100%; border: 0; height: 900px; } @media (max-width: 600px) { .reuters-ptbr-power-bar-map { height: 620px; } }Guerra no Irã pesou no bolso dos eleitoresOs efeitos econômicos da guerra entre EUA e Irã chegaram diretamente ao orçamento das famílias.A pressão sobre o mercado de petróleo contribuiu para o encarecimento dos combustíveis e de outros produtos. O aumento dos custos de energia também repercutiu sobre os preços dos alimentos e de serviços, em um país que já enfrentava dificuldades com o custo de vida.A participação dos Estados Unidos no conflito também contrariou uma das promessas políticas de Trump, que havia defendido uma atuação internacional menos intervencionista e o fim de envolvimentos militares prolongados.O vice-presidente JD Vance reconheceu o peso da guerra na derrota republicana. Em sua primeira manifestação após o resultado, atribuiu ao conflito a perda de apoio nas urnas.“A razão pela qual perdemos é a guerra”, declarou.Para o professor Lucas Portela, de Relações Internacionais do Centro Universitário de Brasília (CEUB), não é possível atribuir a derrota republicana exclusivamente ao conflito.Na avaliação do professor, a guerra teve influência principalmente por seus efeitos indiretos sobre a economia.Portela também destaca que a política tarifária do governo contribuiu para a pressão sobre os preços. A combinação entre os fatores agravou as dificuldades enfrentadas pelos consumidores. Leia também Mundo“Onda azul”: o que a vitória democrata muda no Congresso dos EUA MundoCom “onda azul” nos EUA, democratas vão governar ao menos 28 estados MundoEUA: desgaste de Trump entre latinos pode afetar republicanos nas eleições MundoDesgaste de Trump ameaça desempenho dos Republicanos na eleição de novembro Eleitorado latino voltou a apoiar democratasO eleitorado latino, que representa 16% dos eleitores aptos a votar nos EUA, voltou a demonstrar preferência pelos democratas nas midterms. Projeções do The New York Times indicam que 69% votaram em candidatos do partido à Câmara, alta de 28 pontos percentuais em relação a 2024. No Texas, o apoio chegou a 70%; no Kansas, a 75%.A mudança ocorre em meio à insatisfação com o governo Trump. Segundo o Pew Research Center, a aprovação do presidente entre latinos que votaram nele em 2024 caiu de 93% para 57%. A economia é a principal preocupação para 86% desse eleitorado, enquanto 64% apontam a imigração.Bertholini destaca que o endurecimento das políticas migratórias, somado à inflação, contribuiu para afastar esses eleitores do partido.O que muda para Trump após a derrota?A conquista das duas Casas do Congresso representa um revés político para Trump e deve dificultar a condução da agenda republicana nos dois últimos anos do mandato.Com o controle da Câmara e do Senado, os democratas terão mais instrumentos para fiscalizar o governo, convocar autoridades, exigir documentos e abrir investigações sobre diferentes áreas da administração federal. Os novos poderes passam a valer com a posse do Congresso eleito, em janeiro de 2027.Apesar disso, a vitória democrata não garante à oposição poder para derrubar vetos presidenciais. A Constituição norte-americana exige o apoio de dois terços dos parlamentares presentes na Câmara e no Senado para superar uma decisão desse tipo, patamar que os democratas não alcançaram.André Rosa, por sua vez, considera que a derrota representa um enfraquecimento expressivo do movimento político liderado por Trump e pode dificultar a escolha de um sucessor competitivo. Em sintonia com essa avaliação, Bertholini afirma que “o Partido Democrata certamente tem o objetivo de tornar a candidatura do Partido Republicano em 2028 pouco viável, pouco festiva”.