'Eu não sabia que meu namorado me estuprava enquanto eu dormia'
- Author, Caroline Lowbridge
- Role, East Midlands investigations
- Published Há 14 minutos
- Tempo de leitura: 8 min
"Talvez até o dia anterior àquele em que ele admitiu o que tinha feito, eu achava que era o melhor que já tive."
Adelle Overton namorava Steven Uden havia 13 anos, e ele parecia ser o parceiro perfeito.
Os dois se conheceram nas filmagens de um filme de zumbis e tinham muitos interesses em comum.
Segundo Adelle, Uden era gentil e carinhoso e chegou a deixar o trabalho para cuidar dela quando ela adquiriu uma
"Ele era maravilhoso. Eu o amava profundamente e acho que ainda amo um pouco", diz, sentada no sofá de sua casa em Derby.
Adelle confiava em Uden, mas essa confiança foi destruída quando ele admitiu que a enquanto ela dormia.
"Naquele momento, me senti traída. Até então, nunca tinha me sentido tão segura em um relacionamento", afirma.
Uden cuidou de Adelle enquanto ela fazia tratamento para um câncer de mama, mas depois disse à polícia que a havia estuprado enquanto ela estava sob efeito dos medicamentos.
"Foi aquela sensação de traição, de perceber que eu achava que o conhecia, mas não sabia quem ele realmente era. E pensar que ele viveu comigo por 13 anos, que ajudou a criar meus filhos", conta.
"Eu achava que ele era uma pessoa em quem podia confiar, mas não era."
Uden está preso atualmente, e Adelle decidiu falar com a BBC — e abrir mão do direito ao anonimato — sobre o que aconteceu, na esperança de que seu relato ajude outras pessoas.
Adelle e Uden se conheceram em 2009, durante as filmagens de um filme de zumbis em Nottingham. Ela tinha 29 anos e ele, 27.
Uden trabalhava com maquiagem e também atuava, enquanto Adelle fazia parte do elenco. Os dois estavam em relacionamentos com outras pessoas, mas continuaram mantendo contato como amigos.
Eles começaram a namorar em 13 de janeiro de 2012. Adelle se lembra da data porque os dois fizeram uma maratona de filmes da franquia Sexta-Feira 13.
Ela diz que o relacionamento com Uden era diferente dos que havia tido no passado. "Ele era divertido, carinhoso e eu me sentia amada por ele.
Eles haviam se conhecido de uma maneira pouco convencional, e a vida que construíram juntos também fugia do comum. Os dois trabalhavam fantasiados de zumbis para uma empresa que organizava experiências de terror.
Interpretar um zumbi exigia que Adelle fosse fisicamente ativa, mas ela acabou tendo de deixar o trabalho em 2017, depois de ser diagnosticada com síndrome de Ehlers-Danlos.
No início de 2018, Uden passou a ser seu cuidador.
"Ele fazia praticamente tudo por mim", diz,
Olhando para trás, Adelle — que é conhecida pelo apelido Dell — acredita que Uden começou a se tornar controlador.
"Ele gostava de dizer às outras pessoas o que eu era capaz ou não de fazer", conta.
"Alguém sugeria que fizéssemos alguma coisa, e ele logo dizia: 'Acho que a Dell não conseguiria fazer isso. Vamos pensar em outra coisa'."
Mas hoje Adelle sabe que o comportamento de Uden era muito mais perturbador do que ela poderia ter imaginado.
Adelle começou a desconfiar que algo estava errado em 2020, enquanto fazia quimioterapia para tratar um câncer de mama.
"Não sei se o desconforto no meu corpo ficou mais evidente, mas acordei enquanto ele fazia aquilo", diz ela.
"Ele inventou várias desculpas, como: 'Achei que você estivesse acordada e você estava emitindo sons'. Eu pensei em todo o estresse pelo qual estávamos passando, e ele dizia que tinha feito aquilo por acidente."
Por isso, Adelle deixou suas suspeitas de lado.
"Acho que era mais fácil acreditar na mentira do que lidar com o que a verdade poderia significar", diz ela.
Mas Adelle começou a ter dificuldades para dormir.
"Acho que, em algum lugar da minha cabeça, meu cérebro simplesmente não se sentia seguro enquanto eu dormia", afirma.
Ela conta que também passou a ter dificuldades para manter relações íntimas com Uden e começou a ter mais pesadelos relacionados a experiências de abuso sexual que havia vivido no passado.
"Na época, eu achava que estava relacionando aquilo ao meu trauma e que estava julgando ele e o que ele tinha feito de forma muito dura por causa desse trauma", diz.
"Comecei a me sentir culpada e a me repreender internamente por tudo aquilo."
A confissão
Uden só confessou o que havia feito cinco anos depois, em 2025, quando ele fazia tratamento contra um câncer de intestino.
"Acho que alguma coisa devia estar incomodando ele, porque agora estava vendo pelo outro lado o que eu tinha passado", diz Adelle.
"Ele falou bastante sobre não ter cuidado muito bem de mim quando eu estava fazendo tratamento."
