Animais se adaptaram para sobreviver à pressão atmosférica no fundo do mar

24 de Out de 2026 - 02:20
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Animais se adaptaram para sobreviver à pressão atmosférica no fundo do mar

Na profundeza dos oceanos, onde a luz do sol não chega e a água registra temperaturas próximas do congelamento, organismos marinhos enfrentam forças físicas grandiosas. A cada 10 metros de profundidade, a pressão atmosférica aumenta o equivalente a uma caixa de força (1 atm). Em regiões abissais e hadais, localizadas a milhares de metros abaixo da superfície do mar, o peso da água sobre cada centímetro quadrado de um ser vivo esmagaria instantaneamente estruturas convencionais.“Em áreas de fossas oceânicas, nos pontos mais profundos do planeta, a pressão pode chegar a mais de mil atm. Quanto mais profundo se está no oceano, maior a pressão que a coluna de água exerce sobre um corpo”, explica a pesquisadora Raquel Avelina, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e apoiada pelo Instituto Serrapilheira.A sobrevivência nos locais isolados do planeta depende de uma combinação precisa de engenharia anatômica, fluidez celular e química molecular adaptada.Estruturas livres de ar e corpos ricos em águaPara suportar o peso da coluna d’água sem colapsar, os animais das zonas mais profundas abdicaram de órgãos e cavidades que armazenam ar. Ao contrário de espécies da superfície, esses seres não possuem pulmões ou bexigas natatórias desenvolvidas.“Dentre as adaptações, uma das principais é a ausência ou redução de cavidades dentro das quais existe um tipo de gás. O gás é muito compressível pela pressão, enquanto os líquidos não são. Por isso há uma substituição de cavidades preenchidas por gás para cavidades preenchidas por líquidos”, explica o biólogo Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.Além do preenchimento predominantemente líquido, a flexibilidade corporal e a alta taxa de água na composição dos tecidos reduzem a variação mecânica provocada pela força externa.Fluidez celular e proteção molecularNo nível microscópico, a pressão extrema ameaça desestabilizar as membranas lipoproteicas das células e paralisar proteínas essenciais. Para evitar a rigidez ou o colapso metabólico, a arquitetura celular das espécies abissais conta com uma proporção diferenciada de ácidos graxos, mantendo a viscosidade necessária para a passagem de nutrientes e sinais biológicos.Simultaneamente, a proteção das estruturas internas conta com o auxílio de compostos químicos específicos. “O óxido de trimetilamina, por exemplo, é uma molécula que consegue ter efeito dentro das células e estabiliza a funcionalidade das proteínas e das enzimas fundamentais para que o organismo funcione”, destaca Turra.A substância impede que a força do ambiente desfigure a geometria das enzimas, garantindo que as reações químicas continuem ocorrendo mesmo em ambientes de opressão física contínua.O risco letal da descompressãoQuando retirados abruptamente de seu habitat por expedições científicas ou redes de pesca, a transição para a superfície resulta na morte quase imediata dessas espécies. O fenômeno ocorre devido à rápida expansão dos raros gases residuais e à alteração da estabilidade celular.O especialista da USP aponta que a descompressão abrupta provoca estragos generalizados no organismo: “Os gases presentes se expandem, levando ao barotrauma, hemorragias, embolias e ruptura de órgãos. As membranas adaptadas sofrem com a baixa pressão, perdem a integridade e causam o extravasamento do citoplasma. Além disso, as proteínas perdem funcionalidade e o movimento rápido gera choque térmico”.Escassez energética e vulnerabilidade ambientalAlém dos desafios físicos, o mar profundo é marcado pela escassez de alimento. Com exceção dos ecossistemas alimentados por fontes hidrotermais e processos de quimiossíntese, a maior parte dos seres abissais subsiste de restos orgânicos que afundam das zonas iluminadas, conhecidos como neve marinha.Nesses ambientes hidrotérmicos, microrganismos utilizam compostos químicos para gerar energia e se tornam a base da cadeia alimentar. Segundo Raquel, essas fontes funcionam como “oásis em ambientes extremos”, garantindo a sustentação de diversos organismos onde não há luz solar.Essa baixa disponibilidade energética impõe um ritmo metabólico desacelerado. Os animais crescem devagar, atingem a maturidade sexual tardiamente e geram poucos descendentes a cada ciclo reprodutivo. Essa taxa de recuperação lenta acende um alerta sobre atividades humanas na região, como a mineração de nódulos polimetálicos.Intervenções nesses habitats têm o potencial de causar danos ecológicos severos com prazos de recuperação estimados em séculos.