4 dados que mostram o peso dos votos latinos na 'onda azul' das eleições nos EUA

5 de Nov de 2026 - 17:40
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4 dados que mostram o peso dos votos latinos na 'onda azul' das eleições nos EUA
    • Author, Leire Ventas
    • Role, Correspondente em Los Angeles (EUA), BBC News Mundo
  • Published Há 11 minutos
  • Tempo de leitura: 13 min

Apenas dois anos atrás, os pareciam confirmar o que já havia dito no passado o ex-presidente americano Ronald Reagan (1911-2004): "Os latinos são republicanos, mas ainda não sabem disso."

Nas eleições de 2024, o atual presidente americano, , conquistou um resultado histórico entre os eleitores hispânicos, atingindo cerca de 48% dos votos.

Os analistas afirmam que esta façanha se deveu à promessa de fechar as fronteiras contra a imigração irregular, melhoras na economia e a uma retórica de valores conservadores comuns.

Em muitos condados de maioria hispânica espalhados pelo território americano, o triunfo de Trump foi a cristalização de uma tendência originada na pandemia.

Mas a "onda azul" que levou o das duas câmaras do Congresso e garantir vitórias fundamentais nas (3/11) trouxe um panorama muito diferente do eleitorado latino.

A apuração segue em andamento, mas as pesquisas de boca de urna realizadas pelo consórcio integrado pela agência de notícias AP e outros órgãos da grande imprensa indicam que o apoio latino aos democratas aumentou em 11 pontos percentuais em relação a 2024, eliminando os avanços verificados na reeleição de Donald Trump.

"Desalinhamento a todo vapor", escreveu no X, à medida que saíam os resultados de cada um dos Estados americanos, o estrategista político Mike Madrid, um dos fundadores do Projeto Lincoln e uma das vozes mais conceituadas para comentar o muito citado, mas frequentemente mal compreendido conceito de "voto latino".

Ele defende há tempos o que chama de "desalinhamento partidário" para explicar o comportamento pendular do eleitorado hispânico nos últimos anos.

Os analistas concordam que, nesta eleição, os latinos são parte dos motivos que geraram o que foi definido como "tsunami azul", "terremoto eleitoral" ou "", segundo alguns republicanos indignados, que culpam o presidente Trump pela derrota do seu partido.

Aqui estão alguns dos dados mais visíveis do poder eleitoral do grupo populacional que mais cresceu nos Estados Unidos nos últimos 20 anos.

  • 4 novembro 2026
  • 4 novembro 2026

1. O 'terremoto' Hinojosa-Talarico no Texas

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O epicentro do terremoto foi registrado no Texas, um dos bastiões republicanos por excelência.

Nenhum democrata havia conseguido se eleger para um cargo no Estado em mais de 30 anos. Mas, nas eleições deste ano, o tabu foi quebrado em dose dupla.

, foi eleita governadora do Estado. É a primeira latina a ocupar o cargo.

Paralelamente, o legislador estadual de 37 anos .

Hinojosa conquistou sua surpreendente vitória derrotando o republicano Greg Abbott, eleito governador três vezes e fiel aliado de Donald Trump.

Ela obteve margens mais amplas em Austin, Houston e Dallas, centros urbanos tradicionalmente mais progressistas do Texas, um Estado majoritariamente conservador.

Mas ela também venceu com vários pontos percentuais de vantagem em San Antonio e nos condados localizados na fronteira com o México, onde o percentual da população que se identifica como latina é de mais de 80%.

Esta região do sul do Texas, em 2024, votou majoritariamente em Donald Trump. E é exatamente ali que Hinojosa tem suas raízes, como destacou no seu discurso da vitória.

"Sou filha do Vale do Rio Grande, onde as pessoas encarnam a ética e os valores deste grande Estado", declarou ela.

Sua vitória realiza o sonho dos democratas, longamente postergado, de que as alterações demográficas no Estado fossem seguidas pela mudança do poder político.

Atualmente, os latinos representam 40% da população do Texas.

"O triunfo de Hinojosa é um testemunho da nova realidade demográfica deste Estado", declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o cientista político Álvaro J. Corral, professor da Unidade do Texas no Vale do Rio Grande.

Paralelamente, o detalhamento dos dados da agência AP indica que Talarico conseguiu construir uma coalizão de eleitores diversificada. Ele conquistou a maioria dos jovens e hispânicos, levando à derrota o candidato republicano Ken Paxton, ex-procurador marcado por escândalos.

Em entrevista ao canal de TV Notícias Telemundo, já como senador eleito, Talarico reconheceu que deve sua vitória à comunidade latina.

"Eu não iria para o Senado, não fosse pelos latinos do nosso Estado", declarou ele.

Questionado pela BBC, o professor de ciências políticas da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, Quardricos Driskell descreveu este duplo triunfo democrata no Texas como "absolutamente histórico".

Apenas dois anos atrás, Trump havia conquistado 55% dos votos latinos no Texas, um recorde para um candidato presidencial republicano. O índice representa um aumento de 27 pontos percentuais em relação a 2016, segundo dados do Projeto Política do Texas.

