Flávio Bolsonaro usa "golpe da Disney" e foge das perguntas sobre a família

17 de Out de 2026 - 07:10
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Flávio Bolsonaro usa "golpe da Disney" e foge das perguntas sobre a família

A entrevistadora fez uma pergunta direta a Flávio Bolsonaro. Se a condenação de Jair Bolsonaro for anulada e o filho vencer a eleição, o pai terá cargo no governo? Antes de responder, o candidato do PL disse que precisava contextualizar. O pai, segundo ele, foi condenado numa farsa, julgado por inimigos, pelo que chamou de “golpe da Disney”.

A expressão resume bem a sabatina de quase 30 minutos no Jornal Nacional na sexta-feira, 16 de outubro. Flávio usou boa parte das perguntas para falar do que queria e respondeu poucas delas de forma direta.

A defesa da família

Para sustentar a tese do “golpe da Disney”, Flávio apresentou três argumentos. O pai teria sido condenado por organização criminosa armada sem que nenhuma arma fosse encontrada. Teria sido acusado de depredar patrimônio público estando a 10 mil quilômetros de Brasília. E teria sido julgado por adversários, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin.

Nem na distância ele acertou. Orlando, onde Bolsonaro estava em 8 de janeiro de 2023, fica a cerca de 6 mil quilômetros de Brasília. Além disso, a condenação a 27 anos não dependia de o ex-presidente estar na Praça dos Três Poderes, porque se baseou no papel dele como líder da trama. E a ideia de que o resultado estava definido antes do julgamento não se sustenta, já que o ministro Luiz Fux votou pela absolvição. Flávio ainda disse que “está demorando” para a condenação ser anulada.

Sobre o 8 de janeiro, a entrevistadora descreveu o que aconteceu naquele dia. Vidros quebrados, policiais atacados com pedras e barras de ferro, armas levadas do Gabinete de Segurança Institucional. Flávio disse que quem cometeu crimes deve ser punido dentro da lei e que agredir policial é inaceitável.

Logo depois, mudou o tom. Falou na “senhorinha com Bíblia”, no vendedor de algodão-doce e em uma tentativa de golpe “em prédios vazios”. Em seguida, afirmou que o golpe de verdade é o do governo Lula contra os motoboys de São Paulo, numa disputa com o prefeito Ricardo Nunes.

Perguntado se exigiria dos futuros comandantes das Forças Armadas que concordassem com a versão dele sobre 2022, chamou os fatos de “farsa” e passou a falar de combate ao narcotráfico.

Sobre Eduardo Bolsonaro, Flávio deu uma das poucas respostas objetivas da noite e disse que o irmão não será chanceler. Mas, antes disso, o chamou de perseguido político e disse que a história ainda vai reconhecê-lo como alguém que se sacrificou pela democracia. Também acusou Moraes de culpar Eduardo pelas sanções que o ministro sofreu dos Estados Unidos. Não mencionou que o Supremo condenou Eduardo a 4 anos e 2 meses de prisão por coação no curso do processo.

Quanto ao pai, Flávio respondeu primeiro que “meu pai vai ser você, meu pai vai ser o povo brasileiro”. Quando a pergunta foi repetida, disse que Jair nunca tratou do assunto com ele e que é um privilégio ter um ex-presidente em casa para consultar. Não descartou a nomeação.

As três respostas contam a mesma história, a de uma família perseguida pelo Judiciário. Esse discurso agrada a quem já vota nele. Para quem tem receio de que o filho repita o pai, ele reforça a desconfiança.

O ajuste fiscal

A sabatina começou pela economia, e foi ali que Flávio deu as respostas mais claras. Disse que vai manter o reajuste do salário mínimo acima da inflação, que não vai separar o reajuste das aposentadorias do reajuste do mínimo e que não vai mexer nos pisos constitucionais de saúde e educação.

Essas são justamente as maiores despesas do governo. Economistas, inclusive alguns que apoiam Flávio, afirmam que não há como fazer um ajuste de 200 bilhões de reais por ano sem mexer nelas. A entrevistadora perguntou como ele pretende fazer isso.

Flávio fez uma pausa curta, olhou para a câmera e disparou que o maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar Lula. Disse com o ar satisfeito de quem acabou de entregar o slogan que nenhuma agência de publicidade teria coragem de cobrar. Como bordão de campanha, funciona. Como resposta à pergunta, não diz quanto se economiza nem onde.

