Europa em ebulição: protestos se intensificam com destruição e vandalismo
A Europa enfrenta uma nova onda de protestos, marcada pela intensificação das manifestações e por episódios de violência em diferentes países. Neste sábado (17), atos na França, na Bélgica, na Itália, na Alemanha e na Albânia foram acompanhados por confrontos entre manifestantes e forças de segurança, incêndios, depredação e saques.
Em Portugal, milhares de pessoas protestaram em Lisboa contra o encarecimento da moradia e do custo de vida.
Entre as principais reclamações estão o aumento excessivo dos preços, a dificuldade de acesso à habitação, as condições do sistema educacional e a insatisfação com as políticas públicas. Estudantes, sindicatos, agricultores, professores, aposentados, ativistas climáticos e movimentos políticos, sobretudo de esquerda, participam das mobilizações. Em diferentes locais há grupos envolvidos em episódios de violência e saques, o que tem ampliando a tensão nas ruas.
França concentra os confrontos mais graves
Na França, protestos contra o custo de vida ganharam dimensão nacional e podem representar uma retomada do movimento dos Coletes Amarelos, que mobilizou o país em 2018 e 2019 contra o aumento previsto de impostos sobre combustíveis. A nova onda de manifestações ocorre a cerca de seis meses da eleição presidencial que definirá o sucessor de Emmanuel Macron.
Os atos foram convocados sob o lema “Amarelos e Jovens” e reuniram estudantes e integrantes de diferentes categorias profissionais. Paris, Marselha, Lyon, Lens e Saint-Étienne estão entre as cidades que receberam manifestações. Os organizadores estimaram a participação de 800 mil pessoas, enquanto as autoridades contabilizaram 550 mil. Cerca de 1,5 mil atos estavam previstos para o sábado.
O cenário, porém, foi marcado por confrontos e depredação. Segundo informações divulgadas pelas autoridades francesas, grupos de pessoas mascaradas atacaram policiais, incendiaram mobiliário urbano e veículos, tentaram saquear estabelecimentos comerciais e danificaram prédios públicos. Em Lyon, um posto de informações turísticas foi incendiado. Em Marselha e Lille, manifestantes invadiram as sedes das prefeituras e vandalizaram instalações.
Em Paris, a polícia utilizou gás lacrimogêneo para dispersar pessoas encapuzadas que lançavam fogos de artifício e objetos contra os agentes. Dezenas de lojas foram saqueadas em diferentes cidades, incluindo uma unidade da Hermès, em Marselha, e uma loja da Apple, em Lille. Aproximadamente 400 pessoas foram detidas.
Em Saint-Étienne, uma pessoa perdeu a mão após a explosão de uma granada de efeito moral lançada pela polícia. O uso desse tipo de equipamento havia sido proibido pelo governo após um adolescente de 15 anos sofrer uma lesão semelhante durante um protesto estudantil, mas foi novamente autorizado pelo ministro do Interior, Laurent Nuñez, para conter possíveis distúrbios.
A polícia italiana entrou em confronto com manifestantes no centro de Milão, durante um protesto contra o alto custo de vida. Os agentes usaram gás lacrimogêneo após serem atingidos por pedras e outros objetos e tentaram retirar manifestantes encapuzados da Galleria Vittorio Emanuele II, área comercial de luxo próxima à catedral da cidade. Lojas fecharam as portas, turistas deixaram a região e a estação de metrô Duomo foi temporariamente fechada. Há feridos e prisões.
Em Bolonha, no norte da Itália, a polícia utilizou jatos de água para dispersar manifestantes e prendeu sete pessoas após outro ato terminar em violência.
Enfrentamento à polícia na Bélgica e na Albânia
Na Bélgica, estudantes foram às ruas de Bruxelas para protestar contra a situação do sistema educacional. As manifestações também terminaram em confrontos com policiais. Registros mostraram agentes utilizando cassetetes e manifestantes virando um carro durante os distúrbios.
Cartazes exibidos pelos participantes expressavam oposição ao que chamaram de fascismo e preocupação com o futuro das novas gerações. Uma das mensagens dizia que os manifestantes estavam tentando salvar o próprio futuro.
Na Albânia, protestos estudantis em Tirana também foram acompanhados por episódios de violência. Lixeiras foram incendiadas, enquanto manifestantes com o rosto coberto entraram em confronto com as forças de segurança. Uma pessoa foi fotografada lançando um coquetel molotov contra a tropa de choque, que respondeu com canhões de água.
Na Alemanha partidos políticos fecham acordo para expropriações
Na Alemanha, partidos A Esquerda, Os Verdes e o Partido Social-Democrata (SPD) concordaram em iniciar negociações para formar um governo de coalizãoem Berlim com um acordo preliminar para expropriar cerca de 160 mil imóveis residenciais pertencentes a grandes empresas privadas, mediante indenização.
A proposta seria uma resposta para enfrentar a escassez de moradias e os altos preços dos aluguéis e atingiria companhias com pelo menos 10 mil unidades residenciais. O plano prevê um limite de aproximadamente 16 bilhões de euros para as compensações, e o financiamento deverá ser elaborado e submetido à aprovação em meados de 2028.
A iniciativa ainda depende da formalização das negociações políticas e pode ser contestada na Justiça. A proposta se apoia no artigo 15 da Lei Fundamental alemã, que permite transferir determinados bens para propriedade coletiva mediante legislação específica, mas enfrenta críticas sobre sua eficácia.
Um estudo do Instituto Kiel para a Economia Mundial, divulgado em setembro, concluiu que a expropriação não resolveria a falta de moradias e poderia tornar o mercado de aluguéis mais rígido.
Segundo os pesquisadores, os imóveis afetados têm valor de mercado estimado em 40,2 bilhões de euros, recursos que, se investidos na construção de novas unidades, poderiam financiar até 71 mil apartamentos adicionais até 2045. Para o instituto, ampliar a oferta de moradias é mais importante do que alterar a propriedade dos imóveis.
Portugal tem mobilização contra a crise habitacional
Em Lisboa, milhares de pessoas marcharam neste sábado contra a alta do custo de vida e a dificuldade de acesso à moradia. A manifestação ocorreu após dias de agitação no Porto, onde ativistas haviam montado um acampamento posteriormente desmontado pela polícia durante uma operação na madrugada de 12 de outubro.
Os participantes afirmam que os salários não acompanham o aumento das despesas básicas. A crise habitacional é considerada grave nas grandes cidades, onde a elevação dos preços dos imóveis e dos aluguéis dificulta a permanência de moradores.
A inflação portuguesa chegou a 3,6% em setembro, impulsionada pela alta dos alimentos e dos combustíveis. Estes últimos ficaram 15% mais caros em relação ao mesmo mês do ano anterior, em meio às tensões no Oriente Médio. Os preços dos imóveis mais que dobraram desde 2017, enquanto os valores dos novos contratos de aluguel quase duplicaram no mesmo período.
O ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, afirmou que o Executivo não cederá à pressão das ruas e declarou que medidas para enfrentar os problemas já estão sendo implementadas.