Pesquisa mostra altas taxas de pressão alta, estresse e obesidade entre crianças e adolescentes

9 de Out de 2026 - 16:20
 0  0
Pesquisa mostra altas taxas de pressão alta, estresse e obesidade entre crianças e adolescentes

O acúmulo de problemas que ameaçam o coração, como a pressão alta, excesso de peso e estresse, não é mais “coisa de adulto” no Brasil.

Um novo estudo, feito com mais de 6.092 estudantes dos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais, mostrou que esses fatores de risco já atingem níveis preocupantes entre crianças e adolescentes do país.

Em exames de triagem realizados pelos pesquisadores, 28,3% dos alunos — mais de um em cada quatro— apresentaram valores de pressão arterial compatíveis com hipertensão, enquanto outros 11,6% tinham resultados na faixa comumente encontrada em diagnósticos de pré-hipertensão.

Além disso, um em cada três jovens avaliados (33,1%) apresentou excesso de peso. Do total, 19,5% estavam na faixa de sobrepeso e 13,6% tinham obesidade.

Os dados são do Brasil Coração Saudável, um programa de pesquisa realizado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), com apoio da Sociedade Europeia de Cardiologia. Os resultados são preliminares e foram divulgados nesta sexta-feira, 9, durante o 81º Congresso Brasileiro de Cardiologia.

“Os achados sinalizam que os fatores de risco habitualmente encontrados na população adulta estão em prevalência muito aumentada na população de crianças e adolescentes”, explicou à VEJA SAÚDE o cardiologista Álvaro Avezum, coordenador do estudo e membro do Conselho Administrativo da SBC.

Estudo avaliará 12 mil crianças em todo o país

O Brasil Coração Saudável visa avaliar a saúde cardiovascular de crianças e adolescentes em escolas por meio de exames de triagem.

Continua após a publicidade

“O objetivo é documentar como estão as crianças brasileiras e criar soluções para modificar os padrões [negativos] que encontramos”, explica Avezum.

Por último, o projeto quer elaborar possíveis ações em conjunto com os próprios estudantes, executar as estratégias nas escolas e usar os resultados como modelo para a implementação de políticas nacionais.

A pesquisa tem como meta acompanhar 12,4 mil estudantes e, até o momento, 49% desse total já foi alcançado.

Até agora, as triagens do programa foram realizadas em 38 escolas. Nas próximas fases, a SBC deverá realizar atividades nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil.

Hipertensão desde os sete anos

A triagem identificou pressão arterial compatível com hipertensão em 30,2% das crianças de sete a dez anos. Também foi encontrada uma prevalência de 23,6% nas crianças de 11 a 14 anos e 34% entre adolescentes de 15 a 18 anos.

Continua após a publicidade

Além disso, o estudo apontou que, quanto maior o peso do jovem, mais comum se torna a pressão alta.

Entre os que estão no peso ideal, cerca de 22% têm o problema; com sobrepeso, essa taxa sobe para 30%; e entre os jovens com obesidade, praticamente metade (48,4%) apresenta hipertensão.

+Leia também: Hipertensão em crianças e adolescentes dobrou em duas décadas, revela estudo

Um em cada três jovens está acima do peso

O excesso de peso foi identificado em 33,1% dos participantes, ou aproximadamente um em cada três.

A alta na balança atingiu 34,2% das crianças de sete a 10 anos, 34,1% dos participantes de 11 a 14 anos e 26,7% daqueles de 15 a 18 anos.

Continua após a publicidade

A frequência foi semelhante entre meninos e meninas: 33,5% dos garotas e 32,8% das garotas apresentaram sobrepeso, quando o acúmulo de gordura corporal está acima do padrão esperado para a idade e altura, ou obesidade, doença crônica caracterizada pelo excesso de peso.

+Leia também: A obesidade infantil cresce em níveis alarmantes — entenda por que e como superá-la

Gordura abdominal preocupa entre os mais novos

Outro indicador analisado foi a gordura abdominal das crianças e adolescentes, aquela que se concentra na região da barriga.

Esse tipo de gordura localizada é associada a um maior risco cardiovascular e, portanto, fornece informações relevantes sobre os riscos ao coração além do que já é indicado apenas pelo peso.

Por isso, os pesquisadores avaliaram aspectos como a Relação Cintura-Estatura (RCE) dos jovens, um cálculo que divide a medida de circunferência da cintura pela altura, em centímetros.

