Presença do PCC e CV leva desespero à Bolívia e gera reação dos EUA
A atuação dos grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) está crescendo na Bolívia, preocupação que gerou um alerta do governo local esta semana e articulações com os Estados Unidos para combatê-los.
O ministro de Governo da gestão do presidente Rodrigo Paz, Marco Antonio Oviedo, disse nesta semana que as duas organizações estão controlando rotas e regiões na fronteira com o Brasil, inclusive cobrando “pedágios”, e recrutando cidadãos bolivianos para ingressar nas suas fileiras.
Segundo informações da agência EFE e do jornal El Deber, o alerta foi feito durante discurso na Assembleia Legislativa da Bolívia na quarta-feira (16), no qual Oviedo apresentou justificativas para a prorrogação do estado de emergência no país, aprovada pelos parlamentares por mais 90 dias.
“Uma facção do PCC, atuando em território boliviano, está tentando tomar o controle do município de Santa Rosa del Abuná, em Pando, na fronteira com o Brasil [com o Acre], tomando posse de rodovias e cobrando pedágio pela passagem de mercadorias”, denunciou o ministro.
“Essa rota, que vai de Santa Rosa a Montevidéu, [passando perto da] fronteira com o Brasil, está atualmente controlada pelo Comando Vermelho, que está armado com fuzis e exige pagamento de proteção pela passagem de mercadorias que nossos compatriotas utilizam para sobreviver”, acrescentou Oviedo, que afirmou também que “essas organizações criminosas estão começando a recrutar nossos compatriotas”.
Ele disse que PCC e CV são organizações “perigosas” e “vêm mantendo uma instalação permanente e contínua há muito tempo” na Bolívia.
Oviedo explicou que o governo conta com a colaboração da cooperação internacional, incluindo órgãos como a agência antidrogas dos Estados Unidos, a DEA, a Polícia Federal do Brasil, organizações policiais da União Europeia, entre outras, “que participam do combate duro e difícil” contra as duas facções criminosas.
O ministro anunciou que, devido à presença de membros do CV em Pando, a Polícia Nacional interviria “imediatamente”. “Na fronteira com o Brasil, estão sendo enviadas equipes de elite porque os níveis de violência subiram”, destacou.
O ministro havia declarado há um mês que PCC e CV “estão disputando” um corredor em território fronteiriço da Bolívia pelo qual a droga passa em direção ao exterior. Oviedo disse que ambas as facções lutam “para ver quem controla o narcotráfico”.
O governo de Rodrigo Paz decidiu recentemente mobilizar militares e forças especiais para a cidade de San Ignacio de Velasco, na região da Chiquitania, no leste do país e próxima à fronteira com o Brasil, após uma onda de violência que deixou ao menos quatro pessoas mortas a tiros em dois dias.
Em maio, o brasileiro Gerson Palermo, um dos líderes do PCC, foi preso no departamento (equivalente a estado) boliviano de Santa Cruz. Ele estava foragido desde abril de 2020.
Palermo havia sido condenado no Brasil a penas que somaram quase 126 anos de prisão pelos crimes de tráfico, associação para o tráfico e por uma ação em agosto de 2000, quando ele e outros criminosos sequestraram um Boeing da extinta Vasp que fazia a rota Foz do Iguaçu-Curitiba e desviaram o avião para a região de Porecatu (norte do Paraná), onde o grupo roubou nove malotes do Banco do Brasil que continham cerca de R$ 5,5 milhões.
EUA oferecem capacitação e ajuda à Bolívia para combate ao narcotráfico
A Embaixada dos EUA informou nesta quinta-feira (17) que policiais bolivianos receberam treinamento de agentes americanos em um programa de táticas de controle de distúrbios.
De acordo com informações do jornal boliviano La Pátria, uma representante do Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei dos EUA (INL) celebrou a parceria, o que sugere que ela também será voltada ao combate ao narcotráfico.
“Muitíssimo obrigada à polícia estadual da Pensilvânia por vir treinar a Polícia Nacional Boliviana em táticas de controle de distúrbios nas cidades de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz. Compartilhamos o objetivo de proteger a segurança e a democracia em nosso hemisfério”, afirmou a representante, Liv Kilpatrick.
Em relatório enviado esta semana ao Congresso americano, o governo do presidente Donald Trump identificou a Bolívia como um dos principais países de trânsito ou produção de drogas ilícitas.
O comunicado designou a Bolívia como um dos países que nos últimos 12 meses “falharam em envidar esforços substanciais para cumprir suas obrigações nos termos dos acordos internacionais de combate ao narcotráfico e em adotar as medidas de combate ao narcotráfico exigidas pelo Título 22 do Código dos Estados Unidos”.
O governo Trump informou no relatório que o fornecimento de assistência dos Estados Unidos à Bolívia, Mianmar e Colômbia nessa questão é vital para os interesses nacionais americanos.
“Após décadas de governos socialistas ineptos, os Estados Unidos acolheram com satisfação a escolha democrática do povo boliviano nas eleições de 2025 e a oportunidade de abrir um novo capítulo nas relações entre os Estados Unidos e a Bolívia sob a presidência de Rodrigo Paz. A cooperação entre a Bolívia e os Estados Unidos expandiu-se significativamente no último ano, e saúdo a retomada da coordenação policial entre nossos governos para combater a produção ilícita de drogas e as redes criminosas”, informou a gestão Trump.
O comunicado citou como exemplo dessa “crescente amizade e cooperação” com a Bolívia a extradição do traficante uruguaio Sebastián Marset, ligado ao PCC, para os Estados Unidos em março deste ano.
“No entanto, o novo governo ainda não teve tempo suficiente para reduzir o cultivo de coca, que aumentou durante o governo anterior. A corrupção na Bolívia continua a facilitar o tráfico de drogas e a dificultar as investigações”, alertou o governo Trump.
“Se a Bolívia demonstrar progresso na redução da produção ilícita de drogas no próximo ano e avançar substancialmente no combate à corrupção endêmica que a enfraquece, considerarei reavaliar seu status de país que falhou comprovadamente em cumprir seus compromissos de combate às drogas”, finalizou.