Cooperação mirim: somar forças, empreender e pagar o próprio sorvete
Economia Cooperativa
Por Filipe Albuquerque, especial para a Gazeta do Povo
04/11/2026 às 14:09
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Aos 15 anos, Rian Santos era tão tímido que se sentia constrangido na presença de desconhecidos. Quase três anos depois, aos 18, é estudante de Educação Física e educador orientador da Cooper Laços e da Cooper Ville, duas cooperativas mirins criadas pela parceria entre o e a Associação Guarda Mirim, em Lerroville, área rural de Londrina. Foi a participação no programa Cooperativa Mirim, criado pelo Sicoob, que fez do adolescente retraído uma liderança jovem local.
Convencido por um educador a participar da , Rian acabou eleito presidente por unanimidade. Logo desenvolveu habilidades como ouvir os participantes e delegar funções. “Mesmo sendo tímido, tenho a capacidade de liderar, consigo tirar dos outros o melhor lado de cada um”, avalia.
Pelas diretrizes do programa, a escolha do objeto de aprendizagem pressupõe que ele seja viável e atenda a alguma demanda da comunidade local. Em Lerroville, a atenção se voltou para as crianças. A investiu na produção de pipocas gourmet, enquanto a Cooper Ville se dedicou a trufas, biscoitos e bolos de pote. “As crianças daqui acabam não tendo acesso a isso porque são produtos mais caros”, observa Rian. Com parte do dinheiro das vendas, as cooperativas levaram cerca de 40 educandos a uma sorveteria. O excedente da produção de doces costuma ser doado a crianças da comunidade.
Fortalecimento do trabalho em equipe e do empreendedorismo
Depois de um ano na presidência, Rian foi eleito tesoureiro, cargo que ocupou dos 16 aos 17 anos. Hoje, como educador, orienta as lideranças das duas cooperativas. “Minha rotina é acompanhar o ritmo, ver o desempenho, qual é a melhor maneira de realizar [uma atividade]”, conta.
O programa Cooperativa Mirim estimula a formação de associações de estudantes em escolas públicas e privadas, em cooperativas educacionais e em instituições que atendem crianças e jovens de 8 a 17 anos, sobretudo em situação de vulnerabilidade. Amparado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) e pela Lei nº 5.764/1971, que define a Política Nacional de Cooperativismo, o projeto busca difundir o cooperativismo, estimular o trabalho em equipe, a sociabilidade, o empreendedorismo e o envolvimento com a comunidade local, além de preparar os participantes para o mercado de trabalho.
Em Londrina, o Sicoob Ouro Verde coordena oito cooperativas mirins, que reúnem 273 cooperados, todos voluntários. Uma delas é a única no país em atividade dentro de uma Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae). O Sicoob participa da constituição de cada cooperativa, oferece oficinas e treinamentos e acompanha o envolvimento dos cooperados. Em todo o Paraná, o Sicoob conta hoje com mais de 120 cooperativas mirins.
“Fazemos as parcerias com as instituições e levamos capacitação sobre o que é cooperativismo”, explica Nancy Ferreira, gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional do Sicoob Ouro Verde. “A partir disso, as crianças e os jovens passam a construir uma cooperativa de verdade”, acrescenta.
Mini-cooperativas têm diretoria eleita e assembleias periódicas
Para participar, cada cooperado faz um aporte financeiro inicial, de acordo com as próprias possibilidades. O dinheiro banca a primeira produção do objeto de aprendizagem, cuja venda mantém a associação. Empresas parceiras, familiares e o próprio Sicoob fazem encomenda. Doces, biscoitos e outros itens dos cooperados podem, por exemplo, compor o menu de um coffee break da instituição.
Em conjunto e por meio do voto, os cooperados elegem o presidente e os responsáveis pelas áreas financeira e de marketing e definem o objeto de aprendizagem. A agenda inclui reuniões mensais, como as da tesouraria, e assembleias ordinárias e extraordinárias. Os participantes aprendem a redigir estatuto, elaborar atas de cada reunião, cuidar do livro-caixa e produzir ofícios. Os perfis no Instagram também ficam sob a responsabilidade de um cooperado designado para cuidar do marketing. Todas as atividades são supervisionadas por um educador responsável.
“O objetivo não é a venda, mas ensinar a empreender”, explica Eliana Gomes dos Santos, da unidade de Desenvolvimento Corporativo do Sicoob Ouro Verde. O programa evita de propósito a palavra “lucro” e fala em sobra, como são conhecidos os resultados no cooperativismo. Além de ser empregado na produção de novos objetos de aprendizagem, o excedente pode ser utilizado para financiar atividades como passeios, idas ao cinema acompanhadas de uma refeição em uma lanchonete ou ações sociais.
Fundo de reserva e fluxo de investimentos
As cooperativas não têm conta bancária. O dinheiro fica em uma caixa dividida em compartimentos, cada um destinado a uma atividade, como a produção dos objetos de aprendizagem, o fundo de reserva e outras necessidades. O estatuto define o percentual de cada um. “O dinheiro nesta caixa não pode passar de um salário mínimo por mês, porque eles precisam estar investindo constantemente”, sublinha Eliana.
Os educandos de até 12 anos anotam todo o fluxo de dinheiro em um livro-caixa. Os de 13 a 17 anos registram entradas, saídas e sobras em uma planilha de Excel.
A , da Apae de Londrina, completa dois anos neste mês de novembro. Reúne 17 participantes, com idades entre 15 e 40 anos, em um universo de 360 estudantes. “Todos os nossos alunos têm deficiência intelectual, alguns têm múltiplas deficiências”, explica a educadora Marcella Sanches.
Cooperados da Apae reativam padaria fechada
“Trabalhamos práticas de educação, cidadania, autonomia e liderança, educação financeira e trabalho em equipe – as práticas dos objetos de aprendizagem. Os alunos estão bem felizes”, destaca. Segundo Marcela, os familiares também percebem mudanças positivas no comportamento dos cooperados em casa.
A cooperativa começou com bolachas amanteigadas de goiaba e doce de leite, aproveitando a estrutura de uma padaria desativada dentro da unidade da Apae. Com o tempo, a lista de objetos de aprendizagem cresceu e passou a incluir broa de fubá, geladinho de coco, cookie de chocolate, mousse de limão com leite Ninho e água de lençol, usada para aromatizar ambientes.
“Trabalhamos bastante metodologia. Tudo o que vai ser aplicado na produção do objeto de aprendizagem, a gente trabalha a educação financeira”, diz Marcella. Depois de definir o item a ser elaborado, o grupo consulta os tabloides de supermercado para identificar os insumos e o custo de cada um, calcula os gastos de produção e estabelece o preço de venda.
Cooperativas mirins em processo de votação
Produtos fabricados pelos associados de cooperativa mirim
Cooperados da Apae fazem visita ao Londrina Esporte Clube
Água de lençol, um dos objetos de aprendizagem da cooperativa Mãos que Transformam, da Apae Londrina
Associados da Cooperativa Mãos que Transformam no Sicoob Ouro Verde
Cooperados da Mãos que Transformam, da Apae, em evento no Sicoob Ouro Verde, com George Hiraiwa (de óculos, à direita)
Crianças de cooperativa mirim de Lerroville, Londrina, usufruem "sobras" de empreendimentos em sorveteria da cidade
Cooperativa mirim ensina crianças a somar forças para empreender e dividir responsabilidades
Essência do cooperativismo praticada na infância
Ações de sustentabilidade também estão na pauta. O grupo plantou mudas em uma área com poucas árvores e arrecadou tampinhas de garrafas PET que, vendidas, financiaram cestas de Natal entregues a uma residência inclusiva que abriga pessoas com deficiência sem vínculos familiares.
“Alguns dos nossos alunos não são alfabetizados para escrever uma ata. Mas eles têm espírito de cooperativismo, são participativos. Nossos alunos não faltam aos encontros”, conta Marcella.
Entre os passeios da turma estão a Exposição Rural de Londrina e uma visita aos jogadores do Londrina Esporte Clube. Neste ano, com a sobra do dinheiro arrecadado, os alunos decidiram por voto que irão a uma churrascaria no fim do ano.
“É o que temos de melhor em ação com a comunidade na área social”, celebra George Hiraiwa, presidente do Conselho de Administração do Sicoob Ouro Verde. Entre os princípios do cooperativismo estão a educação, a formação e a informação, além do interesse pela comunidade. “Com a cooperativa mirim, entregamos a essência do cooperativismo à comunidade onde atuamos”, sintetiza.
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