Onde fica a praia com a maior onda do Brasil

10 de Out de 2026 - 10:20
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Onde fica a praia com a maior onda do Brasil

Jaguaruna, no litoral sul de Santa Catarina, recebeu em julho o título de Capital Nacional da Maior Onda do Brasil. A Lei nº 15.461, sancionada em 7 de julho, formalizou o reconhecimento do município como sede da maior onda surfada e registrada no país.

O título tem como referência a Laje da Jagua, formação rochosa em mar aberto, a cerca de cinco quilômetros da costa. Foi ali que o surfista Lucas Chumbo desceu, em 30 de julho de 2025, uma onda de 14,82 metros — marca divulgada como recorde brasileiro após análise técnica feita a partir de imagens do surfe. A onda superou o registro anterior de 13,7 metros e levou o nome de Jaguaruna ao circuito internacional de surfe de ondas grandes.

A projeção da Laje da Jagua, conhecida no meio do surfe como “Nazaré Brasileira”, abre caminho para um novo momento. Jaguaruna está na janela de espera para receber o Mormaii Big Wave Challenge. A Big Wave Brasil, entidade ligada ao surfe de ondas grandes, aponta que esta será a primeira etapa de um campeonato mundial de ondas grandes na remada realizada no Brasil.

Recorde registrado pode não ter sido maior onda da Laje da Jagua 

A onda de 14,82 metros surfada por Chumbo deu uma dimensão mensurável à fama que a Laje da Jagua já tinha entre praticantes de surfe de ondas grandes. A expedição foi organizada pela Big Wave Brasil, que acompanha a Laje da Jagua desde 2003, em parceria com a Mormaii; depois da sessão, a entidade reuniu imagens e vídeos e contratou o oceanógrafo e especialista em medição de ondas Douglas Nemes para analisar o material.

O resultado foi divulgado como a maior onda registrada e surfada no país. “Falava-se muito que havia ondas acima de 10 metros ali, mas faltavam registros. No ano passado, finalmente tivemos essa prova importante”, conta Thiago Jacaré, surfista e um dos fundadores da Big Wave Brasil.

A lei formalizou o reconhecimento de Jaguaruna como sede da maior onda surfada e registrada no país.

Mauro Michelena Andrade, professor de Oceanografia Física da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), que pesquisa processos como ondas, marés, correntes e dinâmica costeira, pontua que o registro não significa necessariamente que aquela tenha sido a maior onda já formada na Laje e que a região tem as especificações necessárias para gerar ondas maiores. Ele explica que a marca se baseia no material disponível da onda surfada, enquanto o ponto ainda não conta com instrumentos instalados para medir continuamente todas as ondulações que passam pela formação rochosa.

“Podem ter ocorrido ondas maiores em momentos sem surfistas no local, durante a noite ou em condições que não eram adequadas para a prática do surfe”, afirma Andrade. Segundo ele, apenas a rede de equipamentos de monitoramento antes e depois da laje permitiria registrar, de maneira permanente, a altura e as características das ondas que chegam ao local.

Antes de Chumbo, a referência era uma onda de 13,7 metros surfada por Thiago Jacaré. O surfista relata também já ter surfado, em outra ocasião, uma onda próxima de 14 metros, mas sem um registro técnico que permitisse compará-la à marca de Chumbo. Também conta ter presenciado, junto de outros surfistas, uma sessão ainda maior que não foi fotografada ou filmada.

Segundo o atleta, registrar uma onda depende de mais do que encontrar um swell — ondulações formadas em alto-mar por tempestades distantes — de grande porte. É preciso prever a chegada da ondulação, mobilizar surfistas e equipe de apoio, navegar até a laje e ter imagens em condições adequadas para análise técnica futura. A Big Wave Brasil afirma acompanhar os mapas de previsão e manter estrutura de operação e mídia para documentar as sessões.

“Quando houver o dia ideal, estaremos preparados para comprovar que Jaguaruna pode competir com qualquer grande onda do mundo”, ressalta ele sobre a ambição da entidade de registrar recordes maiores.

Em maio deste ano, a Laje da Jagua também foi palco do recorde feminino. A paranaense Michaela Fregonese surfou uma onda medida em 12,25 metros, apontada como a maior já surfada por uma mulher no Brasil, após análise técnica das imagens da sessão.

Por dentro da Laje da Jagua

A cerca de cinco quilômetros da costa de Jaguaruna, a Laje da Jagua é uma elevação rochosa no fundo do mar. Andrade explica que ela está em uma área da plataforma continental onde o relevo costuma ser mais plano e arenoso, com aumento gradual de profundidade em direção ao oceano.

No ponto da laje, porém, esse padrão muda de forma brusca: onde o mar tem em torno de 30 a 40 metros de profundidade, o fundo sobe até aproximadamente dois metros. É essa mudança no relevo submarino que cria as condições para ondas de grande porte.

“A ondulação chega ao ponto ainda carregada de energia e, ao encontrar a redução abrupta de profundidade, desacelera. Parte da energia passa então a se transformar em altura, em um processo chamado de empolamento ", ressalta.

O oceanógrafo aponta que as ondulações que alcançam o litoral sul do Brasil costumam se formar em regiões mais ao sul do oceano, próximas à Antártica, onde ventos fortes podem agir sobre grandes extensões de água. Para a Laje da Jagua produzir ondas maiores, não basta haver mar agitado: é preciso que um swell de grande energia chegue com período e direção adequados.

