Brasil pode voltar a ser a 8ª maior economia, apesar de dívida em alta e desaceleração

31 de Out de 2026 - 22:10
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Brasil pode voltar a ser a 8ª maior economia, apesar de dívida em alta e desaceleração

O Brasil deve retomar o posto de oitava maior economia do mundo em 2027, segundo o ranking do Produto Interno Bruto (PIB) nominal. A projeção é do relatório Perspectivas da Economia Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), apresentado na semana passada em Bangkok, na Tailândia.

O relatório estima que o PIB brasileiro alcançará US$ 2,8 trilhões no próximo ano, ante US$ 2,66 trilhões em 2026, quando o país deve encerrar o ano na décima colocação. Apesar da perspectiva de avanço no ranking, o FMI alerta para a necessidade de o Brasil controlar o crescimento das despesas públicas e conter o avanço da dívida do governo.

Itália e Rússia, que hoje aparecem à frente do Brasil na classificação, devem ser ultrapassadas. O avanço brasileiro depende, em parte, da fraqueza alheia: enquanto a demanda doméstica segue resiliente e os termos de troca favorecem a pauta de commodities e petróleo, as economias europeias e a russa desaceleram.

Quem está no topo e quem o Brasil pode deixar para trás

Segundo estimativas do FMI para 2027, o topo do ranking mundial permanecerá liderado pelos Estados Unidos e pela China. A novidade está logo abaixo do Brasil: as margens sobre a Itália e a Rússia são apertadas — o PIB brasileiro fica apenas 1,1% acima do italiano, vantagem que uma oscilação cambial pode reverter.

No entanto, a volta ao grupo das oito maiores economias não significa, necessariamente, uma melhora proporcional do desempenho econômico brasileiro. O ranking considera o PIB nominal convertido em dólares, indicador que varia não apenas conforme o crescimento da economia, mas também com as oscilações cambiais e o desempenho dos demais países.

Assim, o Brasil pode ganhar posições mesmo em um cenário de desaceleração doméstica, especialmente quando economias concorrentes crescem pouco ou perdem valor em dólares.

Estimativa de Ranking do FMI para 2027 (PIB nominal, em US$ trilhões)

  1. Estados Unidos — 34,44
  2. China — 22,94
  3. Alemanha — 5,66
  4. Índia — 4,52
  5. Reino Unido — 4,49
  6. Japão — 4,47
  7. França — 3,65
  8. Brasil — 2,80
  9. Itália — 2,77
  10. Rússia — 2,68

Por que Itália e Rússia perdem força

A Itália é o caso mais claro. O FMI projeta crescimento do PIB real de apenas 0,8% em 2026 e 0,6% em 2027, refletindo o cenário da Zona do Euro, pressionada pelos altos custos da energia, especialmente petróleo e derivados, e pela fraca confiança dos consumidores.

No caso da Rússia, a estimativa do FMI aponta crescimento de 0,9% em 2026 e 0,9% em 2027. O país enfrenta gargalos graves: uma guerra com a Ucrânia iniciada em fevereiro de 2022, energia cara e estragos em infraestruturas de transporte de petróleo. Os fatores limitam as exportações, e a expansão dos gastos militares compensa apenas parte da perda.

As duas situações reforçam a vantagem brasileira, mas o Fundo também sinaliza para moderação na atividade no país.

"Esperamos que a economia modere seu crescimento em 2026 e 2027. Isso apoia em parte o processo de desinflação, que é muito importante. E estamos mais otimistas quanto ao médio prazo, com reformas estruturais ajudando a fortalecer o crescimento para cerca de 2,5% ao ano", antecipou Anna Corbacho, vice-diretora do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI.

O que sustenta o Brasil além da fraqueza alheia

O país também tem fatores próprios para sustentar a posição no ranking. Segundo Corbacho, a economia permaneceu bastante resiliente, apesar de enfrentar múltiplos choques.

“Em particular, o Brasil está sendo ajudado por seu status de exportador líquido de petróleo, beneficiando-se de termos de troca mais fortes durante o ciclo global de commodities, além de ter uma matriz elétrica relativamente limpa, com fontes de energia renovável", observou.

Essa vantagem ajuda o país a atrair capitais internacionais e projetos de tecnologia, como data centers, e iniciativas de transição verde.

Ao mesmo tempo, o consumo doméstico continua firme, respaldado por níveis baixos de desemprego. A projeção do FMI, porém, é de alta no desemprego no próximo ano: média de 6,2% em 2026 e 6,8% em 2027.

Esse desempenho, contudo, convive com a taxa Selic em 13,75% ao ano, mantida para frear a inflação projetada pelo FMI, que é de 4,4% para 2026 e 4,1% para 2027.

FMI alerta para risco fiscal, enquanto Lula aposta no consumo

Do lado do governo, a resposta está na demanda popular. Na sabatina da TV Globo, no último dia 15, Lula resumiu a defesa: "A minha tese é a seguinte: muito dinheiro na mão de poucos é pobreza e pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza. É por isso que eu aposto muito na microeconomia e no microcrédito".

O chefe do Executivo sustenta que o crescimento impulsionado pelo consumo é o mecanismo hábil para amortizar o peso da dívida pública sobre o PIB.

A economia brasileira, no entanto, dá sinais contraditórios ao otimismo do Planalto. Nos quatro trimestres até junho, o PIB cresceu 1,9%, quinto período consecutivo de desaceleração, segundo o IBGE, contra alta de 3% em 2022, último ano antes da posse de Lula em seu terceiro mandato.

Sob Lula, mais que dobrou a velocidade de endividamento público: nos 44 meses até agosto de 2026, a dívida bruta subiu nove pontos percentuais, alcançando 82,9% do PIB, segundo o Banco Central.

As leituras do governo divergem da projeção do FMI. O Ministério da Fazenda, via Secretaria de Política Econômica, estima expansão de 2,0% em 2026.

O alerta de Corbacho, porém, dialoga diretamente com o debate fiscal doméstico: "Certamente existem riscos para essa economia: a incerteza global afeta o Brasil, assim como afeta muitos outros mercados emergentes, além da necessidade de continuar fortalecendo os esforços fiscais [...] e avançando em reformas estruturais para elevar a produtividade."