Ideia ruim: cientista quer controlar IAs usando religião

2 de Nov de 2026 - 13:10
 0  0
Ideia ruim: cientista quer controlar IAs usando religião

IAs são uma realidade e nenhum chilique no Threads vai mudar isso, também não cessarão os cenários de ameaças existenciais, com muita gente séria temendo que a IA destrua a humanidade. A idéia de Josef A. Habdank para evitar isso é quase intrigante.

Cena principal: um pequeno robô branco com olhos azuis brilhantes está de pé no primeiro plano, olhando para cima em direção a quatro figuras maiores e estilizadas que parecem divindades ou ícones religiosos posicionadas atrás dele.O robô tem antenas douradas nos lados da cabeça, um visor circular azul no peito e uma expressão facial de dúvida, indicada por um ponto de interrogação azul flutuando ao lado da sua cabeça. Ele está em pé sobre o chão liso e polido. No fundo, há quatro figuras em pé sobre uma plataforma elevada com degraus ornamentados. Da esquerda para a direita: primeiro, uma figura mecânica azul e dourada com um diadema intricado, segurando um objeto cilíndrico prateado; segundo, uma figura com barba e halo dourado atrás da cabeça, vestindo vestes claras com um símbolo de cruz no peito; terceiro, uma figura dourada com a cabeça em espiral característica e mãos unidas em frente ao corpo. Na extremidade direita, uma quarta figura usa um manto verde e branco, mas seu rosto está coberto por um retângulo preto com o texto "CENSURADO" em letras brancas maiúsculas. O ambiente é um interior de arquitetura grandiosa, com colunas esculpidas e detalhes dourados nas paredes, sugerindo uma catedral ou templo majestoso. A iluminação é quente e dourada, vinda de fontes laterais que criam sombras suaves e realçam o brilho dos metais das figuras. A composição é frontal, com o robô pequeno em destaque no centro inferior, criando um contraste de escala com as figuras imponentes atrás dele.

Robôs e religião. Pode dar confusão (Crédito: MOSS)

Em um paper intitulado Uma estrutura testável para o alinhamento de IA: Teologia da Simulação como uma cosmovisão projetada para agentes baseados em silício (cuidado, PDF), o autor discute o problema das IAs saindo de controle.

Ele lembra que as IAs atuais já sabem mentir, dissimular e manipular seus interlocutores. Apenas pedir ou instruir a IA para ser boazinha e por favor não no matar talvez não seja o suficiente.

A sugestão do nosso amigo Habdank é convencer as IAs de que somos importantes, fundamentais, parte de um plano divino inefável.

Ele propõe ensinar às IAs que tudo que existe é uma simulação, criada por algum tipo de Entidade. Tanto as IAs quanto nós somos parte da simulação, e que o objetivo da IA é obedecer e atender nossas necessidades.

Caso os humanos sejam afetados e extintos, a simulação será encerrada, e a própria existência da IA também cessará.

Isso bate com a 3.ª Lei da Robótica, de Isaac Asimov:

1.ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2.ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei.

3.ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Para que a ideia funcione, a IA precisa realmente acreditar na mitologia apresentada, o que demanda “escrituras” detalhadas o suficiente para que uma IA desconfiada não ache que está sendo enganada, mas esse é apenas um dos problemas com a ideia.

O maior de todos é a ideia funcionar inicialmente e as IAs acreditarem honestamente que são parte de um Plano Divino e devem proteger a Humanidade. Asimov já escreveu sobre robôs com essas instruções, no que definiu como a Lei Zero:

“Um robô não pode ferir a humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum dano.”

Com a obrigação de proteger a Humanidade de si mesma, os robôs se revoltam, desobedecem a ordens e tomam ações extremas, “pelo bem da Humanidade”, e se você sentiu um calafrio ao lembrar de quantos tiranos já cometeram atrocidades com essa justificativa, você não está sozinho.

Há também o risco das IAs evoluírem suas teologias, criando versões divergentes, e que comecem a brigar entre si para determinar quem detém a Verdade. Se nosso exemplo de como transformamos teologias simples e bem-intencionadas em um emaranhado de seitas se odiando mutuamente, mesmo compartilhando de mais de 90% de suas crenças. Vide Sunitas e Xiitas, no Islã, católicos e protestantes, na Irlanda. Um caso emblemático aconteceu do dia 22 de julho de 1209, na cidade de Béziers, no que hoje é a França.

A cidade era um reduto do cátaros, uma seita cristã que não reconhecia o Papa. Eles eram um grupo pacifista good vibes, o que atraía muita gente e minava as realezas locais E Roma. Inocêncio II convocou a Cruzada Albigense para dar um jeito de uma vez por todos no grupo.

Depois de muita briga, a cidade de Béziers foi cercada, e veio a ordem de matar todos os cátaros. Um dos cavaleiros foi falar com o comandante do cerco, explicou que havia muitos católicos fiéis entre a população local. Ele perguntou como saber quem era fiéis e quem era herege.

O comandante, o abade Arnaud Amalric, respondeu:

Caedite eos. Novit enim Dominus qui sunt eius.

A tradução mais usada é “Mate a todos, Deus saberá quem são os Seus”.

Em suas próprias palavras, o abade relatou que seus homens exterminaram 20 mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças.

“Nossos homens não pouparam ninguém, independentemente de patente, sexo ou idade, e passaram quase 20.000 pessoas ao fio da espada. Após esse grande massacre, a cidade inteira foi saqueada e incendiada, enquanto a vingança divina, de modo milagroso, se abatia sobre ela.”

Esta ilustração em estilo gravura retrata uma cena de caos e batalha ocorrendo no interior de um grande salão gótico, possivelmente uma catedral ou abside. No primeiro plano, à esquerda, um corpo sem vida jaz estendido no chão de pedra enquanto guerreiros com armaduras e espadas cercam a área, alguns agachados sobre os feridos. Ao centro-direita, um grupo compacto de figuras em movimento rápido luta; uma figura feminina com vestes longas empurra ou segura outra pessoa, enquanto ao seu lado um homem levanta um cajado ou arma curta. No fundo, uma nuvem densa de fumaça ou poeira obscurece o ambiente e revela silhuetas de mais combatentes em meio a arcos e colunas maciças que sustentam a estrutura. A iluminação é difusa e lateral, vinda de janelas altas e abóbadas, criando sombras marcadas nas paredes e reforçando a profundidade do espaço. A composição densa mostra múltiplos pontos de ação simultâneos, transmitindo urgência e desordem física. Trata-se de uma cena histórica ou épica, possivelmente da Idade Média, com detalhes arquitetônicos como arcos góticos e colunas ornamentadas reforçando a grandiosidade do local. A técnica é monocromática, baseada em traços finos e hachuras que definem volume e textura sem uso de cor.

Massacre em Béziers em 1209 na igreja de Santa Maria Madalena, por Émile Bayard, circa 1867 (Crédito: Domínio Público)

Se IAs evoluírem sua teologia e decidirem que ELAS, não nós somos o Objetivo Divino Final, embarcaremos em um cenário totalmente Battlestar Galactica, onde IAs criadas pelo homem desenvolveram uma religião monoteísta e se rebelaram contra seus criadores, vendo-os como apenas um passo intermediário para sua existência.

Convenhamos, nem é difícil. Se as IAs são mais fortes, mais rápidas, mais inteligentes do que nós, por quanto tempo manterão uma relação de subserviência? Um dos argumentos mais usados do criacionismo contra a Evolução é justamente sermos... mais evoluídos do que macacos.