Depois listou suas ideias. Cortar pelo menos dez ministérios, o que ele mesmo admitiu ter pouco impacto. Recuperar 54 bilhões com as estatais. Colocar os imóveis da União num fundo e vendê-lo no mercado. Antecipar a dívida ativa da União. Explorar petróleo na Margem Equatorial. E combater a corrupção com inteligência artificial.

O principal problema do plano é que quase todas essas receitas entram uma única vez, enquanto as despesas que precisam ser controladas se repetem todos os anos. Vender imóveis ou antecipar o recebimento de dívidas ajuda o caixa por um tempo, mas não reduz o gasto.

A experiência recente também joga contra as cifras. Foi no governo do pai que a venda de imóveis da União ganhou status de solução mágica. Paulo Guedes falava em levantar 1 trilhão de reais e, ao fim de quatro anos, o caixa tinha recebido 833 milhões, menos de 0,1% do prometido. Com a dívida ativa, a promessa esbarra no mesmo problema. Quase metade do estoque é dada como perdida, porque são dívidas de empresas falidas ou de devedores que não existem mais. O que a Procuradoria da Fazenda consegue recuperar costuma ficar entre 50 e 60 bilhões por ano, num patamar que se repete governo após governo, de esquerda ou de direita.

Outros números também não fecham. A comparação das estatais mistura lucro com resultado primário, que são medidas diferentes. A própria entrevistadora lembrou que, segundo a Petrobras, não haverá produção na Margem Equatorial antes de 2033. E o Boletim Focus de 2022, citado por Flávio para dizer que os juros deveriam estar em 7%, não fazia projeções para 2026.

Ao mesmo tempo, ao longo da entrevista, o candidato prometeu novos gastos, como voucher para creches particulares, um milhão de câmeras e um SUS com padrão do Hospital Einstein. Nenhum veio acompanhado de estimativa de impacto fiscal ou de compensação.

O resultado é um contraste curioso. Flávio é o candidato preferido do mercado financeiro, mas o que mostrou em público foi a cara de um governo populista e gastador, que promete ajuste sem cortar nada e amplia despesas sem dizer quem paga a conta.

As propostas

Flávio apresentou várias propostas. Na segurança pública, prometeu classificar Comando Vermelho, PCC e milícias como organizações narcoterroristas. Disse que a Marinha terá uma tropa de elite no Porto de Santos e que Exército e Aeronáutica vão reforçar a fronteira com a Bolívia. Prometeu que o Brasil vai aderir ao Escudo das Américas, a coalizão contra cartéis lançada por Donald Trump, e que vai reunir em janeiro os comandantes militares e os chefes das polícias estaduais.

Também prometeu comprar um milhão de câmeras com inteligência artificial e conectá-las às câmeras já existentes e ao cadastro nacional de mandados de prisão. Defendeu ainda que chefes de facções cumpram a pena integralmente.

Na saúde, disse que o futuro ministro Claudio Lottenberg, ex-presidente do Einstein e crítico da demora na compra de vacinas durante a pandemia, terá autonomia em emergências. Prometeu telemedicina, um prontuário eletrônico único e o uso de vagas ociosas em hospitais privados para cirurgias como a de catarata.

Para as mães, prometeu voucher para creche particular onde faltar vaga na rede pública. Na política, apresentou uma proposta de emenda à Constituição que acaba com a reeleição para presidente e se estende a parentes até terceiro grau.

Em quase todos os casos, faltou explicar quanto custa e de onde virá o dinheiro. A área com mais detalhes foi a segurança, mas também foi a que mais dependeu de expressões fortes, como “guerra ao narcotráfico” e “narcoterroristas”.

Números fora da pergunta

O que mais chamou atenção foi a quantidade de números que Flávio citou em respostas a perguntas que não pediam dados. Quando a entrevistadora perguntou se ele respeitaria o resultado das urnas em caso de derrota, ele disse que sim. Em seguida, sem pausa, afirmou que o governo Lula é recordista em feminicídios, em violência contra mulheres, em queimadas, em criminalidade, em endividamento, em empresas fechadas e em indústrias que se mudam para o Paraguai.

A entrevistadora observou que ele havia respondido à pergunta. Flávio confirmou e disse que tinha aproveitado para falar mais umas coisas.

Isso se repetiu outras vezes. A pergunta sobre o Estatuto do Desarmamento terminou num discurso sobre o Bolsa Família. A pergunta sobre a reunião ministerial de 2020 virou uma crítica à Polícia Federal no governo Lula. A pergunta sobre os presos do 8 de janeiro terminou na faixa exclusiva para motos de São Paulo.

