O que está por trás da nova crise entre Trump e a Ucrânia
Na tentativa de conter a alta dos combustíveis antes das eleições de meio de mandato, Donald Trump busca ampliar as exportações de diesel russo, mas pode acabar beneficiando Moscou sem reduzir significativamente os preços nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a pressão para que Kiev suspenda os ataques às refinarias russas e as restrições ao acesso ucraniano a recursos militares americanos podem dificultar a defesa do território da Ucrânia. A situação voltou a desgastar a relação entre Trump e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
No último dia 9, Trump anunciou um acordo com o ditador Vladimir Putin para colocar milhões de toneladas de diesel russo nos mercados americano e internacional. O governo dos EUA também flexibilizou temporariamente sanções contra a comercialização do combustível russo. Trump quer, por meio deste acordo, aumentar a oferta e reduzir os preços do diesel, que subiram em meio à guerra no Irã e se tornaram uma preocupação para a Casa Branca às vésperas das eleições legislativas americanas de 3 de novembro, em que os republicanos, partido de Trump, tentarão manter o controle do Congresso dos EUA.
O problema é que os ataques ucranianos às refinarias russas atingem justamente a produção do combustível que Trump pretende colocar no mercado. Kiev vem utilizando drones de longo alcance para atacar instalações petrolíferas de Moscou, prejudicar o abastecimento russo e reduzir uma das principais fontes de receita utilizadas pelo Kremlin para financiar a guerra. Trump, então, passou a cobrar que Zelensky interrompesse esses bombardeios. O ucraniano, porém, condicionou a suspensão dos ataques a uma medida semelhante por parte da Rússia, que continua atingindo usinas elétricas e outras instalações de energia da Ucrânia.
Dois dias depois do anúncio sobre o acordo do diesel, Trump afirmou em sua rede social que Rússia e Ucrânia haviam concordado com uma trégua energética. Zelensky afirmou que não tinha conhecimento de um acordo fechado nesses termos, mas, mesmo assim, suspendeu temporariamente os ataques às refinarias russas.
O Kremlin, por sua vez, não confirmou a trégua energética anunciada por Trump. O porta-voz Dmitri Peskov afirmou, na segunda-feira (12), que Moscou ainda não tinha uma posição a apresentar sobre o assunto. Enquanto o governo russo evitava confirmar o entendimento, Zelensky denunciava novos ataques russos contra instalações energéticas ucranianas. Questionado sobre as violações, Trump disse que precisaria verificar o ocorrido e afirmou que poderia haver descumprimentos dos dois lados.
Nesta quinta-feira (15), Zelensky anunciou que a Ucrânia voltaria a atacar refinarias russas. Horas depois, drones ucranianos atingiram uma instalação da petrolífera estatal Rosneft na região de Ryazan, a cerca de 300 quilômetros de Moscou. O presidente ucraniano justificou a decisão afirmando que a Rússia continuou bombardeando instalações de energia de seu país, apesar da trégua anunciada pelo republicano.
Em meio ao confronto entre Zelensky e Trump, autoridades e militares ucranianos passaram a relatar problemas em áreas essenciais para a defesa do país. Nos últimos dias, autoridades ucranianas denunciaram restrições no funcionamento do Starshield, versão militar do sistema de comunicação por satélite Starlink, desenvolvido pela SpaceX, de Elon Musk, e utilizado pelas forças ucranianas em operações com drones.
As limitações de velocidade e conexão prejudicaram o uso desses equipamentos em operações contra as forças russas. Parte do serviço foi restabelecida nesta quinta-feira (15), mas militares ucranianos ainda relatavam dificuldades. Autoridades de Kiev também afirmaram que deixaram de receber alguns alertas antecipados dos Estados Unidos sobre ataques russos com mísseis balísticos.