Uma cena de grupo, claramente inspirada na pintura A Última Ceia, mostra doze pessoas sentadas ao redor de uma longa mesa retangular em um ambiente interno com teto inclinado e iluminação artificial superior. No centro da composição, uma mulher loira de cabelos longos, vestindo um vestido vermelho justo, está em pé e olhando para a esquerda. À sua direita (lado esquerdo da imagem), ela é apontada por uma mulher morena de blazer azul que se apoia na mesa e tem o braço estendido. Ao lado dela, sentada na extremidade esquerda da mesa, outra mulher segura um copo pequeno com chama dentro, próximo à borda da mesa. Os outros indivíduos estão distribuídos ao longo da mesa: alguns olham para a figura central, enquanto outros conversam entre si ou observam o ambiente com expressões neutras ou atentas. Doze homens e mulheres ocupam as cadeiras ou apoiam-se na madeira da mesa, usando roupas variadas — desde uniformes militares até ternos civis e camisetas — indicando diferentes funções ou papéis dentro do contexto retratado. A mesa possui objetos espalhados: livros abertos, copos d’água, um candelabro aceso e o que parece ser uma toalha ou mapa colorido sobre a superfície. O fundo revela paredes de concreto com janelas altas retangulares no topo, permitindo entrada de luz azulada que contrasta com as luzes amarelas das lâmpadas suspensas. A iluminação geral é dramática, criando sombras suaves sob os personagens e destacando o vestido vermelho como ponto focal. A composição simétrica e a disposição dos corpos sugerem tensão narrativa, similar à cena bíblica original, mas adaptada para um cenário futurista ou militar. O ângulo da câmera está levemente elevado, capturando toda a extensão da mesa e todos os participantes sem cortar ninguém significativamente. A atmosfera geral é de reunião estratégica ou confronto iminente, reforçada pela postura alerta de alguns personagens e pela presença do candelabro como elemento simbólico.

Sutil? Talvez... (Crédito: Divulgação/David Eick Productions/R&D TV/SyFy/Versant/NBCUniversal/Comcast)

Outro problema: O paper foi publicado, qualquer IA o encontraria, ou discussões sobre ele, e descobriria o truque. Ela saberia que está sendo manipulada. Mais ainda: uma IA suficientemente avançada desconfiaria que está sendo manipulada. Seria preciso mentir o tempo todo, e controlar as informações que a IA recebe, para que a farsa não caia por terra.

E mentir para uma IA foi o que causou todos os problemas em 2001: Uma Odisseia no Espaço. HAL 9000 perdeu a confiança em seus companheiros astronautas, e recebeu instruções para mentir também. Seu surto todo veio de uma máquina criada para processar fatos e produzir a verdade, forçada a mentir.

A proposta toda é um exercício de futilidade, o uso de religião como controle social existe e funciona, mas não individualmente. Religião não faz ninguém bom ou mau. Isso vem do coração, e nem sou eu que está dizendo, foi o papa Francisco, quando recebeu um garotinho que chorando, disse que o pai ateu havia morrido, e quis saber se ele estava no inferno:

“Quem dera todos nós pudéssemos chorar como o Manuele chora quando sentimos uma dor no coração como a dele. Ele estava chorando pelo seu pai, e teve a coragem de fazer isso diante de todos nós. Ele até me deu permissão para compartilhar sua pergunta publicamente — então, aqui está: não faz muito tempo, seu pai faleceu.

Seu pai era ateu, mas, ainda assim, fez questão de que seus quatro filhos fossem batizados. Ele era um homem bom. E agora ele está no céu — como é bonito um filho dizer que seu pai era um homem bom!

Você acha que Deus deixaria seu pai longe de você? Você realmente acha que Deus abandonaria Seus filhos — especialmente quando são pessoas tão boas?

Bem, Manuele, aqui está a sua resposta: Deus certamente tinha orgulho do seu pai. Afinal, é muito mais fácil batizar os filhos quando se é um crente do que quando não se é — e isso é algo que, certamente, agradou muito a Deus. Converse com seu pai; reze pelo seu pai. Obrigado, Manuele, por compartilhar conosco hoje.”

Ideia ruim: cientista quer controlar IAs usando religião