As denúncias

Nas perguntas sobre denúncias, o padrão se manteve. Sobre os quase 70 milhões de reais que pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme sobre o pai, e que foram para um fundo nos Estados Unidos que estava inativo havia quatro anos, Flávio disse que tudo já foi esclarecido. Segundo ele, foi um patrocínio privado, sem contrapartida.

Perguntado por que pediu 134 milhões se o filme custou 75 milhões, disse que um contrato não foi cumprido. Sobre por que procurou justamente Vorcaro, entre mais de 1.600 instituições financeiras do país, respondeu que na época não havia nada contra o banqueiro. Em seguida, acusou o ex-tesoureiro do PT João Vaccari de cobrar propina de 10% e disse que isso estava confirmado pela PF. Não está. A informação vem de uma reportagem da revista Veja sobre a delação proposta pelo próprio Vorcaro, que a Procuradoria-Geral da República rejeitou por falta de provas.

Sobre o ministro Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro ao Supremo e citado nas mensagens de Vorcaro, disse apenas que todos devem estar abaixo da lei e voltou a criticar Moraes. Sobre a reunião ministerial de 2020, negou que o pai tenha interferido na PF para proteger a família e disse que Sergio Moro pediu para sair. Moro de fato deixou o governo, mas acusando Bolsonaro de interferência na Polícia Federal.

Sobre os aliados do Rio de Janeiro presos ou investigados, o deputado estadual eleito Márcio Canella, Rodrigo Bacellar e o ex-governador Cláudio Castro, disse que ficou surpreso e que todos têm o direito de provar inocência.

A entrevista não foi além disso. Não lembrou que a mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro, foi indicada como primeira suplente de Canella na chapa ao Senado montada pelo próprio Flávio, que declarou “apoio 100%” ao aliado. Canella foi preso de novo em 15 de outubro, véspera da sabatina, suspeito de lavagem de dinheiro numa rede de postos de combustíveis. Também não lembrou a Medalha Tiradentes que Flávio concedeu, como deputado estadual, ao ex-capitão Adriano da Nóbrega, apontado como chefe de milícia e morto em 2020.

Outros temas ficaram de fora. A entrevistadora deixou claro que não perguntaria sobre o caso das rachadinhas. Não houve pergunta sobre a atuação de Eduardo nos Estados Unidos a favor de sanções contra o Brasil.

Também não se falou de Willer Tomaz, advogado e amigo de Flávio, alvo de busca da PF em agosto numa investigação sobre lavagem de dinheiro ligada às fraudes no INSS. Segundo registros da PF, uma empresa de apostas ligada a Tomaz pagou voos de Flávio pela Europa em 2025. O senador também aparece cadastrado como “usuário master” na conta bancária de uma empresa de Tomaz, o que as defesas atribuem a erro de cadastro.

Nem da ilha do Richarlison. O atacante da Seleção cobra publicamente de Flávio uma mansão em Angra dos Reis que diz ter comprado por cerca de 10 milhões de reais e perdido numa disputa judicial com o mesmo Willer Tomaz. “Devolve minha ilha”, escreveu o jogador. Flávio não foi parte no processo, mas o caso circula nas redes desde o começo de outubro. Com nove temas para cobrir em pouco tempo, a entrevistadora apontou as respostas evasivas, mas raramente insistiu.

O panelaço

Na noite em que Flávio pretendia brilhar sozinho nas redes, o deputado André Janones entrou ao vivo às 20h30, 45 minutos antes da sabatina, e reuniu cerca de 100 mil pessoas na transmissão. Pediu que os apoiadores batessem panela “sem dó” durante a entrevista, filmassem e postassem com a hashtag #ADilmaSeráVingada. Explicou que a ideia não era dar audiência ao adversário, já que a televisão não funciona como o algoritmo das redes, e sim mostrar à imprensa e ao país a força de quem se opõe a ele, como os panelaços contra Dilma Rousseff fizeram em 2015. Houve barulho em bairros de São Paulo, do Distrito Federal, de Fortaleza e do Rio de Janeiro. O exército de Janones conseguiu um feito, o de dividir as atenções da noite entre a sabatina e o panelaço.

Na mesma live, Janones deu o comando para a ação seguinte. Às 9h em ponto do sábado, 17 de outubro, os apoiadores deveriam postar fotos de verde e amarelo, com camisa da Seleção ou rosto pintado, fazendo o “L” de Lula. A ideia é que milhares de publicações ao mesmo tempo levem o algoritmo a tratar o assunto como um grande acontecimento e espalhem as imagens para além da bolha. Valia programar a postagem com antecedência e até gerar a foto com inteligência artificial. O objetivo declarado é tirar do bolsonarismo o uso exclusivo das cores da bandeira.