Brasil chega à eleição com debate eleitoral sequestrado pelo STF
Daniel Vorcaro, Banco Master, Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, André Mendonça… Essas figuras — e algumas outras, é verdade — personificaram uma crise sem precedentes no Poder Judiciário brasileiro e capturaram a atenção pública exatamente no mês que precedeu as eleições de 2026.
A poucas semanas para o pleito deste 4 de outubro, o que se esperava era o debate de propostas e o apelo pelo voto por parte dos candidatos a presidente, senadores, governadores e deputados federais e estaduais. Não foi o que aconteceu. A campanha eleitoral pareceu correr em mundo paralelo e só voltou aos holofotes na beira da votação do primeiro turno.
Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentaram quebrar o protagonismo do STF, apesar de também terem sido tragados indiretamente às disputas internas da Corte. Somente nas duas últimas semanas, com direito a fake news sobre Nossa Senhora Aparecida e medidas eleitoreiras do petista, como o fim das bets, é que a população lembrou que terá de votar neste domingo.
As pesquisas eleitorais acompanharam não só as intenções de voto, mas também o interesse dos eleitores no pleito deste ano. E exatamente no momento em que se esperava uma atenção maior ao processo eleitoral, em setembro, nada significativo ocorreu. O interesse demonstrado no começo do ano é praticamente o mesmo registrado na semana do primeiro turno.
O levantamento da Nexus/BTG Pactual, divulgado na segunda-feira (28), mostrou que 77% dos entrevistados disseram estar muito interessados ou interessados na eleição. Em março, esse mesmo recorte marcava 73%. Ou seja, em seis meses, o interesse do eleitor avançou apenas quatro pontos percentuais, como apresenta o gráfico abaixo.
Tema corrupção veio do STF e não do debate político
O processo eleitoral pode ter ficado em segundo plano, mas a crise do Supremo Tribunal Federal não passou despercebida pelos eleitores. E isso não se limitou ao noticiário com mais caracteres ou tempo destinado a Alexandre de Moraes e companhia. Ela trouxe à tona um problema que estava levemente adormecido: a corrupção.
A relação entre ministros do STF e Daniel Vorcaro fez com que o eleitor voltasse a se preocupar com o tema da corrupção, que em eleições passadas estaria confinado a acusações e debates entre candidatos. Em alguma medida, a Suprema Corte acabou sequestrando o assunto para si. A preocupação com a corrupção aumentou, mas não necessariamente ligada a políticos.
De acordo com uma pesquisa da Quaest, de 2 de setembro, 14% dos entrevistados diziam que a corrupção era o principal problema do Brasil, atrás de violência (31%) e economia (16%). Menos de duas semanas depois, em 14 de setembro, a corrupção passou a ser a principal preocupação para 22% do eleitorado, atrás apenas de violência, que ficou com 31%.
Judicialização da política tirou o foco das propostas
O avanço da campanha coincide também com o aumento da judicialização no processo eleitoral, com os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobrecarregados de questões para julgar, desde o registro das próprias candidaturas até propagandas irregulares, desinformação, impugnação de pesquisas eleitorais, entre tantas outras questões.
Esse excesso de judicialização também não ajudou o eleitor a se concentrar naquilo que, em outros tempos, costumava ocupar o centro da campanha: as propostas dos candidatos para resolver os principais problemas do país. Em vez de propostas, o que predominou foram acusações e notícias falsas. Tudo indo parar nas cortes eleitorais.
Segundo o cientista político e professor do Insper, Leandro Consentino, o STF roubou, de fato, a cena no processo eleitoral. No entanto, ele alerta que a judicialização da política, de forma mais ampla, também exerceu um papel importante e continua a fazê-lo no afastamento do eleitor do processo eleitoral.
“O processo de judicialização é perigoso”, afirma. “A judicialização esvazia o debate da arena política e o submete sempre a decisões jurídicas, que nem sempre são decisões pautadas pelo princípio democrático, mas sim pelo princípio tecnicista da lei”, completa.
Metodologia das pesquisas citadas