Ordem religiosa devolve manuscritos históricos após meio século de guarda no Iraque
A Ordem Antoniana Caldeia de São Hormizd formalizou a entrega de uma coleção de 93 manuscritos históricos à Diocese de Akra, no norte do Iraque. A cerimônia, realizada no Mosteiro de Gabriel Danbo em Ankawa, encerrou um período de proteção iniciado na década de 1960. O acervo foi preservado pelos monges durante décadas de conflitos e deslocamentos populacionais que atingiram a região iraquiana.
Como esses documentos históricos foram parar nas mãos dos monges?
Na década de 1960, o norte do Iraque enfrentava um período de grande instabilidade e deslocamentos de cristãos devido a conflitos regionais. Para evitar que o patrimônio da Igreja fosse destruído ou roubado, Abdul-Ahad Rabban, que na época era superior da ordem e depois se tornou bispo, decidiu esconder e proteger os manuscritos. Eles ficaram sob a guarda dos monges antonianos caldeios com o compromisso de que seriam devolvidos assim que a segurança na região de Akra permitisse o retorno do acervo ao seu local de origem.
Qual foi a jornada percorrida pelos manuscritos durante esses 50 anos?
A coleção não ficou parada em um só lugar, pois as ameaças constantes obrigaram os monges a transferirem o material diversas vezes. Os documentos saíram do Mosteiro de Nossa Senhora das Sementes, em Alqosh, passaram pelo Mosteiro de São Jorge, em Mosul, e foram levados até Bagdá. Em 2021, o acervo chegou à sede da ordem em Ankawa, onde funciona o Scriptorium Syriacum, um centro especializado na preservação de textos em siríaco, uma língua milenar usada em ritos cristãos orientais.
Como funcionou o processo de recuperação e restauração dos textos?
Ao longo de décadas de mudanças, os manuscritos de Akra acabaram misturados a outras coleções da ordem. Para separá-los, os monges usaram catálogos antigos feitos por estudiosos e pesquisadores dominicanos. O trabalho foi minucioso: os religiosos limparam as páginas, reuniram folhas que estavam espalhadas, fotografaram cada detalhe e numeraram os volumes. Como existiam muitas cópias manuais dos mesmos textos, a equipe precisou de paciência para garantir que cada livro fosse remontado corretamente.
O que aconteceu com as peças que ainda não foram entregues?
A coleção original da Diocese de Akra contava com 97 manuscritos no total. No evento oficial, 93 foram devolvidos ao Arcebispo Najeeb Michaeel. Dos quatro restantes, três já foram localizados, mas em formato digital. Eles fazem parte de um esforço de modernização do Patriarcado Caldeu e estão acessíveis em uma biblioteca digital internacional em Minnesota, nos Estados Unidos. Apenas um único manuscrito da coleção original ainda permanece desaparecido, sendo o único item que os monges não conseguiram rastrear até o momento.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.