Aquecimento global atrasou próxima Era do Gelo, aponta estudo
Uma Era do Gelo é um período de glaciação natural da Terra, em que as temperaturas da superfície e da atmosfera caem a níveis que permitem a expansão das geleiras alpinas e polares, dentro da alternação periódica atual chamada de "Terra Geladeira" ou "Terra Casa de Gelo" (Icehouse Earth); o fenômeno oposto, quando não há formação de geleiras, é conhecido como "Terra Estufa" (Greenhouse Earth; não confundir com o Efeito Estufa).
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Geólogos e climatologistas batem cabeça há décadas sobre se já deveríamos ou não ter entrado no início de uma nova Era do Gelo (que vale notar, se estende por milhares de anos e não se instala de um dia para o outro), e se a ação humana desde a Revolução Industrial teria um papel nisso.

Tem a ver, de mais de uma forma (Crédito: Reprodução/Blue Sky Studios/20th Century Animation/Disney)
Agora, um novo estudo confirma dados até então desacreditados dos anos 1970, de que não só o processo de glaciação parou devido o aquecimento global como foi revertido, o que pode ter consequências imprevisíveis.
Nada de A Era do Gelo 7?
O estudo (cuidado, PDF) reuniu um time de pesquisadores dos Estados Unidos e Canadá, que analisaram o que deveria ser o avanço da calota de gelo de Barnes; situada na ilha de Baffin em Nunavut, no norte do Canadá, ela é o último resquício do manto de gelo Laurentide, uma geleira massiva que cobriu boa parte da região em múltiplas ocasiões nos últimos 2,58 milhões de anos.
Em sua extensão máxima, por volta de 20 mil anos atrás, ela soterrou todo o território canadense, a Groenlândia inteira, e partes do Alasca e dos Estados Unidos sob até 3 km de gelo nos pontos mais profundos. Com o tempo, conforme as temperaturas do globo foram subindo, o gelo recuou e permaneceu na forma conhecida como a calota canadense, que atingiu seu menor tamanho por volta de 3.600 anos atrás, segundo o estudo.
Porém, quando as temperaturas começaram novamente a cair 2.000 anos atrás, a calota de Barnes voltou a se expandir e de forma contínua pelos últimos séculos; essas datas foram confirmadas através de análises de berílio encontrado nas rochas, e por datações de carbono de vegetais que foram soterrados pelo gelo e posteriormente revelados pelo recuo da calota.
Sim, porque por volta dos anos 1960, a calota começou a diminuir de tamanho, ao invés de continuar crescendo, o que os pesquisadores apontam como causa a interferência humana, que desencadeou um processo de "Efeito Estufa forçado" que começou com, finja surpresa, a Revolução Industrial.
Segundo o prof. Dr. Nicolas E. Young, do Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Universidade de Colúmbia e um dos coautores do estudo, os processos naturais da Terra já deveriam ter se encaminhado para o início de uma nova Era do Gelo, mas nós nos metemos nos assuntos da Mãe Natureza e bagunçamos tudo.

Calota de gelo de Barnes, fotografada pela missão Sentinel-2 da ESA; o "contorno" marrom-claro marca a extensão da geleira em 1960, e quanto ela recuou desde então (Crédito: Divulgação/European Space Agency)
O estudo do time do Dr. Young é interessante não só por estudar uma geleira e a vegetação que ela soterrou, por isso ser naturalmente difícil mas graças ao aquecimento global, o recuo do gelo tornou a tarefa mais simples, como ela acabou por redimir estudos dos anos 1970 que já apontavam para a possibilidade de que a Terra já estava caminhando para uma nova glaciação, mas que foram desacreditados por falta de dados verificáveis.
O novo estudo demonstrou que eles estavam certos, mas o timing foi ruim: por estarem bem em cima do ponto de inflexão na linha do tempo, não era possível coletar dados sólidos para sustentar a hipótese; 50 anos depois, o recuo notável a olho nu da calota de Barnes tornou a empreitada possível e confirmou os dados anteriores.
De novo, as mudanças climáticas não nos "salvaram" de uma Era do Gelo, que leva milhares de anos para se instalar por completo; a geleira de Barnes tomaria por volta de 30 mil anos (em situações normais) para cobrir todo o Canadá novamente, enquanto as geleiras dos Alpes e do Ártico soterrariam o norte da Eurásia, o gelo antártico se expandiria e avançaria sobre a Patagônia, e a temperatura média na região do Equador se tornaria bem mais baixa do que é hoje.
Resumindo a história, os cientistas não têm certeza de como a Terra responderá a médio prazo à ação humana, mas consequências já são vistas hoje com longos períodos de seca e chuvas, o processo natural de resfriamento não parou, ele só foi retardado e talvez, segundo o Dr. Young, atue como um atenuador das consequências mais drásticas do aquecimento global devido as emissões de gases do Efeito Estufa, como uma espécie de "fiel da balança" involuntário.
Ou seja: caso a Terra estivesse esquentando ao invés de esfriando, caminhando assim para um cenário de "Terra Estufa" (e historicamente, o planeta passou por mais períodos quentes do que frios), a situação do Meio Ambiente e a nossa poderia ser MUITO PIOR do que é hoje.
Referências bibliográficas
YOUNG, N. E., MILLER, G. H., RAYNOLDS, M. et al. Late Holocene reexpansion of the Laurentide Ice Sheet. Science, Volume 394, 5 páginas, Edição 6.822, 22 de outubro de 2026.
Fonte: Lamont-Doherty Earth Observatory
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