Isso trouxe de volta a lembrança de Adelle de cinco anos antes: acordar e descobrir que Uden estava fazendo sexo com ela.
Ela conta: "Eu o pressionei: 'O que você quer dizer com isso? O que quer dizer que não cuidou de mim? De que maneira?'"
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Em algum momento durante a conversa, que, segundo Adelle, se estendeu por dois dias, Uden ligou para um amigo e admitiu o que havia feito. Depois, voltou para casa e confessou tudo para a namorada.
Adelle se sentiu traída e enojada, mas não terminou o relacionamento imediatamente. Sentia que dependia de Uden e também o amava.
Ela já fazia terapia em grupo por causa de abusos sexuais que havia sofrido no passado e contou o que tinha acontecido na sessão seguinte.
"Foi uma das conselheiras, uma das terapeutas, que me fez cair na realidade, porque eu estava destruída, chorando sem parar e dizendo: 'O que eu faço? Como faço para ele parar de fazer isso?'", lembra.
"E ela disse: 'Você manda ele embora e chama a polícia'. Mais tarde, naquele mesmo dia, ela disse que haviam feito uma reunião para discutir medidas de proteção e que chamariam a polícia por causa de tudo aquilo. Foi aí que percebi que a situação já não estava mais nas minhas mãos."
O caso ficou sob responsabilidade da detetive Eleanor Kirton, da Polícia de Derbyshire.
"A primeira coisa que fiz foi entrar em contato com ela", contou à BBC.
"Compreensivelmente, ela estava extremamente abalada com o que havia acontecido."
Depois de ouvir o depoimento de Adelle, a polícia prendeu Uden.
"Quando peguei o depoimento dele, ele confessou imediatamente o que havia feito", diz Kirton.
"Ele admitiu de imediato que a havia estuprado, o que é muito incomum em nossas investigações: normalmente, não chegamos a esse ponto tão rapidamente."
Uden foi acusado de dois crimes de estupro, pelos quais posteriormente se declarou culpado no tribunal, e foi condenado a seis anos e oito meses de prisão.
Kirton diz que as atitudes de Adelle ajudaram a proteger outras mulheres.
"A coragem e a resiliência dela fizeram com que conseguíssemos proteger muitas outras pessoas contra quem essa pessoa poderia ter continuado cometendo esses crimes", acrescenta.
"Se alguém acha que isso pode estar acontecendo no relacionamento, eu realmente a encorajo a falar conosco sobre o assunto, porque há coisas que podemos fazer, e isso prova que é possível."
Mas Adelle ainda não consegue entender por que seu parceiro amoroso de 13 anos a estuprava enquanto ela dormia.
"Não consigo entender como alguém pode sentir prazer com outra pessoa sem reagir, e isso é algo que não faz sentido para mim", diz ela.
"Ele tinha uma preferência, não sei como dizer, por mulheres dormindo. Ele queria que eu estivesse dormindo e que não soubesse o que ele estava fazendo."
Adelle suspeita que Uden a estivesse dopando com seus próprios medicamentos, aos quais ele tinha total acesso.
"Eu tinha aqueles potinhos para os comprimidos, e ele separava todos os meus remédios para mim", diz.
"Hoje tomo uma quantidade bem menor de medicamentos sedativos do que de outros remédios, então suspeito que ele estivesse me dando doses maiores para tentar me manter dormindo."
Exames forenses e toxicológicos não poderiam confirmar se isso de fato havia acontecido. Além disso, não havia provas sobre isso apresentadas no tribunal.
Mas Uden disse à polícia que havia estuprado Adelle em uma ocasião enquanto ela fazia quimioterapia, tratamento que deixa as pessoas mais cansadas.
"Acho que ele mesmo mencionou isso na época, dizendo que ela estava fazendo quimioterapia e admitindo que, naquela ocasião, ela estaria sob o efeito dos medicamentos quando aconteceu", diz Kirton.
Embora Uden tenha sido acusado de estuprar Adelle em duas ocasiões, ela acredita que isso aconteceu mais vezes.
"Ele me disse que tinha feito isso comigo sete ou oito vezes", conta.
A filha dela, Shari Overton, diz que é difícil ver o impacto sobre a mãe dos crimes que Uden cometeu.
"Ela está muito diferente agora. Consigo ver que a confiança dela caiu muito", diz Shari.
"Também tenho muito orgulho dela por ter levado isso adiante, por ter falado com a polícia e com o tribunal e por ter lutado por si mesma."
Adelle espera que sua história ajude outras pessoas vulneráveis a entender que elas não precisam aceitar abusos de quem deveria cuidar delas.
"Sinto que preciso falar sobre isso, porque comecei a pensar em quantas outras pessoas com deficiência estão em situações em que alguém tem controle sobre elas", diz.
"Por meses, depois que descobri tudo, eu pensava que talvez aquilo fosse uma espécie de retribuição pelo cuidado que ele tinha comigo. Talvez eu devesse aquela intimidade a ele. Mas não devia, e ninguém deve."