Remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time prova que o clássico jogo da Nintendo continua tão relevante e impactante quanto foi na década de 1990
É possível melhorar o perfeito? Quando rumores de um possível surgiram, fiquei um tanto preocupada e, mais do que isso, pensei se realmente era necessário algo do tipo, afinal, não fazia muito tempo que uma versão mais nova do aclamado game tinha sido lançada. Claro, ela estava , mas, e daí? A Nintendo, por fim, anunciou oficialmente um remake de OoT junto a um teaser que, para a surpresa de todos, a maioria teve ressalvas sobre o design. Foi só quando eu pude jogar em uma sessão teste que realmente entendi que, sim, esse remake faz sentido. Eu só não imaginava que pudesse ele realmente responder à minha questão inicial, não só afirmando que é possível melhorar o perfeito, mas superá-lo.
é considerado o — o . Aqui, seguimos Link em duas fases de sua vida enquanto precisa salvar o reino de Hyrule, que caiu nas mãos do temido Ganondorf.
Lágrimas e lágrimas
Durante o teste, eu , mas realmente jogar sem uma câmera me gravando foi algo totalmente diferente, e eu admito que lágrimas e mais lágrimas saíam dos meus olhos incontrolavelmente em diversos momentos do game — alguns que eu nunca imaginei.
A questão aqui é que isso não vem só de uma questão nostálgica ou de amor. OoT realmente está incrível e, se essa pequena Hyrule parecia tão grande para mim quando joguei aos 11 anos de idade, o remake amplia isso de forma orgânica. Claro que todas as áreas ficariam maiores para o sistema do Switch 2, mas elas são tão recheadas de detalhes, pequenos lugares novos e gráficos tão vibrantes que esse mundo ganha uma vida nova e é fácil se sentir imerso a ponto de você até esquecer que está controlando o pequeno Link.
Tudo isso é ampliado com a adição de sequências cinematográficas, elevando o fator emocional e sentimental que construímos com os personagens, principalmente Saria e Zelda. Até momentos-chave da trama, como Link empunhando a Espada Mestra pela primeira vez, ou Ganondorf entrando no Domínio Sagrado ou salvando Epona de Ingo, ficam ainda melhores que o original. E não é nem preciso falar sobre a atuação de voz em português do Brasil.
Fala, meu considerado!
Eu realmente invejo novos jogadores que poderão experimentar esse game totalmente em português. Além das cenas incríveis dubladas, o grande trunfo do jogo para jogadores brasileiros é a localização de toda Hyrule. Trocadilhos com nomes de inimigos e até piadas enchem essa nova versão do reino e se tornam uma das novidades mais importantes para veteranos.
Enquanto antes era necessário realmente interagir com NPCs para ter alguma conversa com eles, o remake de OoT pega emprestado como esses personagens de fundo se apresentam no mundo de Breath of the Wild e Tears of the Kingdom. Seja no Burgo de Hyrule, na Vila Kakariko, na Floresta Kokiri ou até na Fortaleza Gerudo, todos os NPCs têm pequenas bolhas de falas que aparecem sem que o jogador inicie uma conversa com eles, revelando detalhes de suas vidas privadas e pensamentos altos. Particularmente amei como os Espantalhos se manifestam: “Fala, meu considerado!”. Cheios de energia (porque amam música) e com um “ar de caipira”, os Espantalhos passam uma energia muito amigável e é extremamente engraçado quando você os usa com um gancho: “Ô, mira direito!”.
A localização ajudou especialmente Navi. Considerada a companion mais irritante de Zelda, Navi gritava nos ouvidos do jogador sempre que precisava falar algo que acreditava importante. No entanto, ouvi-la em português com “Cuidado!” ou “Olha só” me fez realmente querer ouvir mais dela para além das cutscenes. Navi é uma fofa e é graças ao remake que espero que ela tenha seu arco de redenção.
Além de Navi, todos os outros personagens são incrivelmente dublados. Ruto continua mandona, Darunia é sempre carismático, Nabooru sendo aquela “irmã mais velha” que chama o Link de pirralho, Impa impõe respeito, Saria amável e, por fim, Zelda continua mais bela (e sábia) do que nunca. As irmãs Kotake e Koume são a cereja do bolo, contradizendo-se e jogando faíscas uma com a outra. Ganondorf nem se fala! Ele realmente dá medo.
Mudanças
Um remake há de ter mudanças, seja retirar ou adicionar conteúdo. Como já falado na preview do game, a primeira alteração já aparece no começo quando Link precisa pegar emprestada a Espada Kokiri. O desafio, antes usado para ensinar jogadores a como usar o botão ZL para mudar o foco, agora passa a ser usar o botão de pular! Não nego que a memória muscular aqui falhou do começo ao fim do jogo e esqueci de apertar o botão de pular várias vezes, mas está aqui o desafio para veteranos: ter que (re)aprender a jogar.
O mesmo equivale à mecânica de Link finalmente poder correr após dar uma cambalhota inicial. Foi algo que demorei para pegar o jeito, mas ela se tornou algo indispensável para minha jogatina, mesmo que ainda acredite na supremacia de cambalhotas infinitas como melhor modo de deslocamento.