Ainda não há confirmação de que esses problemas tenham sido provocados por ordens de Trump em resposta à postura de Zelensky, mas a agência de notícias Reuters publicou nesta quinta-feira (15) uma reportagem apontando que a ordem para limitar o Starshield na Ucrânia partiu de dentro da Casa Branca. A agência citou como fontes duas autoridades dos EUA e uma autoridade de outro país do Ocidente, que afirmaram que lideranças do Departamento da Guerra da gestão Trump receberam uma orientação para que o Starshield tivesse seu desempenho reduzido na Ucrânia.
Nesta quinta-feira, a emissora CNN também revelou que a Ucrânia ficou sem mísseis interceptadores para seus sistemas antiaéreos Patriot, de fabricação americana. Os equipamentos são utilizados para derrubar mísseis balísticos russos antes que eles atinjam cidades e instalações estratégicas na Ucrânia. Segundo a fonte ouvida pela emissora, a falta de interceptadores impediu a defesa ucraniana de interceptar quase todos os mísseis balísticos lançados pela Rússia durante um bombardeio realizado na madrugada desta quarta-feira (14). O ataque atingiu três usinas de energia em Kiev e instalações na região de Kharkiv. Quatro pessoas morreram e outras 25 ficaram feridas na capital.
O abastecimento dos sistemas Patriot já vinha sendo motivo de preocupação para Zelensky. Os mísseis são caros, produzidos em quantidades limitadas e disputados por outros países. O presidente ucraniano tem tentado obter novos carregamentos da arma e autorização americana para fabricar os interceptadores em solo ucraniano, mas ainda não conseguiu resolver o problema.
Segundo a CNN, autoridades americanas também advertiram representantes da Ucrânia e de países europeus de que Washington poderia suspender o compartilhamento de informações e até a venda de armamentos destinados a Kiev caso os ataques contra refinarias russas continuassem. Trump nega ter interrompido o compartilhamento de inteligência com Kiev. Autoridades ucranianas, porém, afirmam que deixaram de receber alguns dos alertas habituais sobre a aproximação de mísseis russos, informações que ajudam as defesas do país a se preparar para os bombardeios.
Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, nesta quinta, Zelensky afirmou que a Ucrânia poderia reconsiderar a suspensão dos ataques às refinarias russas se recebesse, no mínimo, mais interceptadores Patriot.
Nesta sexta, Trump voltou-se novamente contra o presidente ucraniano. Acusou Zelensky de ter “destruído” a Ucrânia e alegou que Putin é uma pessoa com quem é mais fácil negociar. No mesmo dia, questionado por um repórter se acreditava que estava sendo usado como "bode expiatório" para os problemas internos de Trump, Zelensky apenas ficou em silêncio.
Europa critica aproximação entre Trump e Putin
A postura americana em relação ao Kremlin provocou reações entre os aliados europeus da Ucrânia. Nesta quinta-feira, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, criticou o acordo sobre o diesel russo, classificando a negociação como um “presente a Putin”.
Kallas argumentou que a venda do combustível pode aumentar as receitas de Moscou para financiar a guerra contra a Ucrânia. A União Europeia defende manter a pressão econômica sobre a Rússia e considera que o governo americano deveria exigir concessões do Kremlin, em vez de concentrar suas cobranças sobre Kiev.
Acordo de Trump pode não reduzir preços do diesel, mas favorecer Putin
Uma reportagem do The New York Times, publicada nesta quarta-feira, mostrou que a Rússia está exportando menos diesel do que no ano passado. Segundo dados da S&P Global Energy, empresa americana que acompanha o mercado de energia, as exportações russas caíram de 693 mil barris por dia, entre julho e setembro de 2025, para 140 mil barris diários no mesmo período deste ano.
Trump espera que o diesel russo ajude a compensar a falta de combustível no mercado internacional, provocada principalmente pela guerra contra o Irã, que prejudicou as exportações do Oriente Médio. Segundo o levantamento, a região passou a exportar 809 mil barris de diesel a menos por dia em comparação com o ano passado.
Pelo acordo com Trump, Putin prometeu fornecer ao mercado internacional 300 mil toneladas de diesel somente neste mês, o equivalente a cerca de 75 mil barris por dia. Segundo os dados apresentados pelo The New York Times, essa quantidade representa menos de um décimo do volume que deixou de ser exportado pelo Oriente Médio, o que ajuda a explicar por que especialistas duvidam que o acordo consiga reduzir significativamente os preços.
