"Compramos um sonho", diz mulher vítima de golpe da falsa cirurgia de mama

1 de Nov de 2026 - 16:00
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"Compramos um sonho", diz mulher vítima de golpe da falsa cirurgia de mama

Ao menos 30 mulheres teriam sido atraídas a um falso mutirão de cirurgias de mama, anunciado como se fosse realizado no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Para garantir os procedimentos, as pacientes eram orientadas a pagar valores entre R$ 1 mil e R$ 3 mil, sob a justificativa de que o dinheiro seria destinado à compra de insumos cirúrgicos.Assista: Uma das mulheres que acreditaram na proposta foi Laura*. Ela conta que chegou ao projeto por indicação de uma amiga e acreditou na iniciativa por se tratar de um suposto mutirão realizado pelo SUS, associado à campanha Outubro Rosa.O nome da unidade pública de saúde teria sido utilizado indevidamente para dar credibilidade à falsa promessa de realização das cirurgias. Não havia, portanto, um mutirão oficial do hospital nos moldes anunciados às pacientes.A vítima tinha o sonho de fazer uma redução de mama desde a adolescência, mas nunca havia conseguido realizar o procedimento devido ao alto custo. Por isso, a possibilidade de participar de um projeto social pareceu uma oportunidade.A responsável pelo projeto, identificada como Tayná Regina Oliveira Castro, 42 anos, ainda teria utilizado indevidamente os nomes de cirurgiões plásticos conhecidos no Distrito Federal e que também atuam na Secretaria de Saúde, afirmando que eles seriam os responsáveis por realizar os procedimentos nas pacientes.“Em nenhum momento foi dito que o pagamento de R$ 1 mil seria para facilitar alguma coisa. A informação era de que seria para os insumos que seriam utilizados. Como era um projeto, você entende que é algo dentro da legalidade”, relata a vítima.Ao Metrópoles, Tayná negou ser golpista e disse que também foi “induzida a erro pelas informações que me foram apresentadas sobre a proposta de cirurgias por valores reduzidos” (leia a resposta completa mais abaixo).Depois de realizar os exames solicitados pelo particular, ela recebeu orientações sobre uma consulta que aconteceria no próprio Hran. Segundo ela, as pacientes eram informadas sobre o nome do médico que faria o atendimento, o local de entrada no hospital e como deveriam proceder.A desconfiança começou quando uma clínica vinculada a um dos cirurgiões mencionados no projeto publicou um alerta nas redes sociais, negando qualquer relação com a iniciativa e classificando a oferta como fraudulenta. A responsável pelo projeto compartilhou a publicação no grupo de WhatsApp das pacientes e alegou que alguém havia feito uma denúncia.Mesmo após o alerta, segundo Laura*, a responsável continuou apresentando justificativas e prometendo soluções. Outra possibilidade de atendimento chegou a ser anunciada, com um novo médico e consultas supostamente agendadas. A mulher afirma que chegou a ser comunicada sobre uma consulta e concluiu todos os exames solicitados.“São muitas mulheres que, infelizmente, compraram um sonho. E não é propriamente sobre valores, é sobre acreditar. Essa pessoa continua brincando com o sentimento das pessoas. É um sonho com o qual você começa a mexer, envolve a família toda, toda uma preparação”, desabafa.Além da cirurgia que não aconteceu, Laura* diz que enfrenta dificuldades para recuperar o dinheiro pago. A vítima afirma que a responsável apresenta sucessivas promessas de pagamento, com prazos que são adiados.Em determinado momento, o grupo chegou a ser fechado para manifestações, restringindo o contato das participantes à conversa privada com a organizadora. “Existe sempre a promessa de que vai pagar na segunda, na terça, amanhã. O mês acabou e ninguém recebeu”, conta.Para ela, a frustração é ainda maior porque a iniciativa utilizava o Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama, para atrair mulheres interessadas nos procedimentos.