Enquanto extrema esquerda incendeia a França, direita aparece como favorita para liderar o país
Enquanto a França é assolada por uma onda de protestos violentos que o governo do presidente Emmanuel Macron atribui à atuação de grupos da extrema esquerda, a direita nacionalista francesa lidera as pesquisas para a eleição presidencial de 2027.
Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional (RN), da direita nacionalista, aparece com até 38% das intenções de voto no primeiro turno e também está à frente dos adversários nas simulações de segundo turno. Os números foram divulgados em meio à escalada de violência que deixou veículos incendiados, estabelecimentos roubados e prédios públicos depredados em várias cidades do país.
Um dos levantamentos, realizado pelo instituto Elabe para a emissora BFMTV e o jornal La Tribune Dimanche, foi divulgado no sábado (17), mesmo dia em que as violentas manifestações terminaram em confrontos com a polícia no país. A pesquisa ouviu 1.701 pessoas entre os dias 14 e 16 de outubro, antes dos episódios mais graves de violência. Em uma das simulações, Le Pen registra 32,5% das intenções de voto, quase o dobro dos 16,5% atribuídos ao ex-primeiro-ministro Édouard Philippe, possível representante do centro político francês. O candidato de centro-esquerda Raphaël Glucksmann aparece com 15,5%, seguido por Jean-Luc Mélenchon, da extrema esquerda, com 15%.
A pesquisa também indica vantagem da candidata do RN em três possíveis disputas de segundo turno. Contra Philippe, Le Pen registra 52,5% das intenções de voto, diante de 47,5% do adversário. A diferença aumenta em um confronto com Glucksmann, no qual ela alcança 53,5%. Já contra Mélenchon, a candidata da direita nacionalista aparece com 69%, diante de 31% do líder do partido de extrema esquerda França Insubmissa.
Os resultados mostram a força eleitoral de Le Pen e do RN a cerca de seis meses da eleição presidencial, que deve ocorrer em abril de 2027. O instituto Elabe, porém, também identificou um número elevado de eleitores que ainda podem mudar de escolha: 46% dos entrevistados que declararam preferência por algum candidato admitiram essa possibilidade.
Uma pesquisa mais recente, divulgada pelo instituto Ifop-Fiducial nesta terça-feira (20), registrou Le Pen com 34% a 38% das intenções de voto no primeiro turno. A candidata alcança 38% no cenário em que o ex-primeiro-ministro Gabriel Attal é o único representante de centro, seguido por Jean-Luc Mélenchon e Raphaël Glucksmann, ambos com 16%, e pelo próprio Attal, com 13%. Quando Édouard Philippe aparece como único candidato de centro, Le Pen registra 36%, contra 16,5% de Mélenchon, 15% de Philippe e 14% de Glucksmann.
O levantamento ouviu 1.928 eleitores entre a noite de sábado (17) e segunda-feira (19), após o início dos grandes protestos violentos. Nas simulações de segundo turno, Le Pen registra 56% contra Édouard Philippe, 57% diante de Raphaël Glucksmann, 58% contra Gabriel Attal, 59% diante do ex-presidente François Hollande e 68% contra Jean-Luc Mélenchon.
O que explica a liderança de Le Pen nas pesquisas?
O crescimento de Le Pen e do Reagrupamento Nacional nas pesquisas começou antes da atual onda de protestos violentos que assolou a França. Em um levantamento do Ipsos divulgado no dia 5 de setembro, a candidata do Reagrupamento Nacional já aparecia com 34% a 36% das intenções de voto no primeiro turno, à frente dos demais adversários. Em junho, outro levantamento do mesmo instituto havia colocado os possíveis candidatos do RN, Le Pen e Jordan Bardella, com 31% e 36%, também à frente dos demais concorrentes.
Uma pesquisa do Ipsos, realizada em setembro com 13.060 franceses, ajuda a explicar o motivo deste cenário. Segundo o levantamento, 78% dos entrevistados acreditam que os atuais dirigentes políticos da França levaram o país à ruína. Outros 74% esperam uma piora da situação nacional nos próximos meses, enquanto 71% desejam que a eleição de 2027 produza uma mudança política e social significativa, percentual que cresceu 20 pontos desde 2021.
Em análise publicada no começo de setembro, dias antes do início dos protestos, pelo jornal Le Monde, o diretor-geral adjunto do Ipsos, Brice Teinturier, relacionou esses resultados ao aumento da insatisfação dos franceses com a política tradicional. Segundo Teinturier, muitos franceses perderam a confiança nos políticos que governaram o país nos últimos anos e não acreditam mais que eles sejam capazes de resolver os problemas da população. Essa insatisfação, avalia o pesquisador, ajuda a explicar o apoio a candidatos como Le Pen, que prometem mudar os rumos da França.