Com novas mecânicas em mente, alguns quebra-cabeças também mudaram, como esgueirar-se entre os guardas do castelo de Hyrule para chegar ao jardim de Zelda. Antes, havia uma câmera estática que variava entre top-down e lateral; agora realmente acompanhamos Link com a câmera, passando pelo jardim e até cozinha e depósito do castelo.
Outra novidade surpreendente é a Noz de Dekomerciante. Ela pode ser encontrada em baús espalhados por masmorras e templos ou até ser comprada por outro Dekomerciante. Aqui, basta usá-la para “invocar” um Dekomerciante a qualquer momento que quiser para comprar itens como flechas, bombas e poções. Inicialmente achei que esse novo item seria totalmente desnecessário, mas peguei-me usando-o diversas vezes. Isso porque o remake é muito mais “pão duro” quando o quesito é distribuir itens, que agora, em vez de vir em quantidades (5 ou 10), eles podem vir unitários. É por isso, também, que Link já começa com uma carteira de rúpias de 200, podendo aumentar para 500 e 1000. Dinheiro aqui vai muito rápido!
Há agora runas feéricas que, apesar de não dar em nada, nos revelam pensamentos de fadas que viajam por Hyrule. Graças à Navi, podemos lê-las nos locais mais inusitados do mapa. Um detalhe que não altera nada na gameplay, mas que preenche o mundo do game e o torna muito mais recheado.
Outra mudança interessante são as Lentes da Verdade. Antes, era praticamente uma lupa; esse item indispensável do acervo de Link agora é um par de óculos, algo que realmente faz sentido ao você pensar na praticidade da vida real. São essas pequenas alterações que fazem sentido para um remake.
Músicas
Há uma ocarina no título do game, o que implica que a música é fundamental para a jogatina. Então, falarei de música.
OoT tem algumas das faixas mais icônicas da franquia, como a Música de Saria, por exemplo. Gostei muito de como essas músicas se tornaram mais orgânicas no jogo, possivelmente graças a uma gravação feita por orquestra, como é nos jogos mais recentes de Zelda. É possível escutar o sopro de uma ocarina real quando ela é necessária, o que torna o labirinto do Bosque Perdido ainda mais legal, até porque é adicionado um fator visual (notas musicais) quando Link passa por um tronco oco certo.
Outras faixas musicais, no entanto, ficaram um tanto perdidas no meio do caminho. A trilha do Templo das Sombras, por exemplo, não tem mais o tambor de Bongo Bongo, ou pelo menos estava muito baixo, e a música do Templo do Espírito também não evoca tanto mais uma influência árabe.
Apesar de tudo, algo que surpreende em relação ao original é como as músicas-tema de cidades vão mudando com o passar do tempo, do mesmo jeito que em BotW e TotK. Assim como, por exemplo, a Vila Hateno tem suas versões tema para o dia e noite, o mesmo se aplica aos locais de OoT em vez de um silêncio sepulcral com grilos.
Tocar a ocarina passa de ser algo da gameplay e se torna realmente divertido, justamente porque vemos os dedos de seus personagens se mexendo, o que era antes apenas uma mão estática segurando o instrumento, e o fato de Navi também aproveitar a música como se tivesse dançando torna o elemento obrigatório em algo totalmente novo.
Influências de BotW e TotK
Como revelado em partes ao longo do texto, é impossível não notar como os jogos mais recentes de mundo aberto da franquia de Zelda inspiraram este remake. Os mais notáveis são a corrida e o sistema de seleção de itens ao apertar o botão L ou R e rolar horizontalmente entre as opções. Mas, para além desses e do fato de as cidades terem versões de suas músicas, temas dependendo do horário do dia, o que o novo OoT usa muito bem é como Link pode receber as bênçãos das Grandes Fadas espalhadas por Hyrule. Antes, bastava apenas tocar o Acalanto de Zelda e Link seria abençoado com algum poder; agora, no entanto, igual a BotW e TotK, Link necessita fazer uma singela oferenda financeira: rúpias. À medida que os poderes vão ficando mais fortes, o Herói do Tempo também precisa aumentar o valor de sua oferenda — tá aí, mais uma justificativa da carteira estar ainda maior.
A influência desses dois games vai até o design de alguns lugares, especificamente da Vila Kakariko, que remete muito ao que vemos nos jogos mais recentes, com toda aquela pegada samurai/ninja. Edifícios do local têm aquela arquitetura japonesa, com telhados e lajes curvando ao final, característicos da versão que atualmente conhecemos.
Apesar de tanto BotW e TotK não estarem na linha do tempo direta de Ocarina of Time, acredito que essa onda de influências não só é visada ao público que teve seu primeiro contato com esses dois novos jogos, mas também, de certo modo, nos revela que esta Hyrule não está tão longe da Hyrule do Herói Selvagem, ou que pelo menos é uma antepassada dela. O fato de a Grande Árvore Deko também servir como narrador no teaser sugere que a trama de OoT é como uma antiga história ou conto de fadas, tão no passado que ela foi lembrada de forma oral para novas gerações. Essa influência, então, não é mera coincidência.