“É desumano usar uma causa humanitária para ganhar dinheiro. O Outubro Rosa é uma causa muito difícil para quem vive isso. Mesmo que você não passe pela situação, conhece pessoas que passam e sabe que não é fácil. Além de não realizar um sonho, a gente vê uma pessoa usar uma causa tão nobre para se beneficiar financeiramente”, lamenta.4 imagensFechar modal.1 de 4Tayná Castro é apontada com responsável pelo projeto que enganou as mulheres Reprodução2 de 4Um dos médicos que teve o nome usado indevidamente alertou para o golpeVINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto3 de 4Mulheres denunciam terem sido enganadas com falso mutirão VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto4 de 4Ao menos 30 mulheres faziam parte do grupo do falso projeto VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto“Muito revoltante”Outra mulher que afirma ter sido vítima do suposto golpe é Marina*. Ela chegou a pagar R$ 1 mil para participar do projeto. A paciente relata que conheceu a iniciativa por indicação de uma conhecida e acreditou na proposta porque já havia acompanhado a realização de mutirões de cirurgias em hospitais públicos.Segundo ela, a responsável pelo projeto afirmava que conseguiria incluir os nomes das interessadas em uma lista de pacientes do Hran.Depois que o primeiro atendimento foi desmarcado, Tayná teria apresentado uma nova possibilidade: uma consulta com um cirurgião plástico em uma clínica particular, em Águas Claras, com a promessa de que o procedimento seria realizado pelo SUS.A consulta, no entanto, também foi cancelada. A paciente afirma que recebeu sucessivas promessas de remarcação até ser informada de que a cirurgia seria realizada novamente no Hran, com data marcada para 20 de outubro. Para se preparar, ela fez todos os exames solicitados em clínicas particulares, incluindo avaliação de risco cirúrgico e exames de sangue.No dia previsto para o procedimento, quando já estava a caminho do hospital, recebeu uma ligação informando que tudo havia sido cancelado. Segundo a mulher, Tayná prometeu devolver o dinheiro, mas, desde então, apresenta justificativas diferentes para não fazer o pagamento.“É porque a conta está bloqueada, porque vai pegar empréstimo, porque vai penhorar o carro. É sempre uma desculpa diferente. Eu preciso desse dinheiro, mas até hoje não recebi”, relata.Além dos R$ 1 mil pagos, Marina* diz ter tido outros gastos para se preparar para a cirurgia. Ela comprou sutiã e meias especiais, pagou pelos exames e chegou a contratar uma pessoa para acompanhá-la no hospital.“Mexeu com toda a minha vida. Eu tive que contratar uma pessoa para ficar comigo no hospital, mudar minha agenda de trabalho e minha rotina familiar. Eu me preparei emocionalmente para realizar esse sonho neste ano e, no fim, nada aconteceu”, desabafa.A mulher afirma que outras pacientes também foram prejudicadas e que os pagamentos eram feitos para diferentes contas. No caso dela, a transferência foi direcionada a um CNPJ ligado a uma atividade de enfermagem, mas ela diz não saber quem era o titular. Outras mulheres, segundo o relato, teriam transferido dinheiro diretamente para Tayná ou para contas de terceiros.“Feriu profundamente todas nós, né? Mulheres que não tinham as a menor condição, diaristas e tudo, que deram um jeito de conseguir dinheiro emprestado para poder fazer essa cirurgia e nada. E ela trata assim com o maior descaso do mundo”, desabafa. (*) nome fictício para preservar a identidade da vítimaO que diz a Secretaria de SaúdeEm nota, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informou que não recebeu denúncia formal referente aos fatos relatados.De acordo com a pasta, todos os procedimentos e insumos ofertados na rede pública de saúde são gratuitos, regulados pelo SUS e sem cobrança de qualquer natureza. “A SES-DF permanece à disposição para colaborar com as investigações”, declarou.Casos suspeitos de golpe ou cobrança irregular devem ser denunciados à polícia e à Ouvidoria do DF, pelo telefone 162 ou pelo portal Participa DF.O outro ladoProcurada pela reportagem, Tayná se manifestou por meio de nota. Leia abaixo, na íntegra:“Também fui induzida a erro pelas informações que me foram apresentadas sobre a proposta de cirurgias por valores reduzidos. Na ocasião, foram apresentados relatos de procedimentos realizados em hospitais particulares. Acreditei na proposta, efetuei meu próprio pagamento e cheguei a comentar com amigas sobre a possibilidade de realizar a cirurgia. Diante dos questionamentos que surgiram posteriormente, passei a buscar esclarecimentos e providências para a restituição dos valores pagos. Os fatos serão esclarecidos pelas vias adequadas, com a apresentação dos documentos pertinentes“.