“Uma guinada populista ocorre em um país quando seus habitantes acreditam que ele está em declínio, que a situação é catastrófica, que a população não está bem representada e que a responsabilidade por esse cenário é das elites e de todos os dirigentes políticos que se sucederam no poder ao longo de muitos anos”, escreveu ele.
O cientista político Gilles Ivaldi, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e da Sciences Po, identificou outro fator. Em um estudo publicado neste mês, ele concluiu que Le Pen também consegue atrair eleitores insatisfeitos com a política que não se identificam necessariamente com a direita nacionalista.
A pesquisa, baseada em entrevistas com 13.060 franceses, mostrou que 89% dos participantes consideram que os políticos falam demais e fazem muito pouco no país. Segundo Ivaldi, essa desconfiança ajuda tanto Le Pen quanto Mélenchon, mas beneficia mais a candidata do RN, que consegue atrair eleitores de centro e de direita, além daqueles que não se identificam com nenhum campo político. Mélenchon, por sua vez, tem mais dificuldade para conquistar votos fora da esquerda.
Governo culpa extrema esquerda pela violência na França
Os protestos em curso na França ficaram ainda mais violentos no final de semana, quando cerca de 550 mil pessoas participaram de 110 manifestações em todo o território francês, segundo o Ministério do Interior. Os organizadores estimaram a presença de 800 mil participantes. Somente em Paris, aproximadamente 110 mil pessoas foram às ruas, conforme os números oficiais.
A mobilização reuniu estudantes, sindicatos, integrantes dos chamados Coletes Amarelos e movimentos de esquerda. Os protestos começaram com reivindicações sobre as condições das escolas e universidades, mas passaram a incluir críticas aos gastos públicos, aos salários e ao aumento do custo de vida. Em parte dos atos, grupos violentos entraram em confronto com policiais, incendiaram veículos e atacaram estabelecimentos comerciais. Também houve depredações e saques em Paris, Lyon, Marselha e outras cidades.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, atribuiu parte dos ataques à atuação de grupos da ultraesquerda e da esquerda radical. Nesta terça-feira (20), o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, reforçou a acusação. Durante uma manifestação na Assembleia Nacional, o parlamento do país, ele denunciou a preparação, em determinados locais, de um "esquema insurrecional" conduzido por pequenos grupos da extrema esquerda e da ultraesquerda.
A polícia também investiga neste momento a participação de criminosos que aproveitaram as manifestações para roubar. Até esta terça-feira, mais de 2,4 mil pessoas haviam sido detidas desde o início dos tumultos, segundo as autoridades francesas, e mais de 800 suspeitos estão sob investigação do Ministério Público.
O agravamento da situação no país levou o governo a decretar toques de recolher em áreas de Paris e de outras grandes cidades. Lecornu também anunciou a mobilização de militares para proteger instalações estratégicas e permitir que mais policiais sejam empregados na segurança de novas manifestações previstas para sábado (24).
Le Pen responsabiliza esquerda pela violência e amplia críticas a Macron
A violência nas ruas já está provocando uma disputa entre os candidatos à Presidência sobre as responsabilidades pela crise. Marine Le Pen acusou integrantes do França Insubmissa, partido de extrema esquerda comandado por Mélenchon, de contribuírem para a radicalização dos protestos. "As reivindicações sociais legítimas foram mais uma vez feitas reféns pela extrema esquerda", afirmou a candidata em uma publicação no X, no final de semana.
Na mesma manifestação, Le Pen criticou deputados ligados a Mélenchon por, segundo ela, legitimarem a violência e tratarem a desordem como um direito. A candidata também responsabilizou o governo de Macron pelo ambiente de insatisfação que levou milhares de franceses às ruas.
O presidente do RN, Jordan Bardella, seguiu na mesma linha de crítica. Após um pronunciamento de Macron sobre os distúrbios, ele acusou o governo de ser um "poder covarde e desorientado", incapaz de garantir a segurança dos franceses. Bardella também criticou a atuação do ministro do Interior e cobrou uma resposta mais firme contra os responsáveis pelos ataques ocorridos no país. A direita nacionalista tenta neste momento colocar a segurança pública no centro da disputa eleitoral.
Em artigo publicado na terça-feira (20) pelo jornal britânico The Guardian, o analista Paul Taylor, pesquisador do think tank European Policy Centre, avaliou que os protestos violentos na França abriram uma oportunidade política para Le Pen. Segundo Taylor, os incêndios e saques nas cidades francesas acabaram desviando a atenção das reivindicações sociais e colocaram a segurança pública entre os principais assuntos do debate nacional. O analista também destacou a dificuldade do governo Macron para atender às demandas dos manifestantes, diante das restrições orçamentárias e do aumento da dívida francesa.
Mélenchon, por sua vez, rejeitou a associação entre seus apoiadores e os atos de vandalismo. O líder do França Insubmissa participou dos protestos em Paris e criticou a atuação policial, mas também pediu que seus seguidores não se envolvessem nos ataques.
"Quem compartilha nossa luta não tem nada a fazer em saques e depredações", escreveu ele em sua conta no X.
