Federal Reserve alerta para “dor” inevitável ao controlar inflação; entenda
Quatro anos atrás, com a inflação nas máximas de várias décadas, o então presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, entregou uma mensagem direta aos americanos: controlar a inflação teria um custo.
O Fed precisava agir “com força”, disse Powell aos participantes de uma importante conferência de banqueiros centrais naquele agosto. Ao fazê-lo, ele advertiu, haveria “alguma dor” para os consumidores.
Agora, com o Fed voltando a elevar as taxas de juros pela primeira vez em três anos, um alerta familiar sobre as consequências econômicas está ressurgindo.
A inflação em todo o país é impulsionada principalmente pelos preços dos combustíveis, que dispararam desde que a guerra com o Irã eclodiu em fevereiro.
O Fed tem pouco controle sobre a produção de petróleo, mas ao elevar as taxas de juros, busca impedir que os custos mais altos de energia se espalhem para outras partes da economia e alimentem uma inflação mais ampla.
Embora esse tipo de inflação impulsionada pela oferta possa ser mais fácil de controlar do que a inflação impulsionada pela demanda no pós-pandemia, “também não será indolor”, disse o presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, no mês passado.
Para os banqueiros centrais, o desafio é equilibrar duas prioridades concorrentes: manter a inflação sob controle e preservar um mercado de trabalho saudável.
Quando os aumentos de preços se tornam rápidos demais, o Fed normalmente eleva as taxas de juros, tornando o crédito mais caro para consumidores e empresas. Isso, por sua vez, pode conter os gastos e esfriar a demanda, aliviando a pressão sobre os preços.
Mas essa desaceleração pode ter um custo para os trabalhadores, frequentemente levando a uma contratação mais fraca, menos vagas de emprego e, em alguns casos, demissões, à medida que as empresas enfrentam custos de crédito mais elevados.
“A inflação é a doença. E agora o Fed vem com uma cura: taxas de juros mais altas“, disse Beth Ann Bovino, economista-chefe do US Bank. “Não sei qual é mais doloroso porque os dois machucam.”
Os gastos dos consumidores respondem por aproximadamente dois terços da atividade econômica dos EUA, tornando-os um motor fundamental do crescimento.
Se os americanos recuarem — seja porque os preços estão consumindo mais de seus orçamentos ou porque os custos de crédito mais altos os forçam a reservar mais dinheiro para despesas como a compra de uma casa — a economia poderá desacelerar.
No pior cenário, esse recuo poderia ajudar a empurrar a economia para uma recessão, disse Bovino à CNN.
Por ora, porém, a dor econômica não está sendo sentida de forma igualitária. Os americanos com investimentos substanciais no mercado de ações, que paira próximo a recordes históricos, podem estar indo bem.
Já aqueles que dependem mais de seus salários para cobrir despesas do dia a dia têm menos margem de proteção contra a alta dos preços.
“São essas pessoas que estão sendo prejudicadas”, disse ela.
A paciência é uma virtude — até deixar de ser
Tendo em mente os riscos das taxas de juros mais altas, um número crescente de autoridades do Fed tem defendido recentemente uma abordagem mais paciente ao lidar com a questão da inflação.
Em vez de tentar sair na frente no combate ao potencial de uma inflação maior ou mais abrangente, vários banqueiros centrais disseram que gostariam de mais tempo para observar como as condições econômicas evoluem, a fim de ter uma ideia melhor de quantos aumentos de juros adicionais, se houver algum, são necessários.
“Não há necessidade de urgência”, disse o presidente do Fed de Nova York, John Williams, no mês passado.
O vice-presidente do Fed, Philip Jefferson, ecoou esse sentimento. “Quaisquer ajustes futuros na política devem ser determinados pelo exame cuidadoso das tendências nos dados, pela perspectiva em evolução e pelo equilíbrio de riscos”, disse ele no início deste mês.
Mas esperar para agir também traz seus próprios riscos. Com o indicador de inflação preferido do Fed mais de um ponto percentual acima de sua meta anual de 2%, a presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, alertou que adiar a ação poderia tornar o combate à inflação ainda mais doloroso.
“Quanto mais tempo a inflação permanecer acima do nosso objetivo, mais difícil será para nós trazê-la de volta, e mais sofrimento os indivíduos e as empresas vão enfrentar”, disse Hammack em uma entrevista à CNBC em agosto.
Para o Fed, o desafio é descobrir quanta dor a economia consegue suportar — e qual risco é pior: agir cedo demais ou esperar por tempo demais. De qualquer forma, os consumidores provavelmente pagarão o preço.
O relatório do Índice de Preços ao Consumidor de setembro, previsto para quarta-feira, pode oferecer às autoridades algumas pistas valiosas.
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