Cuidados paliativos deveriam começar já no diagnóstico do câncer

10 de Out de 2026 - 08:50
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Cuidados paliativos deveriam começar já no diagnóstico do câncer

O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Segundo as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgadas em 2024, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023 e deve chegar a 37,8% em 2070.

Viver mais é uma conquista, mas traz consigo o aumento das doenças crônicas, entre elas, o câncer. A longevidade só se realiza plenamente quando os anos adicionais são vividos com qualidade, autonomia e alívio do sofrimento.

É nesse cenário que os cuidados paliativos deixam de ser assunto de especialistas e passam a ser uma questão de saúde pública.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), eles são uma abordagem ativa voltada à qualidade de vida de pacientes e cuidadores que enfrentam doenças que ameaçam a continuidade da vida.

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Não se restringem à fase terminal: devem começar no diagnóstico e caminhar ao lado da quimioterapia, da radioterapia e da cirurgia.

As evidências sustentam os benefícios dessa integração precoce. Um estudo publicado em 2010 acompanhou pacientes com câncer de pulmão metastático que, além do tratamento oncológico, receberam cuidados paliativos desde o início.

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Esses pacientes apresentaram melhor qualidade de vida e humor, receberam menos intervenções agressivas no fim da vida e tiveram sobrevida mediana maior: 11,6 meses, contra 8,9 meses entre aqueles que receberam apenas o tratamento oncológico.

A Sociedade Americana de Oncologia Clínica recomenda o encaminhamento para cuidados paliativos em até oito semanas após o diagnóstico. Na prática, isso significa melhor controle de sintomas, menos idas ao pronto-socorro e menos internações.

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Apesar disso, muitos pacientes ainda chegam tarde. As causas são conhecidas: formação médica voltada para a cura, dificuldade em comunicar notícias difíceis, falta de fluxos assistenciais definidos, escassez de equipes estruturadas e resistência dos próprios especialistas.

Esse conjunto de barreiras resulta em um modelo centrado no hospital: em um levantamento com 2.480 pacientes com câncer terminal, 93,9% foram hospitalizados, e a internação ocupou 39,7% do tempo de vida restante.

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O encaminhamento tardio não é apenas consequência do estigma, mas também contribui para perpetuá-lo. Quando o primeiro contato com uma equipe de cuidados paliativos ocorre junto com a notícia de que a doença progrediu, pacientes e famílias podem associar essa assistência à morte e à ideia de “desistir do paciente”.

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Chega-se tarde porque se associa o cuidado ao fim da vida, e essa associação se fortalece justamente porque o contato ocorre com atraso. Romper esse ciclo exige integrar essa abordagem à linha de cuidado desde o diagnóstico, como prevê a Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída em 2024.

* Renata de Freitas é médica, diretora do Hospital do Câncer IV (HC IV), unidade de cuidados paliativos do Instituto Nacional de Câncer (Inca)

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