De estagiário em jornalismo a técnico da seleção: Klopp influencia futebol alemão há mais de 20 anos
Carisma e facilidade de comunicação fazem novo técnico da seleção da Alemanha ser encarado no país como muito mais do que apenas um treinador. Estreia é nesta quinta, contra a Holanda
A história de Jürgen Klopp, técnico da Alemanha, com a comunicação
Jürgen Klopp é um dos principais treinadores de futebol do século XXI, mas não se destaca apenas por questões táticas ou gestão de elenco. Seu carisma e facilidade de comunicação o tornaram um profissional admirado internacionalmente. Nesta sexta, o treinador inicia uma tentativa de transformação na seleção alemã, mas ele já influencia o futebol da tetracampeã mundial há mais de 20 anos.
Quando ainda era jogador do Mainz 05, na década de 1990, Klopp fez um estágio de três meses no departamento de esporte regional da emissora alemã Sat.1, no qual chegou a produzir e editar reportagens. Anos mais tarde, trabalhou como comentarista de TV em Copas do Mundo, analisando a seleção alemã, e caiu nas graças do público.
Com grandes resultados em sua carreira de treinador e aceitação do povo quando fazia análises, a sensação é de que todos no país aguardavam a chegada do técnico "heavy metal" ao comando da Alemanha. Esse dia enfim chegou, e o te mostra como Klopp assume a seleção alemã com status muito maior do que de um simples treinador.
Jürgen Klopp é um fenômeno de comunicação e influencia futebol alemão há mais de 20 anos — Foto: Getty Images
Estágio em jornalismo esportivo
Se Jürgen Klopp se consagrou como um dos melhores técnicos do futebol mundial, o mesmo não pode se dizer de seu período como jogador. Começou a carreira como atacante. Com o decorrer do tempo, foi recuando e passou a atuar como lateral-esquerdo e até zagueiro.
Apesar de não ter tido grande destaque, atuou por dez anos (entre 1990 e 2000) como titular do Mainz, que era uma equipe de segunda divisão - hoje o Mainz é consolidado na Bundesliga, mas disputou a elite alemã pela primeira vez em 2003/04, já sob o comando do técnico Klopp.
No início da década de 90, ele temia que a carreira de jogador não prosperasse. Por isso, estudava paralelamente Ciências do Esporte na Universidade de Frankfurt. Na mesma época, fez um estágio na Sat.1, uma das primeiras emissoras privadas de televisão na Alemanha. Klopp chegou a produzir e editar reportagens, e até fazer entrevistas, fato relatado pelo livro "Klopp, o técnico heavy metal que transformou Borussia Dortmund e Liverpool", de Raphael Honigstein.
Em 1992, conseguiu entrevista com o técnico Dragoslav Stepanovic, que brigava pelo título da Bundesliga. O treinador na época recusava entrevistas para diversos veículos, mas Klopp conseguiu a produção graças à relação que tinha com Stepanovic dos tempos de Rot-Weiss Frankfurt, seu ex-time.
Jürgen Klopp fez estágio em jornalismo na TV Sat.1 no início da década de 90 — Foto: Inteligência Artificial
Influência na seleção alemã em análises
Klopp encerrou a carreira de jogador em 2001, no Mainz, e assumiu imediatamente a equipe como treinador, ainda na segunda divisão da Bundesliga. Em todo o período como jogador e técnico do time, Klopp se destacava com boas tiradas nas entrevistas após as partidas. Assim, tornou-se queridinho da imprensa local.
Em setembro de 2001, Klopp foi convidado, junto do técnico Ralf Rangnick, que comandava o Hannover, também na segunda divisão, para comentar a crise do futebol alemão na DSF, emissora que transmitia a segundona alemã. Eles debateriam com Paul Breitner, lendário jogador da Alemanha, campeão mundial em 1974, que atuava como comentarista na altura.
Os dois treinadores apontavam erros no desenvolvimento de jovens atletas e falhas na tentativa de entender o futebol como jogo coletivo. Breitner, que havia relutado para comentar ao lado de dois técnicos de segunda divisão, discordou de Klopp e Rangnick, dizendo não querer "menosprezar ninguém" e afirmando que jogadores de elite tinham qualidade suficiente para não precisarem aprender detalhes do jogo.
Jürgen Klopp reagiu com simpatia e afirmou que o nível técnico da segunda divisão "não era tão ruim assim". Klopp e Rangnick se tornaram posteriormente dois dos mais influentes nomes do estilo de jogo conhecido como gegenpressing, que trouxe inúmeros frutos ao futebol alemão nas últimas décadas.
Jürgen Klopp trabalhou para a emissora ZDF na cobertura da Copa do Mundo de 2006 — Foto: Getty Images
Quando era treinador do Mainz, Jürgen Klopp voltou a trabalhar na imprensa alemã na ZDF, uma das principais emissoras da Alemanha, na cobertura da Copa das Confederações, em 2005, e da Copa do Mundo de 2006.
Ele foi selecionado para fazer comentários dispondo de uma novidade tecnológica da época. Fazia suas análises em frente a uma plateia utilizando uma tela interativa, que lhe dava a possibilidade de pausar vídeos e fazer desenhos sobre as imagens.
Com o passar do tempo, a desconfiança sob Klopp foi deixada para trás. O ex-editor de esportes da ZDF afirmou que a maior lenda do futebol alemão, Franz Beckenbauer, que também comentava a Copa do Mundo na emissora, fez elogios às análises do então treinador do Mainz: "O modo como ele explica o jogo é ótimo".
— Logo deixou de haver qualquer dúvida se Klopp iria se conectar com o público. Até uma vovó distraída entendia o que ele explicava. Em uma Copa do Mundo, não se tem somente torcedores de futebol como espectadores. Ele era perfeito para explicar as complexidades do jogo a essas pessoas. É um dom que possui, seu grande talento — afirmou Gruschwitz à biografia publicada por Honigsten.
Com enorme facilidade de comunicação e capacidade de explicar o jogo, Klopp se tornou uma celebridade na Alemanha. Falava para uma audiência de mais de 20 milhões de pessoas em jogos da Copa do Mundo, que acontecia em território alemão. A imprensa alemã passou a tratá-lo como uma estrela, e Klopp se tornou reconhecido nas ruas, sendo solicitado para autógrafos.
Klopp se tornou celebridade na Alemanha durante período como comentarista na Copa do Mundo de 2006 — Foto: Getty Images
Ele continuou trabalhando nos jogos da Alemanha após a Copa do Mundo, em amistosos e jogos da seleção alemã em geral, até a Eurocopa de 2008, ano em que assumiu o Borussia Dortmund e passou a se dedicar integralmente ao trabalho como técnico. Ele voltaria à TV como comentarista em 2010, para mais um Mundial de análises, desta vez na emissora RTL, e em 2026, comentou a Copa do Mundo na MagentaTV.
Inovação na seleção da Alemanha
Entre 2008 e 2024, o técnico Jürgen Klopp acumulou dois trabalhos históricos à frente de Borussia Dortmund e Liverpool, respectivamente. Conquistou ao todo 13 títulos, entre eles duas Bundesligas, Copa da Alemanha, Premier League, Champions League e Mundial de Clubes. O absoluto sucesso como treinador aumentou ainda mais a idolatria de Klopp no país e tornou a possibilidade de vê-lo à frente da seleção uma espécie de sonho nacional.
Despediu-se do Liverpool em junho de 2024, alegando exaustão provocada pela rotina dentro do futebol. Entre janeiro de 2025 e julho de 2026, Klopp se dedicou ao cargo de chefe global de futebol da Red Bull, o que representou para o treinador uma nova experiência, desta vez mais ampla, que certamente será útil para seu novo desafio.
De acordo com a imprensa alemã, Klopp terá atribuições maiores do que simplesmente convocar e escalar a seleção. Desde o título da Copa do Mundo de 2014, a Alemanha viveu uma série de fracassos, e ele terá a missão de recuperar uma forma característica de jogar. Jürgen Klopp já faz parte de um comitê de especialistas da Liga Alemã de Futebol (DFL), que discute, entre outros temas, possíveis avanços no desenvolvimento de atletas.
Jürgen Klopp é o novo técnico da Alemanha — Foto: John Macdougall / AFP
Klopp tem agora a chance de transformar o futebol alemão, como já tenta sugerir desde seus comentários na TV em 2001. E ele já começa o trabalho de forma inovadora: convocou 44 jogadores, formando dois elencos na primeira data Fifa. Cada grupo vai participar de duas partidas separadamente.
A Alemanha disputa quatro jogos da Liga das Nações nesta Data Fifa. Enfrentará a Holanda, nesta quinta-feira, a Grécia, no próximo domingo, a Sérvia, no dia 1º de outubro, e novamente a seleção grega, no dia 4.
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