O resultado desta terça-feira "não foi apenas um tsunami, nem um simples referendo [dos dois primeiros anos do segundo mandato de Trump], mas um massacre", declarou Driskell. "Uma clara demonstração de que o país quer tomar um rumo diferente."

2. O 'realinhamento' democrata nos condados da fronteira com o México de maioria latina

Outra das estrelas em ascensão do Partido Democrata no Texas é Bobby Pulido, ídolo da música texana que entrou para a política.

Ele se apresenta como alguém "à moda antiga". Com uma campanha centralizada na economia, Pulido percorreu áreas rurais que não viam um candidato democrata há anos. Ele se reuniu com os moradores e cantou em festas de debutantes.

Graças a estas ações e às suas propostas, ele conseguiu recuperar para o Partido Democrata a vaga na Câmara de Representantes correspondente ao distrito eleitoral n° 15, que engloba condados rurais a leste de San Antonio até a fronteira com o México.

Pulido venceu a deputada republicana Mónica Cruz, que ficou com a vaga em 2022 e não conseguiu renová-la por mais um mandato.

O resultado reverteu a mudança de rumo que foi verificada entre o eleitorado local, mais de 80% latino, em favor do Partido Republicano. Esta mudança havia se iniciado na pandemia e se consolidado com o apoio majoritário da região a Donald Trump, nas eleições para a presidência americana de 2024.

Os eleitores deste território no sul dos Estados Unidos já vinham manifestando seu descontentamento com a alta do custo de vida e as agressivas políticas de migração do governo federal americano.

"Sua vitória é um exemplo de como o uso de celebridades faz sucesso entre os eleitores latinos", segundo Corral. "Mas, sobretudo, ela nos ensina que as referências à cultura hispânica e seus costumes continuam sendo um forte mobilizador para o eleitor latino."

"Em um momento em que se fala tanto sobre a integração social e o peso político do eleitor latino, este é um exemplo claro de que formar conexões em termos culturais e em espanhol traz benefícios eleitorais", explica o professor.

Da mesma forma, os democratas Henry Cuéllar e Vicente González receberam 65,8% e 55,6% dos votos, respectivamente, nos distritos 28 e 34 — os outros dois distritos eleitorais do Vale do Rio Grande, na fronteira com o México.

Os analistas concordam que este resultado coloca em evidência o fracasso da estratégia republicana de , para aproveitar o que consideravam uma preferência eleitoral já consolidada entre os eleitores hispânicos.

"Este é um revés catastrófico para a tentativa de Donald Trump de alterar o mapa eleitoral manipulando os distritos para garantir o controle da Câmara dos Representantes", afirmou na quarta-feira (4/11) o presidente do Comitê Nacional Democrata de Redefinição dos Distritos, John Bisognano.

O comitê é uma organização democrata dedicada a promover e supervisionar os processos de redefinição de distritos eleitorais nos Estados Unidos.

Por outro lado, o diretor-executivo do Fundo Nacional Republicano de Redistribuição dos Distritos (a organização republicana encarregada de promover e defender os novos mapas eleitorais), Adam Kincaid, reconheceu ter falhado na sua tarefa.

"Tentar ganhar cinco cadeiras no Texas, sem colocar em sério risco nenhuma outra, era uma tarefa hercúlea", declarou Kincaid na quarta-feira (4/11) à agência AP.

"Era necessário que as tendências que havíamos observado nos últimos anos se mantivessem, o que não aconteceu."

3. O colapso da vantagem republicana em Miami (embora a Flórida continue sendo um reduto importante)

Em 2024, todas as grandes metrópoles do país se inclinaram para o Partido Democrata, com uma exceção: o condado de Miami-Dade, que integra a principal cidade da Flórida e cuja população é mais de 74% latina, majoritariamente de origem cubana.

Trump venceu no distrito eleitoral por 11 pontos de vantagem, com 55% dos votos contra 44% da candidata democrata Kamala Harris, consolidando a hegemonia republicana no Estado.

Sua arrasadora vitória foi uma grande surpresa. Nas duas eleições presidenciais anteriores, de 2016 e 2020, o condado havia optado majoritariamente pelos candidatos democratas, respectivamente Hillary Clinton e Joe Biden.

Os republicanos haviam vencido pela última vez naquela cidade do sul da Flórida 32 anos antes, com George H.W. Bush (1924-2018).

Naquele mesmo distrito, em 2024, a republicana María Elvira Salazar foi reeleita para a Câmara de Representantes com 60,38% dos votos, derrotando sua adversária democrata com uma vantagem de 20,76 pontos percentuais.

Mas, nas eleições legislativas desta terça-feira, a apuração deste distrito (n° 27) foi uma das mais observadas do país. E ainda estava indefinida 48 horas depois do fechamento das urnas.

Salazar se proclamou vencedora na mesma noite da eleição, mas é possível que a disputa apertada leve à recontagem automática dos votos. Menos de um ponto percentual separa a republicana do seu oponente democrata, Eliott Rodríguez.

A supervisora eleitoral de Miami-Dade, Alina Garcia, destacou em entrevista coletiva nesta quarta-feira (4/11) que a diferença era de apenas 0,46%, dentro da margem que, na Flórida, geraria a recontagem automática dos votos com máquinas.

Neste caso, a recontagem não começaria antes do sábado, 7 de novembro.

De qualquer forma, as vantagens obtidas pela própria Salazar e por Trump apenas dois anos atrás ficaram no passado.

Salazar é ex-jornalista e apresentadora de televisão. Nascida em Miami e filha de exilados cubanos, ela defendeu o fechamento da fronteira e, ao mesmo tempo, se mostrou favorável a uma reforma do sistema migratório do país, concedendo status legal a imigrantes sem documentos que moram há anos nos Estados Unidos.

A deputada também questionou Trump pelos seus esforços de aplicação das leis de migração, afirmando que haviam "ido longe demais".

Em mensagem de vídeo dirigida ao presidente, Salazar destacou que os eleitores hispânicos que contribuíram para o seu retorno à Casa Branca em 2024 "se sentem traídos".

Ela manteve sua posição no discurso da terça-feira à noite, afirmando que os eleitores haviam falado "com muita força", tanto no seu distrito quanto no restante do país.

"Eles estão dizendo claramente ao meu partido, o Partido Republicano que está no poder, que é preciso mudar de curso em relação à economia e à imigração", declarou ela.

Paralelamente, a Flórida mostrou que continua sendo um reduto republicano, com , forte aliado de Trump eleito para suceder o atual governador Ron DeSantis.

"O voto hispânico deu uma reviravolta notável em direção aos democratas nas eleições de meio de mandato e contribuiu, em grande parte, para que os republicanos perdessem o controle das duas câmaras do Congresso", declarou à BBC News Mundo Carlos Chirinos, editor de política e eleições da organização apartidária e sem fins lucrativos Factchequeando, dedicada a aumentar o acesso a conteúdo relevante e verificado.

"Na Flórida, esta reviravolta foi ainda mais pronunciada que no Texas, onde ajudou os democratas a conquistar diversas instâncias do poder estadual que eles não ganhavam há décadas", destaca Chirinos. "Mas não foi suficiente para possibilitar vitórias democratas."

"Ainda assim, o resultado complicou a tarefa dos republicanos, incluindo em distritos que tradicionalmente são seguros para eles, como o sul do Estado, reduto da comunidade de origem cubana."

4. Os latinos, o eleitorado que mais se afastou dos republicanos

Os latinos constituem o grupo populacional que mais cresceu nos últimos 20 anos, segundo estudos do Centro de Pesquisas Pew. Eles representavam 9% dos eleitores em 2006 e, hoje, são 16%.

Este crescimento consistente transformou os latinos no segundo maior grupo de eleitores dos Estados Unidos, atrás apenas do eleitorado branco (61%). Quase 39 milhões de latinos tiveram direito a voto neste dia 3 de novembro.

Segundo as pesquisas de boca de urna e as análises de grupos civis e de diversos órgãos de imprensa, os latinos foram o grupo demográfico que protagonizou a maior troca de partido nas eleições de meio de mandato deste ano.

O apoio do eleitorado latino aos democratas na Câmara dos Representantes aumentou em 28% em relação às eleições de 2024. Este percentual é maior do que em qualquer outro grupo étnico, segundo dados analisados e publicados pelo jornal americano The New York Times.

67% dos eleitores votaram nos democratas para a Câmara dos Representantes, contra 30% que apoiaram os republicanos.

A maioria dos hispânicos também teriam apoiado os candidatos democratas para o Senado (63%) e para os governos estaduais (66%), segundo pesquisa realizada pela UnidosUS, uma das principais organizações de defesa dos latinos do país, em distritos com disputas acirradas.

"As eleições foram um marco para a comunidade latina", segundo a presidente e diretora-executiva da UnidosUS, Janet Murguía.

"Impulsionados pela indignação frente à situação econômica e por uma fracassada campanha de deportação em massa, os eleitores latinos registraram a maior participação já observada em eleições de meio de mandato e consolidaram sua posição como setor eleitoral decisivo", segundo ela.

À medida que prossegue a apuração, os analistas examinam o detalhamento dos resultados por Estados, distritos e condados, suas origens étnicas, idades e gêneros, comparando os dados com as eleições anteriores.

Com isso, eles tentam compreender cada vez mais o comportamento dos eleitores hispânicos e seu impacto específico em cada disputa. Esta é uma radiografia complexa.

"O voto latino não é um monólito sem dono", segundo Álvaro J. Corral. E outros especialistas concordam com sua afirmação.

Benny Meléndez, proprietário de uma construtora no Vale do Rio Grande, já havia alertado à BBC News Mundo antes das eleições de terça-feira que "nós, hispânicos, não temos partido de preferência".

"Votamos em Trump para castigar Biden. Agora, vamos castigar Trump e votar nos democratas", antecipava ele.

"Quando vai parar este jogo? Estamos cansados de pedir ajuda."