IA: o "PC do futuro" da Alibaba e o pesadelo dos consumidores
O boom das soluções generativas de IA (Inteligência Artificial) levou a uma escalada tresloucada de preços de componentes em todos os setores de tech, mas é o setor de computação pessoal quem vem sofrendo mais, com PCs, smartphones e tablets cada vez mais caros, devido à escassez de peças causada por fabricantes voltando seus esforços para data centers e clientes corporativos com bolsos fundos.
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Há um temor plenamente compreensível de que o mercado inteiro de PCs vai mudar por puro pragmatismo, abrindo mão do x86 e designs customizáveis em nome de modelos mais simples centrados em ARM, como a Apple já faz; em paralelo, movimentos da indústria que vêm minando a posse em prol do XaaS (Tudo como um Serviço) apontam para um futuro em que mesmo softwares e SOs não serão mais do que agentes rodando na nuvem.

O tal Qwen Book roda um modelo menor do Qwen localmente e até possui um SoC potente, mas não faz quase nada sem IA por trás (Crédito: Divulgação/Alibaba)
Pois foi a gigante Alibaba quem deu uma palhinha desse futuro funesto, ao apresentar um conceito de PC chamado Qwen Book, que não roda absolutamente nada fora do Qwen, o LLM (grande modelo de linguagem) da companhia.
Alibaba e o PC com IA no comando
Nos primórdios da computação, um termo comum era o do "terminal burro" (dumb terminal), um PC sem capacidade de processamento próprio, que dependia inteiramente de uma central (em redes internas) para operar mesmo as funções mais básicas; no tempo em que poder computacional era contado em kilobytes e cada um economizado fazia diferença, tais terminais eram úteis ao dar conta da entrada de dados em um sistema (controle de estoque, por exemplo) e não muito mais do que isso.
O Qwen Book, apresentado durante a Snapdragon Summit 2026 em Maui, no Hawaii, me passou essa mesma impressão. Previsto para ser lançado no fim de 2026 e inicialmente restrito à China, este é um 2 em 1 que apresenta um hardware até que não exatamente fraco: o processador é o Snapdragon 8 Elite Gen 5, o mesmo que equipou diversos dispositivos Android de ponta recentes, e em tese deve contar com pelo menos 12 GB de RAM, que o colocaria no patamar do Galaxy Z Fold 8, por exemplo.
Só que, exceto apps básicos como Terminal, Calculadora e Câmera, o Qwen Book não realiza nenhuma atividade fora do Qwen, mesmo estando offline. Quando sem acesso à internet, o dispositivo se restringe a um modelo mais "restrito" do LLM da Alibaba com 4 bilhões de parâmetros mas, uma vez conectado, ele pode acessar o massivo Qwen3.8-Max e seus mais de 2,4 TRILHÕES de parâmetros, sendo este o modelo disponível mais avançado da companhia chinesa.
Como ele funciona? O Qwen gerencia absolutamente tudo, da interface gráfica às funções mais básicas; o modelo 3.8Max permite a execução na nuvem de aplicativos do Windows, Linux e Android de forma simultânea, sem a necessidade de emular nada. O Qwen Book é apenas um terminal de acesso, e o usuário pode inclusive rodar aplicações de sistemas distintos simultaneamente, já que o hardware efetivamente não está executando nada, apenas exibindo respostas às solicitações.
A Alibaba não diz absolutamente NADA de forma oficial sobre o Qwen Book e vem podando quem tenta fuçar por baixo do capô: neste vídeo, o youtuber diz que recebeu "de duas a três broncas" por navegar pelo agente e exibir algumas funções como o gerenciador de tokens; aparentemente, as duas únicas telas sancionadas são a Home e o vídeo que mostra o Blender sendo comandado pelo agente (algo que ele também não deveria ter revelado, ao que parece).
Disclaimer: áudio em italiano, ative a tradução automática, contém muitos gestos de mãozinha:
O que a Alibaba diz se limita ao que chama de "OS as a harness", algo como agentes de IA assumindo todas as funções de um sistema operacional tradicional, em que todo o processamento pesado seria direcionado para a nuvem; nesse sentido, o PC não é diferente de um terminal burro do passado, uma unidade meramente para entrada e saída de dados.