Continua após a publicidade

A regra para essa conta é que a circunferência da cintura deve ser menor do que a metade da altura, o que renderia uma RCE abaixo dos 0,5.

No estudo, 20,9% dos meninos e 22% das meninas com menos de sete anos apresentaram níveis de gordura abdominal acima dessa faixa de corte.

Entre sete e dez anos, os percentuais foram de 19,5% e 19,8%, respectivamente. Dos 11 aos 14 anos, ficaram em 17,8% e 14,1%, e dos 15 aos 18 anos, em 10,5% e 15,3%.

Além desse dado, as triagens viram que 14,1% das crianças e adolescentes têm a circunferência abdominal maior que a de 90% das crianças da mesma idade e sexo, segundo tabelas de referência internacionais.

Quanto mais gordura abdominal, maior a pressão

O grupo de cardiologistas encontrou uma associação entre maior quantidade de gordura abdominal e frequência de pressão elevada.

Continua após a publicidade

Entre os participantes que tinham relação cintura-altura dentro dos padrões saudáveis, apenas 24,4% apresentaram pressão na faixa de hipertensão durante a triagem. Já entre aqueles cuja relação era superior a 0,5, o percentual subiu para 40,6%.

Considerando a medida de circunferência da cintura, 46,3% dos jovens com gordura abdominal aumentada apresentaram hipertensão, contra 26,3% do grupo dentro dos padrões esperados.

Vale a ressalva de que isso não prova que a gordura abdominal seja a causa da pressão alta, já que outros aspectos também podem influenciar o dado.

Um em cada 8 relata estresse intenso em casa

Além dos indicadores físicos, o programa avaliou o estresse percebido pelos estudantes em diferentes ambientes.

12,7% – um em cada oito – relataram níveis intensos ou exagerados de estresse dentro da própria casa.

Na escola, o percentual foi de 12,5%. Em outros espaços sociais, o que o estudo chamou de “na sociedade”, a proporção foi menor, de 6,3%.

Apesar dos números, houve, ainda, 20,6% que relatou não vivenciar estresse no ambiente doméstico e 40,6% que disse sentir “pouco“.  Na escola, os percentuais foram de 24,7% para ausência de estresse e 38,2% para pouco.

Hábitos de vida

Entre os estudantes de sete a 18 anos, 59% passam três horas ou mais em telas. Destes, 6,1% chegam a passar mais do que nove horas ao dia em frente a celulares, computadores ou televisões. Ao todo, a média de uso de telas fora das escola é de 3,8 horas por dia.

Além disso, 66% dos jovens fazem atividade física na escola apenas uma a duas horas por semana; 26,3% fazem de três a cinco horas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por outro lado, recomenda que crianças e adolescentes pratiquem exercícios físicos moderados a vigorosos uma hora por dia, o que totaliza, no mínimo, sete horas semanais.

Como interpretar os achados da pesquisa

A chamada “hipertensão na triagem” não equivale a um diagnóstico definitivo. Isso porque a pressão arterial pode sofrer oscilações momentâneas, provocadas, por exemplo, pela ansiedade ou pela agitação.

Para reduzir a influência dessas variações, os pesquisadores fizeram duas aferições – durante uma única visita a cada escola – e consideraram a segunda mais representativa. Desse modo, Avezum estima: “é muito provável que essa segunda medição corresponda à realidade”.

O programa coletou os exames e classificou os valores que se enquadravam nos estágios 1 ou 2 de hipertensão, que indicam diferentes graus de elevação da pressão arterial.

Os achados são, sobretudo, um sinal de alerta, mas, ainda assim, os estudantes com níveis elevados devem ser encaminhados a um pediatra para a confirmação do diagnóstico com novas avaliações e, se necessário, exames complementares.

Além disso, a concepção sobre “excesso de peso” foi definida de acordo com o índice de massa corporal (IMC) esperado para idade e sexo dos participantes, segundo os critérios da OMS.

A partir dessas análises preliminares, Avezum interpreta que os dados reforçam a urgência de medidas preventivas desde a infância. “Esses dados mostram que os fatores de risco estão muito elevados, mesmo nessa população, e que medidas de intervenção para aumentar a atividade física, promover a alimentação saudável e prevenir o tabagismo são mais do que necessárias e urgentes”, conclui.

Adolescência: 6 alertas da série da Netflix para os pais

Publicidade