"A culpa não é da chuva", diz especialista em meio ambiente da USP

16 de Out de 2026 - 02:50
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"A culpa não é da chuva", diz especialista em meio ambiente da USP

São Paulo — “Perdi meu carro hoje no Vale do Anhangabaú. Estou em cima do carro, com passageiro”. O relato, veiculado em vídeo nas redes sociais, é de um taxista que perdeu o carro após a chuva que atingiu a capital paulista na última quarta-feira (14/10). As imagens mostram o Túnel do Anhangabaú completamente alagado, deixando carros submersos e pessoas ilhadas, nessa quarta-feira (14/10).As consequências das mudanças climáticas recentes são cada vez mais evidentes no estado de São Paulo. Porém, a capital paulista, em especial, tem chamado atenção pelos inúmeros desastres relacionados a fortes tempestades em um curto período de tempo. Leia também São Paulo“Perdi meu carro”, diz taxista ao ficar ilhado em túnel do Anhangabaú São Paulo“Protocolo funcionou”: diz Nunes após chuva que alagou túnel do Anhangabaú São PauloTúnel alagado, pessoas ilhadas, carros submersos: as imagens da chuva em SP São PauloHá quase três décadas, Túnel do Anhangabaú viveu dia semelhante após chuvas No entanto, a cidade de São Paulo, já conhecida popularmente como “terra da garoa” está no centro de um questionamento em razão da sucessão de desastres ambientais: a culpa das tragédias é realmente da chuva — sempre tratada como “imprevisível” ou imbatível, que age por razões maiores — ou da falta de estratégia e investimentos dos órgãos públicos?12 imagensFechar modal.1 de 12Alagamento no Parque da Aclimação com "cachoeira"Material cedido ao Metrópoles2 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais3 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais4 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais5 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais6 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais7 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais8 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais9 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais10 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais11 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes Sociais12 de 12Estragos da chuva em São PauloReprodução / Redes SociaisEm entrevista ao Metrópoles, o cientista brasileiro e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Artaxo, critica a abordagem que coloca as chuvas como as maiores causadoras das enchentes no estado e na capital paulista, dando foco aos investimentos não estratégicos dos órgãos públicos e a má utilização dos aparatos científicos para prevenir este tipo de ocorrência.O cientista também afirma que as chuvas na capital paulista tem aumentado lentamente desde a década de 1930. No entanto, o número de dias onde ocorrem chuvas acima de 80 a 100 milímetros em 24 horas quadruplicou.“Quando chove, chove muito mais água, aumentando a possibilidade de enchentes como as que a gente tem visto recentemente. Agora, é importante a gente salientar que a culpa da enchente não é da chuva, é da falta de preparação da cidade para os eventos de chuva forte que estão se tornando cada vez mais frequentes e cada vez mais intensos […] É inaceitável que a cidade de São Paulo, com os recursos financeiros e logísticos que tenha, ainda esteja enfrentando enchentes e, particularmente, impactando a população de mais baixa renda. Isso é inaceitável para uma cidade com a riqueza que a cidade de São Paulo tem”, diz Artaxo.Esse apontamento conversa diretamente com a diminuição da verba destinada às ações de implantação de sistemas de drenagem e combate a enchentes, conforme a Lei Orçamentária Anual (LOA), do estado. O valor, que antes era de R$ 314,8 milhões em 2025, agora é de R$ 140,8 milhões — uma redução de 55%.A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) afirma que o Governo do Estado continua agindo de forma integrada, contando com um plano de R$ 25 bilhões em investimentos em resiliência. No entanto, para Artaxo, esses valores podem “não dizer absolutamente nada”, por não serem adequados para medir a ação governamental. Veja nota na íntegra no final do texto.O cientista reafirma que, sem estratégia, os órgãos podem estar gastando quantias exorbitantes em áreas desnecessárias e deixando de investir em pontos cruciais, como o aumento de áreas verdes na cidade e treinamento da Defesa Civil.“Não há solução individual”Questionado sobre a possível existência de ações individuais que possam ajudar a diminuir os impactos dos eventos climáticos, Artaxo é claro: “Não existem soluções individuais realmente efetivas, apenas políticas públicas”.A argumentação contrapõe o discurso do governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), nessa quinta-feira (15/10), quando afirmou que as ações do cidadão são tão importantes quanto as ações públicas.O cientista aponta a proximidade prejudicial da criação dos planos diretores com os interesses do setor imobiliário, que é grande responsável pelas mudanças urbanas e diminuição das áreas verdes das cidades.