“Na saúde e na doença”? Por que os homens não são solidários no câncer
Um dia, em 2003, enquanto estava em uma viagem de trabalho no outro lado do país, recebi um telefonema da minha esposa, Dânia. Ela havia acabado de receber o resultado dos seus exames e ligava para contar que estava com câncer de mama.
Antes de ir ao aeroporto, fiz minha primeira besteira: falei do diagnóstico para todos que estavam comigo naquele momento.
Ao longo dos 19 anos seguintes, fiz outras asneiras, mas não a maior de todas: abandoná-la, seguindo um padrão masculino apontado em diversas pesquisas.
Mulheres com câncer têm mais chances de serem abandonadas pelos parceiros
Mulheres têm seis vezes mais chances de se divorciar após um diagnóstico de câncer do que um homem na mesma condição.
No Brasil, a depender da região, 40% delas são deixadas entre o início da doença e o fim do tratamento. A ponto de uma pesquisa revelar que apenas uma em cada cinco brasileiras tem no parceiro a pincipal fonte de apoio nessas circunstâncias.
Eu só comecei a me atentar a esse problema quando, nas primeiras consultas, o oncologista relatou que era raro ver o companheiro no consultório. Ora, o que para nós era algo normal — não concordamos com o “na saúde e na doença”? — acabou nos chamando a atenção enquanto transitávamos por clínicas e ambulatórios.
Em geral, homens só habitavam esses espaços quando eram eles os pacientes. Víamos homens com câncer acompanhados da esposa, da mãe, de filhas — às vezes, até da ex. Mulheres com câncer, quando não estavam sozinhas, eram acompanhadas de outras mulheres.
Como o machismo afeta o tratamento de mulheres com câncer
Eu e Dânia conversávamos sobre essas questões e, enquanto pesquisadores e profissionais de comunicação, fomos acumulando impressões e informações colhidas desse interesse. Sabíamos, claro, que nossa visão era limitada ao pequeno universo que cercava Dânia, mas isso não nos impediu de pensar, estudar e aprender que havia um componente sexista nos tratamentos de saúde.
Quando Dânia faleceu, em 2022, o Cláudio jornalista que tinha priorizado a carreira de professor e pesquisador na década anterior resolveu, como forma de conviver com o luto, buscar dados que comprovassem — ou refutassem — essas impressões.
Para minha surpresa, o que descobri foi estarrecedor: o sexismo chega a limitar o próprio enfrentamento da doença. Mulheres recebem diagnósticos tardios, têm sintomas minimizados nas consultas, são sub-representadas em estudos e não têm sua sexualidade levada em consideração.
Dânia sofreu mais do que as dores do câncer e do tratamento. Sofreu as consequências do machismo na medicina.
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A importância do apoio dos homens durante o tratamento do câncer
Tudo isso ajudou a redefinir meu luto e a entender como homens podem ser, ao mesmo tempo, vítimas e algozes. Fazemos parte dessa cadeia opressora que impõe como cada gênero deve sentir e ser cuidado. Um círculo vicioso em que todos sofrem.
Em retrospecto, contar aos meus colegas algo tão íntimo lá atrás foi até um vacilo menor. Mas espero que eu possa ser redimido ao relatar todo o percurso restante na expectativa de que algum aprendizado chegue não apenas aos consultórios mas a quem sofre ou está ao lado de alguém sofrendo com a doença.
Para que os homens se tornem mais presentes e possam segurar, com firmeza e afeto, a mão de quem amam.
*Cláudio Magalhães é jornalista, professor e pesquisador social. É autor de Quando os Homens Não Abandonam na Doença, recém-lançado pela Editora Vestígio.