Poderoso do Centrão, Arthur Lira já se movimenta para ter protagonismo no Senado
Eleito por Alagoas com 948.703 votos, (PP) ganhou mais do que oito anos de mandato como senador. Ex-comandante do Centrão na Câmara dos Deputados, ele também conquistou a chance de reconfigurar o seu poder nacional, agora noutra arena. Ainda influente, ele já se movimenta no Senado.
Em 14 de outubro, Lira esteve no gabinete do senador Rogério Marinho (PL), coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, com a senadora Tereza Cristina (PP). Ele deu conselhos à direita na corrida pelo Palácio do Planalto e apoiou Tereza para presidir o Senado em 2027.
Lira tinha aderido em público a Flávio na semana anterior, tendo evitado declarar voto no primeiro turno. “O Brasil precisa de um novo caminho”, escreveu. Sua escolha seguiu-se à da Federação União Progressista (PP e União) naquele momento. Com a derrota da candidatura de direita, o Centrão inclinou-se rápido para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente reeleito.
Sobre a chance de presidir a Casa da Federação, Lira disse logo após a sua eleição não pensar nisso. Contudo, ele parece estar construindo um projeto futuro de poder. Aliados do agro discutem Tereza Cristina no primeiro biênio e o alagoano depois, em um arranjo ainda dependente de negociações.
Lira atua intensamente na negociação para definir a Presidência do Senado
, Rogério Marinho trabalha pela unidade desse campo e da centro-direita no Senado em torno de seu nome, para se contrapor às investidas de Davi Alcolumbre (União-AP) para seguir na Presidência do Senado, em articulação com Lula.
Alcolumbre tem apoio do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Se Flávio tivesse sido eleito, a ida de Marinho para a Casa Civil facilitaria uma composição com Tereza Cristina. Ela ainda mantém a pretensão de ser a primeira mulher a presidir a Casa.
A bancada fortalecida do PL, majoritária com 29 senadores, terá ambições próprias. O poder de Lira dependerá de entregar votos e alianças, não de invocar o prestígio acumulado na Câmara. O teste decisivo para ele será a pressão por impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Tereza Cristina admite discutir pedidos para cassar juízes, demanda popular que viabilizou o avanço histórico da direita no Senado. Mas isso não evidencia o voto favorável de Lira. Entre a cobrança conservadora e a sua vocação negociadora, ele terá de mostrar para que pretende usar o seu novo poder.
Lira destrona o rival Renan Calheiros e confirma capacidade de adaptação
Enquanto Ciro Nogueira (PP-PI), José Dirceu (PT-SP) e Ciro Gomes (PSDB-SC) sucumbiram às urnas de 2026, Lira mostrou capacidade de adaptação. Sua sobrevivência mostra que não foi total: bases municipais, alianças e acesso a recursos superam a polarização.
A derrota de Renan Calheiros (MDB), seu adversário histórico e outrora todo poderoso no Senado, deu sabor especial à vitória eleitoral de Lira. Em nova Casa parlamentar, ele terá, além do agro, a conexão com o Nordeste, região com um terço dos senadores e que se articula com Norte e Centro-Oeste.
Lira também escapa ao esvaziamento que atingiu ex-presidentes da Câmara, como Ibsen Pinheiro e Rodrigo Maia. Não desfaz um tabu absoluto: além de Michel Temer, que chegou à Presidência, Aécio Neves se elegeu governador. Seu desafio é converter a cadeira em influência, não apenas em abrigo.
Na Câmara, Lira construiu autoridade ímpar combinando controle da pauta, influência em comissões e ampliação de emendas parlamentares. Enquanto Ulysses Guimarães (MDB) simbolizava a nova ordem democrática, Lira deu o tom de arranjos para liberar recursos e disciplinar maiorias heterogêneas.
Poder absoluto de Lira na Câmara terá de se ajustar ao formato do Senado
A eleição de Hugo Motta (Republicanos-PB), o seu escolhido, com 444 votos em 2025, materializou sua influência para além do mandato. O apoio de partidos da esquerda à direita mostrou força da articulação. Não assegurou, porém, controle sobre o sucessor, que passou a gerir interesses próprios.
No Senado, o seu método de conquista encontrará limites diferentes. São 81 integrantes, eleitos pelo voto majoritário e com bases estaduais próprias. Há líderes e assimetrias, mas a lógica do baixo clero perde força. Lira terá de negociar entre pares com autonomia, sem evocar a sua própria hierarquia.
Entusiasta do semipresidencialismo, Lira criou, em 2022, um grupo para debater o modelo, que dividiria o Executivo entre presidente e primeiro-ministro. Sob o argumento de reduzir crises, a proposta consolidaria o poder do Legislativo, dando ao Congresso participação no comando do governo.
Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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