O mesmo poderia ser falado para os Kokiris, que agora têm tatuagens corporais que lembram muito as dos Zonai, espécie apresentada em BotW e TotK.
Ocarina of Time está mais fácil?
Uma grande ressalva minha, após testar o game (e de todos os veteranos), seria a possibilidade de o remake ser. Com mudanças em alguns locais de masmorras e templos, parecia que a equipe por trás do game estava facilitando demais para jogadores mais novos. Eu estava completamente errada.
A questão aqui é que a própria memória nos engana. Ao comparar todos os templos com suas versões originais, percebi que pouca coisa mudou. No Templo da Floresta, um poço foi substituído por um lago de veneno. A justificativa vai na mesma linha que as mudanças para pegar a Espada Kokiri: uma nova mecânica. Na versão original, essa sala servia para que o jogador usasse bem o controle do foco (ZL) para poder ajustar o ângulo da câmera. O remake, no entanto, não tem uma câmera estática e o próprio jogador consegue controlá-la, o que faz com que aquele poço anterior não tenha tanto impacto na gameplay. Ainda assim, o lago de veneno garante um desafio semelhante ao antigo, já que Link ainda pode se machucar.
Templos posteriores não tiveram tantas mudanças além daquelas para se adequar às novas mecânicas. Até o . Paralelamente, o Templo das Sombras, um dos momentos que mais odiei quando tinha essa idade, mas que eu estava mais ansiosa para este remake, ainda se provou desafiador para mim. Ele é um templo complicado, de fato, e eu me perdi algumas vezes e mais vezes ainda tentando batalhar contra certos Stalfos e lâminas escondidas sob magia que me esqueci completamente.
Desse modo, não, Ocarina of Time não está mais fácil ou mais difícil; ele apenas se adequou a uma nova geração de jogadores e novas mecânicas que tiveram que ser alteradas por já estarem obsoletas. Ainda assim, quebra-cabeças e inimigos se provam desafiadores e divertidos.
E há também uma questão interessante que é a de evoluir com Link ao longo do jogo. Para veteranos, essa sensação não é tão palpável em comparação a quando jogamos pela primeira vez. Já esperamos certos inimigos, puzzles e momentos-chave do game. É claro que, para alguns, esses desafios não são mais tão complicados quanto anteriormente, e é importante lembrar que o remake serve como uma porta para novos jogadores e, portanto, manter o mesmo nível de dificuldade é necessário. Afinal, crianças vão, sim, ter dificuldade em algumas partes. Adultos que já jogaram, nem tanto.
Emprestado da versão do 3DS, Link poderá batalhar contra qualquer inimigo e chefão quando dorme em camas específicas espalhadas por Hyrule. É fácil encontrá-las, pois elas são verdes e têm um redemoinho nelas. No Museu dos Mil Inimigos, o jogador poderá reviver batalhas específicas e até fazer parte de desafios e, em troca, ganhar alguns estatuetas legais. Essa mecânica não serve como um New Game+, mas é interessante se desafiar, até porque Link receberá sempre 200 rupees e precisa gastar com itens específicos para deixar o desafio mais fácil ou difícil.
O 10 não estava na cara - até eu terminar o game
Por motivos de spoiler de um jogo de 1998, eu não posso revelar muito sobre o final do game. De fato, o confronto final de OoT é uma das mais impactantes da franquia, e esse remake faz de tudo para melhorar ainda mais a batalha épica e entrega algo que eu nem sequer imaginava, o que lhe garante um 10 de nota.
Entre sequências cinematográficas, batalhas intensas e a resolução do game, me peguei tão envolvida na jogatina que só percebi que estava torcendo por Link (no caso, eu) quando fui interrompida por um “tudo bem aí?”. Foi exatamente nesse momento que percebi que o remake ganharia um 10 porque ele conseguiu tornar esse momento final em algo muito mais épico que o original e o do 3DS.
E, se em versões anteriores eu já ficava admirando o horizonte de Hyrule, seja olhando o castelo ou o entardecer do Lago Hylia, os novos gráficos deixam esses momentos de solitude ainda mais especiais. Não sei você, mas eu adoraria viver em alguma versão deste reino em carne e osso, se fosse possível.
Talvez algumas das alterações feitas neste remake poderão não ser bem-recebidas por veteranos, mas acredito que esta versão cumpre o que promete: nostalgia para os mais velhos e uma atualização de gameplay (e console) para os mais novos. E, no fim, ele entrega tudo isso. Acima de tudo, ele me fez sentir de novo como aquela criança que jogou Ocarina pela primeira vez…e é isso que importa.
O Veredicto
Com pelo menos 20 horas da minha vida dedicadas ao jogo, o remake de Ocarina of Time faz o impossível, que é melhorar algo que já era perfeito. Seja pelas cinemáticas, batalhas, localização, história simples e heroica, detalhes ou gráficos, essa versão se torna a mais completa e bela do game e, se eu precisasse salvar uma entre essa, a original e a do 3DS, eu escolheria o remake com certeza.