O fato de o Qwen Book ser equipado com um SoC consideravelmente potente se justifica única e simplesmente para que o hardware seja capaz de rodar o modelo 4B do LLM de forma local, e apenas em um cenário quando estiver sem acesso à internet; tudo o mais é gerenciado pelo 3.8-Max, o usuário só tem que solicitar algo e o LLM entrega, tirando assim todo o controle do dispositivo das mãos do consumidor.
A bem da verdade o Qwen Book ainda não está pronto, a própria Alibaba admitiu isso a alguns criadores de conteúdo e jornalistas presentes no Snapdragon Summit 2026, mas isso não impede a gigante chinesa de chutar alto: por não estar limitado a processamento local, agentes podem informar o andamento de solicitações por meio de uma tela secundária na traseira, logo abaixo da câmera, quando o 2 em 1 estiver conectado ao teclado e fechado.
Da mesma forma, a Alibaba afirma que o Qwen Book, através do Qwen3.8-Max, pode "programar apps inteiros do zero via comandos de texto", o sonho molhado de qualquer vibe coder que se acha o novo Alan Turing, Sophie Wilson, Dennis Ritchie ou Ken Thompson.
O grande problema dessa proposta é o estado atual do mercado: com fabricantes de memórias focando apenas em IA de grande escala e data centers, a Nvidia adiando a introdução de novas GPUs domésticas para dar total atenção a se manter como a companhia mais valiosa do mundo (não graças à Glorious PC Gamer Master Race, é bom lembrar), e Satya Nadella obcecado ao extremo com soluções generativas na Microsoft, o que sobra para o consumidor final?
A Apple meio que já deu uma dica, x86 e soluções mais complexas serão preteridas em prol de designs mais simples baseados em ARM, e a customização será reduzida ao máximo ou eliminada completamente. No entanto, uma evolução para agentes como SOs não só tira a autonomia do usuário, mas também sugere que, num sentido prático, produtos para o mercado consumidor não precisam ser potentes.
Tudo o que eles têm que ser são terminais burros, telas com teclados para solicitações a LLMs que executarão tudo na nuvem. Tudo o que você precisar, tudo o que quiser rodar, todo app, serviço ou game que precisar usar, será feito por agentes de IA.

Qwen Book "rodando" o Blender via Qwen3.8-Max, em um ambiente muito bem controlado, já que é um vídeo (Crédito: Kyle Barr/Gizmodo)
Meses atrás, o CEO da companhia de laptops customizáveis Framework, Nirav Patel, pintou um cenário em que grandes companhias, como forma de cortar custos de produção e manter as margens, migrarão para um futuro, em que o poder computacional será em grande parte transferido para a nuvem, e o PC como existe hoje deixará de existir:
“O PC na nuvem tem um impacto econômico cada vez maior do que o PC que temos em mãos. Isso significa que, na medida em que houver restrições no fornecimento que alimenta ambos, a nuvem sempre será mais lucrativa.
Temos observado isso no rápido aumento dos custos de chips e de todos os dispositivos que dependem deles, na transição da propriedade para planos de assinatura, e na ascensão de sistemas fechados em detrimento de um ecossistema aberto.
O que isso significa? Que a indústria está pedindo para que você não possua nada e seja feliz.”
Durante a CES 2026, o chefe do setor comercial de dispositivos inteligentes da Lenovo, Steve Long, disse ao Gizmodo não acreditar que tudo será executado na nuvem, mas também não vê mais sentido em tudo rodando localmente, porque a conta (para os fabricantes) não fecha; para ele, o futuro será uma solução híbrida, que a Alibaba demonstrou pela primeira vez como poderá se desenrolar:
Haverá algum processamento local mas, no que depender das companhias, mirando principalmente em data centers e grandes clientes, produtos para o consumidor final ficarão relegados a terminais simples, em que agentes de IA assumirão o controle de tudo e, claro, gerando lucros com tokens de acesso para a execução de tarefas.
Fonte: Gizmodo
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