Na segunda-feira (19), o candidato de centro-esquerda Raphaël Glucksmann afirmou que o governo Macron precisa agir com mais firmeza contra os responsáveis pelos distúrbios no país, advertindo que os atos violentos “beneficiariam” a candidatura de Le Pen. "A beneficiária do caos será Marine Le Pen", declarou ele durante entrevista à rádio RTL.
Glucksmann também acusou Mélenchon de contribuir para o fortalecimento político da adversária. Segundo ele, a postura do dirigente da esquerda radical diante dos confrontos pode acabar servindo de trampolim para a candidata do RN.
Le Pen relaciona protestos à imigração ilegal e defende políticas mais duras para as fronteiras
Le Pen relacionou a onda de violência na França à política migratória adotada pelo governo francês. Em um pronunciamento divulgado no domingo (18), um dia depois da onda de violência observada no sábado (17), a candidata afirmou que o país está pagando agora por décadas de decisões equivocadas sobre imigração e segurança pública.
"Com esses tumultos trágicos para o país, sua situação e sua imagem no mundo, estamos pagando também por décadas de omissão. Décadas de imigração descontrolada, cujas consequências todos podem ver hoje em todas as áreas", declarou a líder de direita.
A restrição à imigração ilegal é uma das principais bandeiras de Le Pen em sua corrida pela presidência francesa em 2027. A candidata do RN defende políticas mais duras para conter a entrada ilegal de estrangeiros na França e proteção na fronteira, acabar com o direito automático à nacionalidade para filhos de imigrantes nascidos no país e dar prioridade aos franceses no acesso a moradias populares e determinados benefícios sociais bancados pelo Estado.
Em setembro, durante um discurso na região de Hénin-Beaumont, Le Pen defendeu o chamado princípio da prioridade nacional, que pretende incorporar à legislação francesa caso seja eleita.
"É um direito natural e justo", afirmou ela sobre o princípio. "Com a gente, os franceses [...] terão prioridade em seu próprio país", acrescentou, ao defender que a nacionalidade francesa seja considerada no acesso a benefícios e serviços públicos.
Crise fiscal amplia pressão sobre Macron às vésperas da eleição
A crise fiscal que a França enfrenta neste momento também já entrou nos debates da disputa pela Presidência em 2027. O atual governo do presidente Emmanuel Macron enfrenta dificuldades para atender às reivindicações dos protestos em curso justamente por causa do elevado endividamento do país.
Nos atos, tirando a parte da violência, alguns grupos têm cobrado melhores salários, investimentos em educação e serviços públicos.
A dívida pública francesa já chegou a quase 3,6 trilhões de euros, equivalente a 119% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados divulgados em setembro pelo Instituto Nacional de Estatística (Insee). Parte desse endividamento cresceu durante a pandemia, quando Macron adotou uma política de gastos conhecida como "custe o que custar", destinada a sustentar empresas e trabalhadores durante as restrições sanitárias.
Agora, o governo tenta fazer o caminho contrário ao que tomou naquele momento. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou ao parlamento um plano de ajuste fiscal de 54 bilhões de euros para 2027, com cortes de despesas e medidas para aumentar a arrecadação. A proposta inclui congelamento de salários do funcionalismo, restrições aos reajustes de aposentadorias e redução de gastos públicos, medidas que enfrentam resistência dos sindicatos e de partidos da oposição, como a extrema esquerda.
A situação colocou Macron diante de duas frentes de pressão: nas ruas, manifestantes exigem mais recursos para os serviços públicos; no Parlamento, o governo precisa negociar cortes para tentar equilibrar as contas.
Le Pen tem responsabilizado Macron pelo agravamento da dívida francesa. No começo deste mês, a candidata apresentou um plano econômico que prevê economizar 140 bilhões de euros até 2032, caso seja eleita. Durante a apresentação, ela criticou o orçamento elaborado pelo atual governo e alertou para o risco de uma crise financeira no país.
"Sem uma ruptura política, a França caminha para a inadimplência", afirmou.
A proposta de Le Pen inclui reduzir a contribuição francesa ao orçamento da União Europeia, economizar com políticas migratórias e reorganizar as despesas do Estado. O presidente do RN, Jordan Bardella, criticou a gestão econômica de Macron. Em entrevista à BFMTV, em setembro, ele acusou o presidente de ter "apagado a economia francesa" e defendeu a redução de impostos sobre os combustíveis para aliviar os gastos das famílias.
Na esquerda, Jean-Luc Mélenchon também rejeitou o ajuste fiscal de Lecornu. Em uma apresentação de seu projeto orçamentário, no último dia 14, o líder de esquerda defendeu aumentar a tributação sobre o capital e ampliar os investimentos públicos. Ele acusou o governo de criar um "círculo mórbido" com seus sucessivos orçamentos e de promover o "desmonte do Estado e dos serviços públicos".