5 motivos pelos quais bets deveriam ser proibidas e fazem mal à saúde
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve anunciar nesta sexta-feira, 25, uma medida provisória (MP) para proibir as bets, como são conhecidas as plataformas de apostas esportivas, e os cassinos online no Brasil, como o “jogo do tigrinho“.
A informação foi antecipada pela CNN. Segundo o portal de notícias, a medida faz parte do conjunto de ações que o governo chama de “novas medidas de proteção às famílias e à economia popular”, a serem anunciadas em um ato na Avenida Paulista, em São Paulo, às 17h.
Até o anúncio e a publicação do texto oficial, ainda não é possível saber os detalhes de como a coibição será implementada, mas, na noite de quinta-feira, 24, durante um ato em Maceió (AL), Lula confirmou a intenção de “acabar com as bets“.
“Eu vou acabar com as bets antes de elas acabarem com o Brasil e levar as pessoas à doença”, afirmou o presidente.
A eventual proibição traz ao centro do debate os problemas de saúde mental, endividamento e perda de qualidade de vida associados ao vício em apostas, que tem crescido no país.
Para entender a dimensão desse fenômeno, veja a seguir cinco razões que ajudam a explicar a preocupação de autoridades de saúde em relação às bets.
1. “Transtorno de jogo” cresce
Como mostrado por VEJA SAÚDE, segundo a terceira edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, que no último ano ganhou uma versão especial sobre jogos de azar, 7,3% da população pode ter uma relação problemática com as apostas.
Isso equivale a 11 milhões de pessoas que, a partir dos 14 anos de idade, estão expostas ao risco de ter uma relação patológica com as plataformas — que já tem endividado e comprometido a renda de famílias Brasil afora.
De acordo com o mapeamento, 1,4 milhão desses cidadãos poderiam receber o diagnóstico de transtorno de jogo, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Nesse estágio, a pessoa tem comportamentos como a falta de controle sobre o tempo e o dinheiro gastos nas apostas, está a todo tempo pensando em tentar a sorte, insiste em jogar para recuperar o que perdeu e pode mentir sobre sua real situação”, descreveu a psicóloga Mirella Mariani, do Programa de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Não raro, o distúrbio está associado a outros quadros, como a depressão e a ansiedade. Além disso, o risco de suicídio é especialmente preocupante.
2. Suicídio é principal causa de morte entre quem tem o transtorno
Segundo um estudo norueguês publicado no periódico The Lancet Regional Health Europe, o atentado contra a própria vida é a principal causa de morte nesse público.
De acordo com a análise, o risco é 5,12 vezes maior entre pacientes com transtorno do jogo do que na população geral.
E o impacto do transtorno do jogo não se restringe a quem aposta. Famílias inteiras podem ser afetadas pelo endividamento, pela perda de renda e pelos efeitos da compulsão, que podem incluir conflitos, isolamento e sofrimento psicológico.
3. Prejuízo milionário aos cofres públicos
As bets podem estar causando um rombo no sistema público nacional. Segundo estimativa do relatório A Saúde dos Brasileiros em Jogo, realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), a participação doentia em jogos de apostos pode gerar custos sociais de pelo menos R$ 30,6 bi ao ano.
“Desse montante, 80% dizem respeito a danos à saúde do usuário: são R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio, R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida decorrente de depressão, R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para o transtorno depressivo”, detalhou Rebeca Freitas, diretora de relações institucionais do IEPS.
As estimativas envolvem custos diretos para o Estado, mas também custos sociais indiretos, mais amplos, associados à perda de qualidade e duração de vida.
4. Setor não dá retorno financeiro ao país
Ainda segundo a análise do IEPS, o prejuízo à população causado pelos jogos de aposta pode ser seis vezes maior do que os impostos coletados dessas empresas.
As bets passaram a ser taxadas em fevereiro de 2025. De acordo com o instituto, até 25 de agosto daquele ano, o repasse somava pouco mais de R$32 milhões, segundo informações do Ministério da Fazenda.
O IEPS classifica o valor como “irrisório” diante dos custos sociais estimados, que estão na casa dos bilhões de reais. Para ter uma ideia da diferença de escala, vale lembrar que cada R$ 1 bilhão equivale a R$ 1.000 milhões.
Além disso, apenas 1% da arrecadação sobre a receita bruta desse mercado é destinada ao Ministério da Saúde — e não há um vínculo específico com o financiamento da Rede de Apoio Psicossocial, que gere as unidades de atendimento psiquiátrico no país. Para ter uma ideia, no Reino Unido, 50% dos tributos são voltados ao bem-estar da população.
5. Empresas investem para te manter adoecido
As apostas prometem ganhos fáceis e milagrosos em plataformas que prendem a nossa atenção e reforçam o hábito — e assim o cérebro vai liberando doses constantes de dopamina a cada rodada, levando a um círculo vicioso.
Isso ocorre porque o transtorno do jogo envolve alterações em circuitos cerebrais semelhantes às observadas nas dependências de substâncias, ligados à recompensa, à motivação e ao controle dos impulsos.
Para especialistas, o risco ainda é potencializado pelo fato de que, hoje, as pessoas têm acesso às apostas na palma da mão.
Aliás, por trás da adicção, existe uma estratégia multimilionária para manter o foco nas telas — e ela começa pela publicidade.
Um levantamento realizado pelo Itaú Unibanco estima que o setor tenha investido até R$ 8,8 bilhões em marketing em 2024. Em algumas empresas, o valor destinado às propagandas pode representar até 75% da receita, algo impensável em outros segmentos.
Mas o gasto compensa para as casas. Calcula-se que cada pessoa atraída para o mundo das apostas possa render até sete vezes mais do que foi gasto para fisgá-la. Por isso, as empresas capricham nas promessas.
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Como evitar prejuízos à saúde e ao bolso
Para proteger a sanidade e o patrimônio da população, o governo federal já tem implementado algumas ferramentas de prevenção e tratamento do vício em bets.
Uma delas é o sistema centralizado de autoexclusão dos sites de apostas, uma plataforma na qual o cidadão solicita que seu acesso a casas de aposta digitais seja bloqueado. Basta informar o CPF e optar por quanto tempo quer ficar longe dos jogos — de um mês, um ano ou por um período indefinido.
O serviço pode ser usado por qualquer pessoa, não apenas jogadores compulsivos, já que protege também contra o uso indevido de dados pessoais por terceiros.
Segundo o Ministério da Fazenda, quase 700 mil pessoas já haviam se autoexcluído até julho. A maioria manifestou que quer se afastar por tempo indeterminado e quatro em cada dez escolheram bloquear o próprio acesso por motivos de saúde mental.
Para quem tem o diagnóstico ou suspeita de que esteja vivenciando um quadro de transtorno do jogo patológico, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acolhimento e tratamento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além do serviço de teleatendimento. Saiba sobre o tema aqui.