Seleção começa a longa missão de apagar o fiasco
Jornalista, um dos fundadores do Impedimento.org, dedicado ao futebol sul-americano
Contra a Austrália, Ancelotti inicia a reconstrução sem abrir mão da base que disputou a Copa
Seleção Brasileira para 2030: Ancelotti mistura veteranos e jovens contra a Austrália
Os primeiros movimentos da Seleção após o fracasso na Copa do Mundo trazem uma sensação de ressaca. Uma tentativa ainda tímida de recomeçar a festa que não chegou a acontecer. A renovação proposta por Carlo Ancelotti é bem-vinda. O que levará tempo para descobrir é se dela pode nascer um time de verdade.
A eliminação diante da Noruega parece ter sido ontem, então a nova convocação nos pegou ainda perplexos pelo que vimos na Copa: uma Seleção Brasileira que decidiu entregar a bola para um adversário que nada tinha de extraordinário. Depois disso, o desejo maior é ver em campo um time, na melhor acepção da palavra. E isso leva tempo. Vamos ter que dar um jeito de domesticar essa agonia.
OS BRASILEIROS LIGAM PARA A SELEÇÃO?
Dos jogadores convocados, oito são estreantes e nove estiveram na Copa do Mundo. A proporção entre caras novas e remanescentes mostra que o técnico italiano não sucumbiu à tentação de fazer terra arrasada. Nem deveria. Outros momentos já mostraram que uma Copa do Mundo não pode definir uma geração inteira.
Mesmo os mais experientes, que provavelmente não estarão na próxima Copa, hoje são importantes para sustentar essa transição e respaldar quem está chegando. Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Raphinha e Vini Jr compõem uma base sólida para um começo de trabalho, e nomes como Breno Bidon e Gabriel Bontempo trazem algum desafogo. Não são indiscutíveis, mas é preciso arejar a Seleção.
Carlo Ancelotti, em treino da seleção brasileira na Austrália — Foto: Patrick Hamilton/AFP
Nos primeiros treinamentos, há pontos que chamam a atenção. Por exemplo, Ancelotti confirmou um quarteto ofensivo com Vini Jr, Estêvão, Endrick e Raphinha, que vive excelente fase no Barcelona. No entanto, laterais e meio-campistas continuam sendo o principal gargalo da Seleção.
Ancelotti comanda um projeto que tem prazo de quatro anos e uma missão: apagar o fiasco da Copa e do ciclo que culminou nela. De preferência, colocando fim a um incômodo muito mais antigo, pois a Seleção chegará a 2030 tentando interromper um jejum de 28 anos. E carregando também outros vexames adjacentes, como a convocação circense antes do Mundial e o constrangimento de levar um jogador sem condições físicas como Neymar.
Antes de pensar em 2030, será preciso cumprir objetivos mais modestos: estruturar uma equipe convincente e voltar a competir de igual para igual com adversários de grande porte. Que não seja humilhada pela Argentina e não pareça um time amador contra a França, por exemplo.
A jornada começa nesta sexta-feira, contra a Austrália, adversário que se repete na semana que vem. Depois, teremos a Índia. Os primeiros adversários dificilmente vão despertar alguma comoção. Mas é o recomeço necessário – os primeiros passos, ainda sonolentos, rumo à miragem que hoje é a próxima Copa.
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