“Os interesses do setor imobiliário sempre predominam sobre os interesses da população como um todo. As câmaras municipais basicamente estruturam os planos diretores voltados por interesse das empresas imobiliárias e não com os interesses da população […] Então, precisamos da democratização do processo de desenho dos planos diretores de cada área urbana do Brasil”, continua.Para tornar as cidades mais habitáveis, Artaxo propõe uma transição civilizatória, que significa a ruptura com o modelo exploratório no qual vivemos hoje, visando a reorganização da vida a partir de outras perspectivas socioecológicas. Para isso, será necessário diminuir a impermeabilização dos municípios, investir em transportes públicos e coletivos, utilizar menos combustíveis fósseis, mas, principalmente, reavaliar o sistema econômico atual, buscando uma alternativa que não seja focada no esgotamento dos recursos naturais em prol do lucro financeiro.“O crescimento econômico é um dos aspectos que terão que ser reestruturados em uma sociedade muito mais sustentável. Existem centenas de artigos que colocam essa questão. Então, nós vamos precisar efetivamente de um novo modelo econômico que não seja baseado no esgotamento dos recursos naturais do nosso planeta, que não seja baseado na superexploração do trabalho, e assim por diante. Então, vamos ter que construir, democraticamente, um novo modelo econômico para a nossa cidade, para o nosso país e para o planeta como um todo” conclui o cientista.Leia nota do Governo do Estado na Íntegra:“O Governo de São Paulo atua de forma integrada no combate às enchentes, com medidas de prevenção e drenagem, além de ações para fortalecer a segurança hídrica e a capacidade dos municípios de enfrentar eventos climáticos extremos. Sob a coordenação da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), o Estado conta com um plano de R$ 25 bilhões em investimentos em resiliência. O plano reúne grandes obras estruturantes e intervenções locais para reduzir áreas de risco, ampliar a capacidade de resposta das cidades e diminuir os impactos das chuvas intensas e demais eventos dessa natureza.Para financiar essas ações, o Estado combina recursos do orçamento próprio com verbas do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além de linhas de crédito da Desenvolve SP para os municípios. Somam-se a essas iniciativas a concessão da Sabesp, que prevê R$ 260 bilhões em investimentos até 2060, e a PPP de R$ 9,5 bilhões para o desassoreamento e a manutenção dos rios Tietê e Pinheiros, atualmente em andamento.No ano passado, o Estado concluiu investimentos em obras de maior porte, como o piscinão Jaboticabal e o reservatório Franco Montoro. Para este ano, o orçamento prevê o início de projetos como os piscinões do Córrego Tapera Grande, em Francisco Morato, e a construção de dois novos piscinões localizados em Mauá e Santo André, a contenção da margem esquerda do Córrego Pirajuçara, que beneficia os municípios de Taboão da Serra e Embu das Artes, a atualização dos planos diretores de macrodrenagem do Alto Tietê e de São Luiz do Paraitinga e a obra de proteção de margem do Rio São Lourenço, em Miracatu, entre outras.O Governo de São Paulo investiu ainda cerca de R$ 1 bilhão, por meio da Defesa Civil do Estado, em ações de prevenção e resposta a desastres. Desse total, R$ 506,3 milhões foram destinados ao SP Sempre Alerta, programa criado pela atual gestão para integrar as ações preventivas e reduzir os impactos de chuvas extremas e incêndios. Os investimentos incluem ainda R$ 319 milhões em 296 obras de recuperação em 213 municípios; R$ 145,2 milhões na entrega de 526 veículos e 1.847 equipamentos aos municípios; R$ 9 milhões em ajuda humanitária; e R$ 16,4 milhões em apoio a 16 municípios atingidos por eventos climáticos extremos.O monitoramento também foi ampliado, com a instalação de 12 sirenes em áreas de risco e dois radares meteorológicos. Somente em 2026, a Defesa Civil emitiu 4.973 alertas — 4.524 por SMS e 449 por Cell Broadcast. Desde 2023, o órgão também capacitou 19 mil agentes municipais.Para os próximos quatro anos, o Governo de São Paulo estabeleceu uma agenda com diretrizes específicas de sustentabilidade, adaptação e resiliência climática. Entre as principais diretrizes estão investimentos em ações de adaptação e resiliência climática, com obras e serviços de drenagem, desassoreamento, reservatórios, parques, restauração ecológica e ampliação dos sistemas de abastecimento e saneamento. A estratégia é estruturada a partir do Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC), que integra ações de prevenção, monitoramento e resposta aos impactos de eventos extremos.O programa SP Sempre Alerta será ampliado com foco em prevenção, preparação, resposta e recuperação. O plano contempla ainda o fortalecimento da infraestrutura estadual e municipal, a atualização de instrumentos de planejamento e monitoramento hídrico, a ampliação das ações de desassoreamento e proteção de mananciais e o avanço de projetos específicos de adaptação climática, inclusive para áreas costeiras.A segurança hídrica terá investimentos robustos para ampliar a disponibilidade de água e reduzir a vulnerabilidade dos municípios. Na área de concessão da Sabesp, serão mais de R$ 9 bilhões nos próximos anos para redução de perdas e ampliação da oferta de água. Também