Flávio usará conferência mundial da direita para consolidar posição de dissidência expatriada

4 de Nov de 2026 - 16:30
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Flávio usará conferência mundial da direita para consolidar posição de dissidência expatriada

Depois da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro tenta preservar o protagonismo político da família e reorganizar a oposição ao governo petista. Ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro, o senador pretende aproveitar a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada nesta semana na Flórida, como vitrine para essa estratégia.

A partir dos Estados Unidos, Flávio busca ampliar a interlocução com lideranças da direita internacional e dar visibilidade às críticas ao governo brasileiro e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Para integrantes da oposição, a saída do senador, que afirmou ter sido alvo de perseguição política, abriu uma nova etapa na reorganização do grupo político e da família Bolsonaro, que tenta se manter em evidência na direita brasileira.

A aposta de Flávio tende a ser a de mostrar a uma audiência internacional que não seria mais possível exercer plenamente a oposição de dentro do Brasil sem sofrer perseguição política. Segundo analistas, isso o colocaria em uma posição mais de dissidente de um regime com características autoritárias do que líder oposicionista em um país com democracia plena.

A CPAC reúne parlamentares, integrantes de governos, ativistas e representantes de movimentos conservadores, muitos deles ligados ao Partido Republicano. Nesse cenário, a participação dos irmãos Bolsonaro no encontro representa uma oportunidade de ampliar alianças com políticos estrangeiros e levar a outros países as críticas que fazem ao governo brasileiro e ao Judiciário.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também se manifestou sobre a situação de Flávio após a chegada do senador ao país. No sábado (31), afirmou que não tinha planos de encontrá-lo, mas disse que ele havia sido tratado “muito injustamente” e que poderia permanecer nos Estados Unidos pelo tempo que quisesse.

Trump também voltou a criticar o processo eleitoral brasileiro, embora, dias antes, tivesse afirmado que não pretendia interferir na eleição do país. Na avaliação de Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia, a ida do senador para os Estados Unidos deve ser entendida como uma escolha estratégica, e não apenas como um movimento circunstancial.

“Ao publicar sua carta como líder no exílio, Flávio quer consolidar-se como o representante político da direita, mantendo a militância mobilizada”, afirma. Para o analista, a atuação no exterior pode permitir que o senador preserve a comunicação com a base bolsonarista e mantenha uma agenda de oposição ao governo.

Eduardo abre caminho para projeção internacional de Flávio

A aproximação da família Bolsonaro com a direita norte-americana passa, em grande medida, pela atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Desde que deixou o Brasil, em 2025, o ex-deputado intensificou contatos com políticos republicanos, representantes de movimentos conservadores e integrantes do governo americano.

A articulação também se estendeu à CPAC, da qual Eduardo é um dos principais interlocutores brasileiros. Em março deste ano, Flávio discursou na edição realizada no Texas, depois de ter sua participação articulada pelo irmão, que também esteve no encontro.

Na ocasião, o então pré-candidato afirmou que não desejava uma “interferência” estrangeira no pleito brasileiro, mas defendeu que atores internacionais acompanhassem de perto o processo eleitoral. Ele também declarou que uma vitória nas urnas representaria, em suas palavras, o nascimento da “mais forte aliança conservadora da história do Hemisfério Ocidental”.

A edição desta semana, em Palm Beach, na Flórida, dá continuidade à aproximação com a direita internacional. Eduardo está confirmado como palestrante no evento marcado para quinta-feira (5), enquanto Flávio é esperado, embora seu nome ainda não apareça na programação oficial.

Entre os participantes anunciados estão os senadores republicanos Rick Scott e Mike Lee, a deputada americana Kat Cammack e a ex-primeira-ministra britânica Liz Truss. Criada nos Estados Unidos, a Conferência de Ação Política Conservadora se tornou um dos principais encontros do movimento conservador internacional. O evento reúne parlamentares, autoridades, ativistas e representantes de organizações políticas para discutir temas como soberania nacional, liberdade, tradição e combate ao comunismo.

Ao comentar a saída de Flávio do Brasil, Eduardo afirmou que o gesto do irmão foi um “ato de patriotismo” e associou a decisão à resistência ao que classificou como avanço do “nazifascismo” no Brasil. “Mais um filho que se afasta por um momento de patriotismo, se afasta para combater algo parecido com o nazifascismo que cada vez mais avança em nosso país. A liberdade não tem preço. Ouso dizer que a liberdade é mais importante que a própria vida”, afirmou o ex-deputado nas redes sociais.

Flávio busca ampliar influência internacional sem perder espaço no país

Aliados de Flávio ouvidos pela reportagem argumentam que a tentativa do senador de ampliar sua atuação política nos Estados Unidos não significa, necessariamente, abandonar a disputa pelo espaço político no Brasil. Para essa ala do PL, a interlocução com lideranças conservadoras estrangeiras pode ampliar o peso que a oposição vai ter em relação ao governo Lula e ao STF.

O jurista Ives Gandra da Silva Martins, por exemplo, defende que Flávio e parlamentares conservadores organizem um grupo para acompanhar a atuação dos ministros do governo, fiscalizar políticas públicas e apontar eventuais problemas na administração federal. Uma das propostas defendidas pelo especialista é a criação de um Gabinete Sombra (Shadow Cabinet), nos moldes do sistema britânico.

“Estou convencido de que devemos adotar imediatamente o modelo britânico do Gabinete Sombra (Shadow Cabinet). Considero fundamental que o senador Flávio Bolsonaro e os conservadores adotem esse modelo para fiscalizar o futuro governo”, afirmou Gandra.

O jurista argumenta que a iniciativa permitiria ao Congresso exercer seu papel de fiscalização e citou como precedente o Governo Paralelo organizado pelo PT após a derrota de Lula para Fernando Collor, em 1989.

Na avaliação de Gandra, a oposição deve concentrar esforços na disputa política e na fiscalização do Executivo, em vez de priorizar questionamentos judiciais. “Considerando que as sucessivas decisões da Suprema Corte têm sido favoráveis ao presidente Lula, fica claro que a controvérsia não deve ser travada na arena jurídica, mas no campo político”, afirmou.