Além disso, a Rússia enfrenta dificuldades para recuperar as refinarias atingidas pelos ataques ucranianos. Algumas dessas instalações podem levar meses para voltar a funcionar, o que pode dificultar o aumento da produção prometido por Putin.
Sergey Vakulenko, especialista em energia do think tank Carnegie Russia Eurasia Center, também duvida que o acordo consiga reduzir significativamente os preços do diesel nos Estados Unidos e no mercado internacional. Segundo ele, mesmo depois de o regime russo proibir as exportações do combustível para a maioria dos países, em julho, navios continuaram saindo dos portos russos com diesel. Por isso, segundo o analista, parte do volume prometido a Trump por Putin já estaria sendo vendida no exterior. O acordo anunciado na semana passada poderia apenas oficializar essas exportações que já estão acontecendo, sem aumentar de fato a quantidade de diesel disponível no mercado mundial.
“Em última análise, sem um cessar-fogo com a Ucrânia nos ataques à infraestrutura energética de ambos os lados, algo com que o Kremlin dificilmente concordará, o acordo sobre diesel entre Putin e Trump é, em grande parte, apenas para criar uma aparência de resultado, em vez de representar um aumento real do volume de diesel russo no mercado mundial”, escreveu Vakulenko.
Em uma análise publicada nesta quinta-feira, Scott Anderson, especialista em direito internacional do portal Lawfare, explicou que a autorização concedida pelo governo Trump para comercializar o diesel russo no mercado internacional não elimina automaticamente uma proibição aprovada pelo Congresso americano em abril de 2022, após a invasão da Ucrânia. A lei impede a importação pelos EUA de petróleo e derivados da Rússia, incluindo o diesel, para evitar que as compras americanas ajudem a financiar a guerra de Putin.
Para suspender essa proibição, a legislação exige que o presidente cumpra uma série de condições, entre elas a existência de um acordo de paz aceito pela Ucrânia e a comunicação prévia ao Congresso. Como essas condições não foram atendidas, Anderson avalia que a flexibilização das sanções deve facilitar principalmente as vendas de diesel russo para outros países, já que a importação direta pelos Estados Unidos ainda enfrenta obstáculos legais. Segundo ele, isso também coloca em dúvida a capacidade do acordo de reduzir significativamente os preços do combustível no mercado americano.
Para a Rússia, porém, a suspensão temporária das sanções americanas pode trazer outros benefícios. A autorização concedida pelo Departamento do Tesouro vale até abril de 2027 e facilita a comercialização internacional do combustível. Isso pode permitir que empresas russas reduzam alguns custos de transporte e tenham mais facilidade para encontrar compradores.
Filip Rudnik, analista do think tank Centro de Estudos Orientais da Polônia (OSW), avalia que o regime de Putin tenta aproveitar a preocupação de Trump com os preços do diesel para aumentar as divergências entre Washington e Kiev. Em uma análise publicada nesta segunda-feira (12) no site do think tank, ele afirmou que Moscou espera que os Estados Unidos pressionem Zelensky a interromper os ataques às refinarias russas e, com isso, enfraqueçam uma das principais formas de pressão econômica da Ucrânia sobre a Rússia. Segundo Rudnik, o Kremlin também pretende explorar essa crise para tentar reduzir o apoio militar americano aos ucranianos.
Segundo a agência Reuters, os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner disseram a representantes ucranianos, durante uma reunião realizada em Miami no último dia 9, que a flexibilização das sanções contra o diesel russo poderia tornar Putin mais disposto a negociar o fim da guerra.
Até agora, porém, Moscou não apresentou uma contrapartida equivalente à exigência americana de suspensão dos ataques ucranianos às refinarias.
“Suspender os ataques ucranianos sem concessões significativas da Rússia privaria Kiev de um dos meios mais eficazes de pressionar economicamente Moscou”, escreveu Rudnik.