Segundo Andrade, as ondulações de sudoeste tendem a encontrar a formação de maneira mais favorável; as condições são mais comuns no inverno e logo depois da estação. A expressão “Nazaré Brasileira” se espalhou entre surfistas e passou a ser usada na divulgação turística da cidade, comparado o lugar Nazaré, em Portugal, que é conhecida como capital das maiores ondas do mundo.

A comparação faz sentido pela dimensão que as ondas podem alcançar, mas Andrade ressalta que a origem do fenômeno não é a mesma. Na vila portuguesa, as ondas da Praia do Norte são influenciadas pelo Canhão de Nazaré, um cânion submarino que se aproxima da costa e interfere no deslocamento das ondulações. Na Laje da Jagua, ocorre o contrário: “não há um cânion, mas uma elevação rochosa em meio a uma área mais profunda do mar”, explica.

Prefeitura quer transformar onda gigante em destino turístico 

O título federal chega no momento em que Jaguaruna tenta transformar a visibilidade obtida com a Laje da Jagua em uma estratégia de turismo. A cidade participa da Rota do Big Surf, criada por lei estadual para reunir Jaguaruna, Laguna, Imbituba, Garopaba e Tubarão em ações de turismo esportivo ligadas às ondas grandes.

A norma prevê a integração de atividades como hotelaria, gastronomia, comércio, serviços e indústria esportiva, além da formação de um comitê gestor com prefeituras, entidades do surfe e órgãos estaduais.

Para o secretário municipal de Turismo, Dante Gentil, o título de Capital Nacional da Maior Onda do Brasil funciona como chancela para desenvolver produtos e experiências em torno da Laje. “O big surf tem um cenário global, e esse título dá mais embasamento e credibilidade para desenvolver ações e produtos relacionados à Laje da Jagua”, afirma.

Uma das iniciativas em estudo é a criação de um passeio ou expedição náutica até a formação rochosa. Como a atividade deve ter custo maior e não ser acessível a todos os visitantes, a prefeitura também trabalha com alternativas em terra, como uma experiência de imersão em 3D, um acervo técnico para apresentar a formação das ondas e os naufrágios da região e um monumento em tamanho real de uma onda gigante.

Segundo Gentil, o município ainda pretende integrar a Laje da Jagua a roteiros de cicloturismo e de naufrágios. A prefeitura também informou que custeou o estudo técnico usado na medição da onda surfada por Chumbo, adquiriu motonáuticas para apoio logístico de atletas e mantém parceria com a associação de tow-in de Jaguaruna, entidade ligada ao surfe de ondas grandes praticado com apoio de motos aquáticas.

O secretário ressalta ainda que o município destinou R$ 300 mil ao mundial Mormaii Big Wave Challenge. A aposta enfrenta um desafio comum a destinos que dependem de eventos naturais: criar razões para o visitante ir à cidade quando não há ondas gigantes.

Gentil diz que Jaguaruna possui imóveis de veraneio que ficam vazios fora da alta temporada — mais de 70%, segundo estimativa dele —, mas reconhece que a oferta de hospedagem ainda precisa ser formalizada, promovida e integrada ao Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur) e a plataformas de reserva.

A oferta de gastronomia e serviços fora do verão também está entre os gargalos apontados pelo secretário. “Não basta ter o atrativo natural; é preciso criar uma rede de serviços e experiências para que toda essa vocação turística se sustente ao longo do tempo”, afirma Gentil.

Mundial depende do mar

A projeção obtida pela Laje da Jagua será testada ainda neste ano com a possibilidade de Jaguaruna sediar o Mormaii Big Wave Challenge. Na modalidade, os atletas entram na onda apenas com a força da remada, sem serem rebocados por motos aquáticas, como ocorre no tow-in.

A previsão é reunir 12 surfistas na categoria masculina e seis na feminina, com atletas de Brasil, Austrália, Inglaterra, Portugal, Peru e Chile. A premiação anunciada é justamente o valor que a prefeitura diz ter destinado à competição — R$ 300 mil.

Diferentemente das competições tradicionais de surfe, o evento não tem uma data previamente marcada. Thiago Jacaré explica que a janela de espera está aberta até 30 de novembro e a disputa só será acionada se as previsões indicarem uma ondulação com altura, período, energia e vento adequados.

Se as condições não se confirmarem neste período, a organização prevê reabrir uma nova janela em março de 2027. A Big Wave Brasil afirma acompanhar a previsão de swells com até 17 dias de antecedência.

Quando identifica um cenário promissor, emite um “sinal amarelo” para colocar atletas, imprensa, patrocinadores e equipe de organização em alerta. Se a previsão se mantiver favorável, o “sinal verde” é divulgado sete dias antes da prova. Caso a ondulação perca força ou o vento comprometa o mar antes dessa confirmação, a chamada é cancelada.

“É uma responsabilidade muito grande, porque uma chamada errada pode fazer os atletas viajarem e encontrarem um mar pequeno ou inadequado. Por isso, a análise precisa ser muito precisa”, afirma o surfista.

A realização da prova depende da mesma combinação que fez a Laje da Jagua ganhar visibilidade: uma grande ondulação formada em alto-mar, direção favorável para atingir a elevação rochosa e condições adequadas de vento.

Caso isso aconteça dentro da janela, Jaguaruna deixará de ser apenas o local de um recorde nacional para receber atletas de diferentes países em uma disputa pelo título da temporada. “Mais do que sediar uma etapa, a Laje da Jagua elegerá o campeão mundial de ondas grandes de 2026”, afirma Jacaré.