Fissura labiopalatina: operar no tempo certo muda uma vida inteira

11 de Out de 2026 - 15:20
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Fissura labiopalatina: operar no tempo certo muda uma vida inteira

Quando falamos em fissuras labiopalatinas, o tempo não é apenas um detalhe do tratamento. Ele pode determinar a complexidade da reabilitação, a qualidade dos resultados e, principalmente, o impacto que essa condição terá sobre a fala, a alimentação, o desenvolvimento facial e a vida social de uma criança.

A sanção da Lei nº 15.133/2025 representa um avanço importante nesse cenário ao estabelecer a obrigatoriedade das cirurgias reconstrutivas eletivas e do tratamento pós-cirúrgico pelo Sistema Único de Saúde, incluindo terapias complementares como fonoaudiologia, psicologia e ortodontia corretiva funcional.

Mais do que ampliar o acesso a procedimentos, a legislação reforça um princípio fundamental: a fissura labiopalatina exige acompanhamento contínuo e multiprofissional. Não basta realizar a cirurgia. É preciso fazê-la no momento adequado e garantir que o paciente percorra todas as etapas necessárias à sua reabilitação.

Existe uma janela para tratar

O tratamento das fissuras labiopalatinas segue uma cronologia diretamente relacionada ao crescimento e ao desenvolvimento da criança. Enquanto a face se desenvolve, também estão acontecendo a erupção dentária, a formação da oclusão, o desenvolvimento da fala e a própria maturação psicossocial.

Por isso, algumas intervenções não podem ser simplesmente postergadas para uma idade considerada mais conveniente.

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Quando uma etapa importante é atrasada, as condições anatômicas podem se modificar e aumentar a necessidade de procedimentos complementares no futuro. O paciente pode chegar às etapas seguintes do tratamento com alterações mais complexas e fora da janela biológica considerada ideal.

Isso também significa tratamentos mais difíceis, mais demorados e, muitas vezes, com maior custo para o próprio sistema de saúde.

A experiência dos centros especializados demonstra que a abordagem precoce e interdisciplinar contribui para uma reabilitação mais organizada, respeitando cada fase do crescimento da criança e oferecendo também maior suporte aos pais e familiares.

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O papel decisivo do enxerto ósseo

Entre as etapas desse tratamento, o enxerto ósseo ocupa uma posição estratégica.

O procedimento tem como objetivo reconstruir o defeito ósseo existente na região da fissura, restabelecer a continuidade do arco maxilar e criar condições para que os dentes se desenvolvam e se movimentem adequadamente.

De forma geral, ele é realizado durante o período da dentição mista, frequentemente antes da erupção do canino. Não existe, porém, uma idade única para todos os pacientes. A indicação depende do estágio de desenvolvimento dentário e do planejamento ortodôntico individual.

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Quando realizado no momento adequado, o enxerto pode favorecer a estabilidade do arco dentário, permitir a movimentação ortodôntica na área da fissura, auxiliar na erupção do canino e contribuir para o fechamento de comunicações entre a boca e a cavidade nasal.

Quando essa etapa é realizada tardiamente, o tratamento continua sendo possível, mas tende a se tornar mais complexo. Podem surgir alterações na posição dos dentes, deficiência óssea persistente, problemas periodontais, dificuldades no tratamento ortodôntico e necessidade de procedimentos reconstrutivos adicionais.

Isso não significa que o paciente que perdeu a janela ideal esteja sem alternativas. Existem possibilidades de reabilitação em diferentes idades, mas a previsibilidade e a qualidade dos resultados tendem a ser maiores quando o tratamento respeita o desenvolvimento biológico.

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Tecnologia aumenta a precisão

A cirurgia bucomaxilofacial também avançou de forma importante nos últimos anos com a incorporação de ferramentas digitais.

O planejamento virtual tridimensional permite transformar exames tomográficos em modelos digitais da anatomia do paciente.

Dessa forma, é possível visualizar o defeito ósseo em três dimensões, avaliar seu volume e extensão, compreender a relação com os dentes e outras estruturas e planejar a reconstrução de maneira mais individualizada.

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Essa tecnologia é especialmente relevante porque nenhuma fissura é exatamente igual à outra.

A largura, a profundidade e a anatomia do defeito variam de paciente para paciente. Modelos tridimensionais e ferramentas de simulação virtual ajudam o cirurgião a compreender melhor essas diferenças e a planejar o enxerto necessário com maior precisão.

Em algumas situações, também é possível produzir guias e dispositivos personalizados por meio de tecnologias digitais, aumentando a previsibilidade de procedimentos reconstrutivos mais complexos.

O desafio da saúde pública, agora, é permitir que esses avanços sejam incorporados de maneira progressiva e acessível.

Tecnologia não precisa representar apenas aumento de custos. Quando utilizada de forma planejada, pode ajudar a padronizar protocolos, reduzir erros, melhorar a previsibilidade e otimizar recursos.

Muito além da estética

Tratar uma fissura labiopalatina nunca foi apenas uma questão estética.

Estamos falando da possibilidade de uma criança falar melhor, se alimentar com maior segurança, desenvolver uma oclusão funcional e crescer com menos impactos psicológicos e sociais.

A nova legislação traz uma oportunidade importante para fortalecer essa linha de cuidado dentro do SUS e reduzir situações em que pacientes chegam tardiamente às etapas fundamentais da reabilitação.

O verdadeiro avanço acontece quando conseguimos unir acesso, planejamento, tecnologia e acompanhamento multiprofissional.

Quando o tratamento é iniciado precocemente e conduzido no tempo correto, seu impacto ultrapassa a reconstrução anatômica. Ele alcança a autoestima, a convivência social, a formação da criança e a própria relação da família com todo esse processo.

No fim, tratar adequadamente uma fissura labiopalatina significa muito mais do que reconstruir estruturas. Significa devolver função, oportunidades e dignidade.

*Carlos Alberto Novelli Assef é cirurgião bucomaxilofacial, presidente da Câmara Técnica de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP)

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