Reengenharia humana: como o movimento certo muda sua saúde a longo prazo
Aos 51 anos, o preparador físico Luciano D’Elia sente que está entrando em um segundo ato de sua vida. “Não há garantias de que irei viver mais 50 anos, mas quero ter qualidade de vida nos anos que terei”, diz o fundador do Core 360°, programa que já capacitou mais de 50 mil profissionais no ensino do treinamento funcional.
Decidido a melhorar a performance do movimento de qualquer aluno — daquele que está determinado a superar o sedentarismo ao atleta olímpico —, D’Elia busca espalhar a palavra da qualidade de vida por meio da atividade física.
É sobre isso que trata seu novo livro, Reengenharia Humana: O Código do Treinamento Funcional. Em mais de 700 páginas, o especialista explica como comportamentos podem ser modificados e orienta quais exercícios ajudam as pessoas a ter um corpo que lhes permita viver com mais autonomia — em resumo, como transformá-lo em uma máquina mais eficiente.
VEJA SAÚDE: O que é a “reengenharia humana”, tema central do seu novo livro?
Luciano D’Elia: Olhando para a origem do exercício físico, observamos que ele é uma criação artificial, uma abstração. Ele precisou ser criado a partir do momento em que fomos tirando a atividade e o esforço físicos da nossa vida cotidiana. E esse processo vem impactando a saúde física e mental de tal maneira que a própria sociedade vai ficando doente.
A “reengenharia” vem da noção de que você pode alterar e melhorar muito as escolhas que faz com o seu corpo todos os dias. E isso, sem dúvida, começa pelo movimento. Então, o livro traz estratégias, voltadas tanto a treinadores quanto a praticantes, para viver melhor por meio da qualidade do movimento.
Qual elemento do treinamento funcional você considera fundamental para que as pessoas implementem em sua rotina?
Há uma tese que permeia todo o livro: a sua saúde física e mental depende muito da qualidade dos movimentos que você consegue produzir. A defesa do exercício está muito ligada ao que você quer fazer com o corpo daqui a dez, 20, 30 anos.
Treinamento funcional é muito amplo. O que você tem que entender são os objetivos e as necessidades daquele indivíduo.
A falta de tempo e o estigma sobre corpos fora do padrão afastam dos exercícios muitas pessoas que precisam se movimentar mais. O que você acha que pode ser feito para driblar essas dificuldades?
O mercado de exercícios, hoje, dá pouca atenção a isso. Ele ainda fala muito de método, porque tudo tem que ser embalado para virar um produto.
O ecossistema todo é permeado por essa ideia, mas isso também cria uma barreira para que a maior parte das pessoas possa aderir aos exercícios no dia a dia. A indústria do fitness sempre foi muito baseada na mudança de aparência.
Isso fez com que a indústria sofisticasse tanto o exercício e simplificasse tanto o indivíduo que hoje em dia é muito difícil fazer com que o encaixe aconteça. E o exercício é algo muito difícil para quem não tem isso na rotina.
Minha primeira recomendação é: procure um profissional para te ajudar. O exercício funciona bem quando ele é criado em torno do indivíduo, do que ele gosta.
Aos poucos, o treinamento funcional melhora a sua capacidade de se mover e viver melhor.
A cultura dos resultados rápidos é também uma armadilha para quem está começando?
O exercício gera um resultado exponencial a longuíssimo prazo, mas os ganhos diários são muito incrementais.
Não existe — e isso é algo usado para capturar atenção nas redes sociais — plano de 60 dias, de 90 dias ou de 120 dias. Isso é só um gancho de venda. Tem que fazer um pouco todo dia, durante muito tempo.
A soma desses pequenos ganhos pode ser o segredo para a longevidade?
A longevidade é multifatorial, e envolve aspectos sobre os quais não temos tanto controle. Eu gosto muito do conceito de healthspan: quanta qualidade de vida você consegue colocar nos anos que você tem.
Nesse sentido, acredito que saúde não é apenas não estar doente, é criar uma reserva para responder à altura quando a vida te exige. Isso está ligado a bons hábitos de exercício, sono e alimentação. Quando você olha para o pilar do exercício, a visão do treinamento funcional faz muito sentido.
E, pensando de forma prática, a base da autonomia é o treinamento de força. Mas a massa muscular deve ser cultivada não apenas com o ganho em volume, mas com o ganho em função: produzir força, coordená-la, aplicá-la no tempo certo e combinar essa produção com equilíbrio e capacidade respiratória para manter o ritmo e a frequência.
Isso se conecta bastante com o conceito de “inteligência atlética”, que você introduz no livro?
Sempre entendi que a performance não deve ficar restrita ao alto rendimento. Somos exigidos no trabalho, na vida pessoal, com a família, com amigos.
Fui entendendo que todos os nossos sistemas — tanto o corpo físico quanto a mente — não funcionam separados; são uma coisa só.
O termo “inteligência atlética” tem a ver com isso: precisamos lidar com nossas escolhas diárias com inteligência, sabendo que essa engrenagem funciona em sincronia e não se separa.