estão previstos novos reservatórios na Baixada Santista e no interior, além dos projetos das barragens de Pedreira e Duas Pontes e do sistema adutor do PCJ, na região de Campinas.A agenda ambiental está diretamente relacionada à adaptação climática. O plano prevê ampliação da restauração ecológica, proteção de mananciais, fortalecimento das Unidades de Conservação, modernização da gestão de resíduos, prevenção e combate a incêndios florestais e investimentos em economia de baixo carbono e transição energética. Desde 2023, mais de 45 mil hectares de florestas foram colocados em restauração no Estado, incluindo cerca de 10 mil hectares em áreas de nascentes.Outro eixo estruturante é o IntegraTietê, maior programa de revitalização do rio e de seus afluentes da história de São Paulo, com previsão de mais de R$ 30 bilhões em investimentos até 2029. O programa reúne ações de saneamento, controle de cheias, desassoreamento, recuperação ambiental, lazer, turismo, eficiência logística e governança.Em relação ao Fundo Clima, é importante fazer uma distinção. A linha de financiamento do BNDES podendo financiar iniciativas de diferentes setores. Portanto, não se trata de recurso destinado ao Estado ou de um fundo ao qual os governos estaduais tenham obrigação de recorrer.O Governo de São Paulo trabalha com uma estratégia própria de financiamento de políticas públicas, combinando recursos do orçamento estadual, fundos estaduais, organismos multilaterais, linhas de crédito específicas, concessões, PPPs e outras modalidades de parceria e financiamento, de acordo com a natureza e as características de cada projeto.Desta forma, a política estadual de adaptação, resiliência, segurança hídrica, restauração ecológica e transição para uma economia de baixo carbono é financiada por diferentes instrumentos e fontes de recursos. Entre eles está o Finaclima-SP, mecanismo de financiamento que oferece oportunidades de aplicação de recursos financeiros em projetos estruturados que contribuam para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa, adaptação e resiliência para acelerar a transição climática no estado. Com ele, o Estado planeja ampliar o apoio a ações de restauração ecológica vinculadas aos Termos de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRA). Como exemplo, temos o Acordo SP+Verde, que viabilizou a conversão de R$ 8,2 milhões e a formalização de compromissos para recuperar aproximadamente 3 mil hectares de áreas degradadas no Estado.”Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) registrou uma média de 11,4 milímetros de chuva até o fim da quarta-feira (14/1-) na capital. Somente na região do Córrego do Anhangabaú, foram 42 mm de chuva em 40 minutos, o equivalente ao esperado para 11 dias de outubro. O volume corresponde a 37% da média prevista para o mês em toda a cidade, de 112 mm. Houve ainda rajadas de vento e o extravasamento do Córrego do Sapateiro, na Vila Mariana, conforme o texto da gestão municipal.Ainda de acordo com a prefeitura, em decorrência dos eventos climáticos registrados na cidade, a Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB) registrou 26 ocorrências de quedas de árvores. A Defesa Civil, da Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), entre as 19h de quarta-feira (14/10) e as 7h desta quinta-feira (15/10), atendeu 2 desabamentos (1 na Zona Sul e 1 na Zona Centro-Oeste) e 3 atendimentos de alagamento, todos na Zona Centro-Oeste. Já a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou seis semáforos apagados por falha nos equipamentos e três em amarelo piscante, na manhã de hoje. As equipes de manutenção foram acionadas para os locais.A gestão também destacou que investiu R$ 11,4 bilhões em drenagem entre 2021 e setembro de 2026, mais que o dobro aplicado pelas gestões anteriores entre 2011 e 2020. Além disso, a atual gestão entregou nove reservatórios para o controle de cheias desde 2021, sendo seis piscinões e três pôlderes, entre outras obras. O Município conta com o Plano de Prevenção às Chuvas (PPC 2026/2027), que mobiliza 161 equipes e mais de 1.500 profissionais para o atendimento de ocorrências. A operação inclui moto-inspetores para agilizar as vistorias e equipes de plantão da Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB) durante as madrugadas, para agilizar a resposta às emergências.“Ao longo de todo o ano, as equipes da SMSUB e das 32 Subprefeituras realizam ações preventivas de zeladoria em toda a cidade. Até setembro de 2026, foram retiradas 149.572,81 toneladas de detritos dos córregos e realizada a limpeza de 149.492 bocas de lobo, poços de visita e galerias. No mesmo período, a Operação Cata-Bagulho recolheu 55.376,75 toneladas de resíduos, por meio de ações programadas semanalmente, quinzenalmente e sob demanda. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ainda possui a Operação Chuvas, com 178 pontos de monitoramento que são ativados conforme as condições meteorológicas e o risco de alagamentos. Com base nas informações do CGE, os agentes são remanejados para locais estratégicos para monitorar as vias e realizar bloqueios, quando necessário. A operação abrange pontos próximos a rios e córregos, além de túneis”, complementou a nota.