“Genocida” x “amigo”: posturas sobre Israel contrapõem Lula e Milei na ONU

25 de Set de 2026 - 11:30
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“Genocida” x “amigo”: posturas sobre Israel contrapõem Lula e Milei na ONU

Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e da Argentina, Javier Milei, costumam discordar em quase tudo, mas um tema em especial contrapõe com ainda mais força os dois mandatários: Israel. Isso ficou claro na Assembleia Geral da ONU, cujo debate de líderes de governo e Estado está sendo realizado esta semana em Nova York.

Enquanto Lula no seu discurso na terça-feira (22) acusou o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, de genocídio pela guerra na Faixa de Gaza, Milei destacou seu alinhamento com Israel na sua fala, no dia seguinte, e se encontrou com o primeiro-ministro.

“Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”, disse o petista no seu pronunciamento.

“Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes”, acrescentou, mencionando a corte que tem sido alvo de sanções do governo Donald Trump pelo mandado de prisão contra Netanyahu.

“A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade. Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses e palestinos possam viver em segurança”, afirmou Lula, citando a relatora das Nações Unidas acusada por EUA e Israel de viés antissemita.

Por sua vez, na quarta-feira (23), Milei criticou no seu discurso o Conselho de Direitos Humanos da ONU, que acusou de “votar sistematicamente contra Israel, ao mesmo tempo em que se calava diante do terrorismo islâmico e dos genocídios de cristãos na África”.

“Fizemos uma escolha geopolítica: alinhamo-nos sem ambiguidades ao Ocidente. Fizemos isso com os Estados Unidos e com Israel, países com os quais compartilhamos uma profunda afinidade de valores e uma complementaridade estratégica”, disse o presidente argentino.

“Por isso, repudiamos os ataques do regime iraniano ao Estado de Israel. Classificamos a Guarda Revolucionária Iraniana como organização terrorista, assim como continuamos buscando justiça pelos dois atentados que sofremos em solo argentino, em 1992 e 1994”, afirmou Milei, mencionando os atentados contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires e a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), encomendados pelo Irã ao grupo terrorista Hezbollah e que foram os ataques terroristas mais letais da história do país sul-americano.

Na quinta-feira (24), após a delegação do Brasil ter se juntado a um boicote contra o discurso de Netanyahu na ONU – atitude que o premiê israelense chamou de “covarde” –, o primeiro-ministro se encontrou com Milei em Nova York.

O presidente argentino chamou o premiê de “amigo” e a conta oficial do gabinete de Netanyahu no X destacou que Milei está atuando para melhor as relações de Israel com a América Latina, onde a direita tem vencido várias eleições nacionais e os novos mandatários têm restabelecido laços com Israel e rompido relações com o Irã.

“Ambos os líderes conversaram sobre a cooperação contínua entre seus países e a mudança estratégica positiva que Israel está vivenciando na América Latina, o que possibilita a ampliação dos Acordos de Abraão — liderada pelo presidente Milei — para aprofundar a cooperação em segurança e economia entre Israel e os países latino-americanos”, disse o gabinete, citando os acordos intermediados por Trump para normalização de relações diplomáticas com Israel.

Na viagem a Nova York, Milei recebeu da instituição Yeshiva Darchei Torah o prêmio Ohev Yisrael, pelo “exercício de sua liderança global na defesa do povo judeu e em sua luta contra o antissemitismo”, segundo comunicado da presidência argentina.

Já Lula acumula conflitos com Israel. Em agosto do ano passado, o governo Netanyahu anunciou que as relações com o Brasil estão sendo conduzidas em “um nível diplomático inferior”, depois que a gestão Lula não concedeu a permissão (chamada de agrément) ao indicado para ser embaixador israelense em Brasília, o diplomata Gali Dagan.

No anúncio, o governo de Israel acusou o Brasil de adotar uma “linha crítica e hostil” desde os ataques do grupo terrorista Hamas em outubro de 2023 que desencadearam a guerra em Gaza, postura que “se intensificou a partir do momento em que o presidente Lula comparou as ações de Israel às dos nazistas” no conflito, alegou a gestão Netanyahu.

Israel havia declarado o presidente brasileiro persona non grata em fevereiro de 2024 em razão dessas declarações e o acusou de antissemitismo.

Na sua viagem esta semana aos Estados Unidos, Lula não se encontrou com Trump, mas se reuniu com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, da ala socialista do Partido Democrata e desafeto de Netanyahu – que fez críticas ao mandatário nova-iorquino durante seu discurso ontem na ONU.