Análise: Trégua tarifária não oferece previsibilidade para o mercado
Estados Unidos e China prorrogaram a trégua comercial até janeiro, conforme anunciado por Scott Bessent na quarta-feira (23). A medida representa um avanço nas negociações entre as duas maiores economias do mundo, mas seus efeitos práticos para o mercado são limitados, segundo a analista de economia Débora Oliveira.
“Ter um anúncio de uma trégua é um ponto de largada positivo, isso é fato. Porém, isso não garante segurança para as empresas, abertura de mercado. Decisões importantes ainda ficam travadas”, afirmou a analista durante o Live CNN desta quinta-feira (24).
Segundo Débora, a trégua tarifária oferece um alívio imediato para empresas com negociações de curto prazo, como compra de peças, negociação de custos e reconstrução de estoques. “Pelo menos nos próximos dois meses, não haverá nenhum aumento de tarifa”, explicou.
A analista fez questão de destacar, porém, que as tarifas existentes não foram eliminadas. “Não significa que zerou tarifas. Significa que postergou o prazo para que os EUA consigam negociar com a China”, pontuou.
Decisões estratégicas de maior porte, como a construção de fábricas, contratação de pessoal e expansão de negócios, continuam travadas pela falta de previsibilidade.
“Não dá para tomar uma decisão agora sabendo que daqui a dois meses a gente pode ter uma tarifa novamente implementada”, alertou a analista.
Desconfiança mútua
Além da incerteza sobre as tarifas, Débora apontou que existe uma desconfiança estrutural entre americanos e chineses que compromete a eficácia da trégua.
“Se eu comprar peça chinesa, ela vai chegar? Não vai ter um tarifaço que impeça, no meio do caminho, que essa encomenda seja entregue? Não vai ter outra questão geopolítica ou de guerra que vai atrapalhar? Tudo isso também é colocado sobre a mesa”, afirmou Débora.
A analista concluiu que, embora a prorrogação da trégua seja positiva para o calendário de negociações e para o caixa das empresas no curto prazo, as decisões mais importantes de investimento ainda dependem de conversas técnicas que precisam acontecer nos próximos meses.
“A trégua tarifária não oferece uma previsibilidade para que as empresas expandam e tomem decisões importantes de investimento. Traz um respiro de curto prazo nesse momento”, resumiu.