Rodrigo Koxa e Michelle des Bouillons vencem Oscar das ondas gigantes e miram recordes
(FOLHAPRESS) - As maiores ondas da temporada foram surfadas por brasileiros. Rodrigo Koxa e Michelle des Bouillons venceram as categorias masculina e feminina da 26ª edição do Big Wave Challenge, conhecido como o "Oscar" da modalidade. A premiação ocorreu no sábado (19), em Newport Beach, na Califórnia.
As duas ondas vencedoras foram surfadas na Praia do Norte, em Nazaré, Portugal, em dezembro de 2025. Agora, os brasileiros buscam o reconhecimento de possíveis recordes mundiais e cobram transparência sobre as medições.
As medidas preliminares divulgadas são de 29,15 metros para Koxa e de 24,99 metros para Michelle. Se confirmadas e homologadas, superariam os recordes reconhecidos pelo Guinness World Records: 26,21 metros do alemão Sebastian Steudtner, em 2020, e 22,4 metros da brasileira Maya Gabeira, no mesmo ano.
Koxa pede que a organização apresente imagens em alta resolução e explique as referências usadas para determinar a dimensão das ondas.
Nascido em Jundiaí e radicado em Guarujá, em São Paulo, o surfista venceu o prêmio em 2018, quando entrou para o Guinness com uma onda de 24,38 metros, surfada no ano anterior. Na época, uma medição extraoficial apontava mais de 30 metros.
"Acho que o evento é incrível, é demais, mas precisa de mais clareza", diz. "O que precisa para a evolução do esporte é que compartilhem a medição."
Michelle também afirma que está em contato com o Guinness para esclarecer o processo e admite recorrer à via judicial, se considerar necessário. "Estou na busca do recorde. Estou entrando de uma forma mais séria, coloquei meus advogados para trabalhar em cima disso."
A surfista critica a organização pela ausência de informações sobre as alturas durante a premiação. Segundo ela, as medições não foram apresentadas, e o assunto não foi discutido com ela. "Achei que houve uma falta de profissionalismo."
Os critérios de medição geram debates no surfe. Uma das técnicas tradicionais utiliza fotografias e vídeos e toma o corpo do próprio atleta como referência de escala, considerando sua postura na imagem para calcular a altura entre a base e a crista da onda.
A discussão envolve ainda o trecho efetivamente surfado e o controle do atleta durante a descida. O regulamento de recordes da WSL (World Surf League) de 2024, por exemplo, exigia que o surfista completasse a parte principal da onda sob controle. Nas entradas com reboque, também considerava sua posição em relação à maior seção da onda.
Em setembro de 2025, a entidade anunciou a transferência da verificação dos recordes para o Guinness, com a colaboração do Big Wave Challenge Group, do norte-americano Bill Sharp, um veterano jornalista reconhecido como uma das figuras mais influentes na promoção do surfe em ondas grandes.
Para Koxa, o segundo troféu confirma uma escolha de vida. Oito anos depois da primeira vitória, o paulista voltou a vencer a categoria, desta vez pela onda surfada em 19 de dezembro de 2025. Os outros finalistas eram o brasileiro Lucas Chumbo e o francês Clément Roseyro.
"Essa conquista foi surreal. Oito anos depois da minha primeira vitória, que era o sonho da minha vida. Eu não imaginava que fosse viver isso mais uma vez, aos 47 anos. É um projeto de vida que deu certo. São poucos esportes que a gente vê hoje em dia em que a experiência consegue incomodar a potência da nova geração", comenta o paulista, que surfa com o time GoBigger.
Koxa chegou a treinar em clubes de futebol na infância e compartilhou com o pai o sonho de jogar no Corinthians. Quando decidiu buscar ondas gigantes, ouviu de patrocinadores que deveria se concentrar nas competições. Preferiu seguir outro caminho: ficou sem patrocínio e foi morar no exterior, como no Havaí, para ganhar experiência na modalidade.
"Hoje eu olho para trás e vejo como foi importante ter tido uma escolha, uma estratégia. Acho que eu quebrei o protocolo. A conquista é muito legal, mas o processo é o mais valioso", diz.
Na avaliação de Koxa, a onda premiada neste ano (veja abaixo) foi mais perigosa do que a que lhe rendeu o recorde reconhecido em 2018. Ele descreve uma descida em uma região mais rasa, com uma onda mais pesada e maior velocidade da prancha.
"Se eu tivesse que escolher, essa foi a onda que mais senti medo de surfar", ressalta.
Koxa retornou ao Guarujá, no litoral paulista, na terça-feira (22), dia em que completou 47 anos. Foi recebido por amigos e autoridades, em uma comemoração que incluiu um desfile em carro aberto do Corpo de Bombeiros pelas principais avenidas do município.
"Isso não tem preço, vou levar para a minha vida."
Michelle, 36, também chegou ao segundo título da categoria. Campeã em 2024 e finalista em 2025, a brasileira venceu nesta edição pela onda surfada em 13 de dezembro de 2025 (veja abaixo). Ela concorreu com a francesa Justine Dupont e a brasileira Michaela Fregonese.
A surfista atribui o resultado a cerca de dez anos de dedicação às ondas gigantes ao lado do marido, Ian Cosenza. Foi ele quem pilotou o jet ski que a rebocou para a onda premiada, na técnica conhecida como tow-in. O reboque permite ao atleta ganhar velocidade para entrar na onda.
"Para pegar uma onda dessa tem que ser trabalho em equipe. É impossível fazer isso sozinho", afirma.
Segundo Michelle, a estrutura de apoio varia conforme o tamanho do mar e inclui pilotos de resgate em jet skis e um observador no alto da falésia, chamado de spotter. Esse profissional acompanha o movimento das ondas e transmite informações à equipe na água.
"A gente precisa de um olhar de fora para nos orientar. Faz parte da nossa segurança", diz.
Embora busque o recorde, ela ressalta que a pendência não reduz o valor do prêmio. "Um feito não diminui o outro. Conseguimos vencer a categoria de maior onda, é um reconhecimento enorme e estou superfeliz com essa conquista."
As ondas que atraem os surfistas à região estão associadas ao chamado "Canhão de Nazaré", uma ravina submarina com cerca de 230 quilômetros de extensão e profundidades que ultrapassam 5.000 metros.
O relevo do fundo do mar altera a propagação das ondulações do Atlântico. Elas avançam mais depressa sobre as águas profundas do canhão do que nas áreas rasas ao redor. Essa diferença modifica sua direção e concentra energia perto da Praia do Norte, ampliando a força e a altura das ondas. Correntes costeiras também podem reforçar o fenômeno, que acontece geralmente entre outubro e março de cada ano.
Nazaré ganhou projeção internacional em 2011, quando o americano Garrett McNamara surfou uma onda posteriormente homologada em 23,77 metros, então um recorde mundial.
Desde então, o surfe de ondas gigantes se tornou um dos principais atrativos turísticos de Nazaré. A experiência também inspira iniciativas no Brasil. Em 2024, o município português estabeleceu uma parceria com Jaguaruna, em Santa Catarina, voltada ao turismo esportivo e às competições de surfe.
A temporada de ondas gigantes em Nazaré geralmente acontece entre outubro e março de cada ano. E os big riders, como Michelle e Koxa, certamente estarão prontos para tentar bater os próprios recordes.
Palmeiras e Fluminense podem tornar ainda mais difícil a classificação de outros brasileiros para o Super Mundial de Clubes de 2029. Se um dos dois vencer a Libertadores, o Brasil já terá atingido o limite de duas vagas por país fora das conquistas continentais.