Perder dentes na velhice não é natural: é reflexo da desigualdade
Durante muito tempo, perder os dentes foi considerado quase um destino natural de quem envelhece. Como se chegar à velhice significasse, inevitavelmente, ter menos dentes, usar prótese ou aprender a conviver com as limitações provocadas pela perda dentária.
Quem trabalha no Sistema Único de Saúde aprende que não é bem assim.
A boca de uma pessoa idosa também conta a história das oportunidades que ela teve — ou não teve — ao longo da vida. Conta a história do acesso à prevenção, à água fluoretada, à alimentação adequada, à informação, ao tratamento odontológico e às políticas públicas.
Mas conta também a história de uma época em que a odontologia tinha um caráter muito mais curativo do que preventivo.
Quando o dentista só era procurado com dor
Durante boa parte da vida de quem hoje está na terceira idade, o cuidado odontológico frequentemente começava quando a dor já estava instalada. A extração dentária era uma solução comum em situações que, atualmente, poderiam ser prevenidas, acompanhadas ou tratadas de outras formas.
A educação em saúde bucal, as ações preventivas e a própria compreensão sobre a importância de preservar os dentes naturais também eram muito diferentes das que temos hoje.
Isso ajuda a entender por que a condição bucal de uma pessoa idosa não pode ser analisada apenas pelo que ela faz atualmente. Ela também reflete o tipo de cuidado, informação e oportunidade de tratamento que esteve disponível ao longo de décadas.
Nesse percurso, a desigualdade social tem um peso importante.
Durante décadas, ter dentes saudáveis, tratar uma cárie no início, substituir dentes perdidos ou simplesmente poder sorrir sem constrangimento esteve, para uma parcela importante da população, muito mais próximo da capacidade de pagar por um serviço do que do exercício de um direito.
Quem podia pagar, cuidava. Quem não podia, muitas vezes convivia com a dor, com doenças bucais não tratadas e, no limite, com a perda dos dentes.
Mas perder dentes não é parte obrigatória do envelhecimento.
A desigualdade também aparece na boca
Os dados do SB Brasil 2023 ajudam a dimensionar essa realidade. Entre brasileiros de 65 a 74 anos, 36% eram edêntulos, ou seja, já haviam perdido todos os dentes naturais. Quase metade apresentava perda dentária severa e 72,9% não possuíam dentição funcional.
Não estamos falando apenas de dentes que faltam.
Estamos falando de pessoas que podem encontrar dificuldades para mastigar, alimentar-se, falar e sorrir. Estamos falando de autoestima, autonomia, convivência e qualidade de vida.
E essa perda não acontece de uma hora para outra.
A literatura científica brasileira demonstra há anos uma associação entre perda dentária e condições socioeconômicas. O edentulismo não pode ser explicado simplesmente pela idade.
Os dados mais recentes reforçam essa relação. Entre idosos brasileiros, a baixa escolaridade esteve fortemente associada à perda dentária: aqueles sem escolaridade apresentaram prevalência de edentulismo 3,62 vezes maior do que os mais escolarizados.
A velhice chega para todos. A perda dos dentes, não necessariamente.
Saúde bucal é um direito
Essa discussão também exige abandonar uma ideia que durante muito tempo acompanhou a odontologia: a de que cuidar dos dentes seria, de alguma maneira, um luxo ou uma questão predominantemente estética.
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a saúde como direito de todos e dever do Estado. Décadas depois, em 2023, a Lei nº 14.572 instituiu a Política Nacional de Saúde Bucal no âmbito do SUS e incluiu expressamente a saúde bucal no campo de atuação do Sistema Único de Saúde.
A boca passou a ocupar, de forma inequívoca, o lugar onde sempre deveria ter estado: como parte do corpo, da saúde e da cidadania.
A odontologia pública, portanto, não é um favor para quem não pode pagar. É política pública de saúde.
E reconhecer a saúde bucal como direito também significa compreender que o cuidado não termina na prevenção da cárie ou na restauração de um dente.
Existe uma população que já perdeu dentes e que também precisa ser cuidada.
Reabilitar também é cuidar
Por isso, falar em saúde bucal no SUS é necessariamente falar em reabilitação.
A prótese dentária não deve ser encarada como um produto supérfluo. Para uma pessoa que perdeu dentes, ela pode representar a recuperação da mastigação, da fala, da segurança para sorrir e até da possibilidade de voltar a se alimentar adequadamente.
É uma resposta concreta a uma necessidade de saúde.
E esse é um dos pontos em que o SUS revela sua importância: cuidar para que menos pessoas percam dentes, mas também garantir que aquelas que já sofreram essas perdas não sejam abandonadas.
Na Estratégia Saúde da Família, esse cuidado pode começar perto de onde as pessoas vivem. As equipes conhecem o território, identificam vulnerabilidades, acompanham famílias e conseguem atuar antes que a única alternativa restante seja uma intervenção de urgência.
A odontologia não precisa esperar que uma pessoa chegue à cadeira com dor.
Ela pode estar na escola, na unidade básica de saúde, na visita domiciliar, no pré-natal e no acompanhamento de idosos, pessoas com deficiência e populações em situação de maior vulnerabilidade.
É uma odontologia que não olha apenas para o dente. Olha para a pessoa e para as condições em que ela vive.
Envelhecer com dentes também é uma questão de equidade
É no território que percebemos com mais clareza que saúde bucal nunca foi apenas uma questão de aparência.
Um sorriso também faz parte da maneira como uma pessoa se apresenta em uma entrevista de emprego, conversa com outras pessoas, trabalha, participa da comunidade ou simplesmente se olha no espelho.
Isso não significa transformar a odontologia em promessa de beleza.
Significa reconhecer que mastigar, falar e sorrir sem dor ou constrangimento fazem parte da saúde, da autonomia e da participação social.
A desigualdade deixa marcas no corpo. E a boca também carrega essas marcas. Não podemos aceitar que a condição bucal de uma pessoa seja determinada pelo lugar onde nasceu, pela renda que teve, pelo nível de escolaridade ou pelas oportunidades de cuidado que encontrou durante a vida.
Enfrentar a perda dentária no Brasil exige mais do que aumentar o número de consultas. Exige prevenção, educação em saúde, acesso ao tratamento no momento adequado, equipes de saúde bucal suficientes, atenção especializada, reabilitação protética e uma rede pública capaz de acompanhar as pessoas ao longo de toda a vida.
Garantir que uma pessoa possa mastigar, falar, sorrir, trabalhar, conviver e envelhecer com dignidade é garantir saúde. E fazer com que esse direito chegue também a quem historicamente teve menos acesso ao cuidado é uma questão de equidade.
*Marisa de Freitas Sugaya, presidente da Comissão Temática de Políticas Públicas do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP)