Doação de órgãos: uma conversa hoje pode mudar o futuro de uma criança

26 de Set de 2026 - 08:30
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Doação de órgãos: uma conversa hoje pode mudar o futuro de uma criança

Há 30 anos, um diagnóstico de insuficiência renal, hepática ou cardíaca grave na infância significava, muitas vezes, uma perspectiva de vida limitada. Hoje, o transplante pode mudar essa história. Mais do que substituir um órgão que deixou de funcionar, o procedimento pode dar à criança a chance de crescer e construir um futuro.

Rim, fígado e coração estão entre os principais órgãos transplantados em crianças. As causas que levam ao procedimento são diversas: doenças renais que evoluem para insuficiência, doenças hepáticas graves, malformações e cardiopatias congênitas, entre outras. O que elas têm em comum é o impacto profundo na infância, com internamentos e limitações para ir à escola ou brincar.

Em 2025, o Brasil realizou 586 transplantes pediátricos. Apesar do avanço em relação aos 555 de 2024, 50 crianças morreram enquanto aguardavam por um órgão. A medicina avançou, mas o sucesso dos programas de transplante continua dependendo de algo que a tecnologia não pode oferecer: órgãos disponíveis para doação.

O Hospital Pequeno Príncipe vive essa realidade todos os dias. A instituição, que é referência nacional em alta complexidade, fez, em 2025, 44 transplantes de órgãos sólidos: 12 cardíacos, 21 hepáticos e 11 renais.

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Os 12 procedimentos cardíacos representaram 20% de todos os transplantes de coração, em crianças, realizados no Brasil no ano passado, ou seja, um a cada cinco. Um transplante vai além de uma cirurgia, é uma linha de cuidado que começa antes do procedimento e se estende por longo prazo.

No transplante pediátrico, existe um desafio adicional: encontrar um órgão compatível e adequado ao tamanho da criança. Quanto menor o paciente, mais restritas podem ser as opções disponíveis.

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No caso do fígado e do rim, a doação em vida pode ampliar as possibilidades de transplante. Em 2025, mais da metade dos transplantes hepáticos pediátricos realizados no país contou com doadores vivos. No transplante renal infantil, porém, 92% dos procedimentos utilizaram órgãos de doadores falecidos, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

+Leia também: Doar é preciso: tudo sobre o universo dos transplantes de órgãos

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Falar de transplante é falar de doação. Em 2025, 45% das entrevistas realizadas com familiares de potenciais doadores terminaram em recusa à doação. A informação e o diálogo sobre o desejo de ser doador precisam vir antes do momento de luto.

Um único doador pode salvar até oito vidas e beneficiar outras pessoas por meio da doação de tecidos. A constatação da morte encefálica segue critérios médicos rigorosos e protocolos definidos pela legislação brasileira e por normas médicas específicas. No Brasil, a doação após a morte depende da autorização da família. Por isso, o tema precisa fazer parte das conversas sobre vida, saúde e solidariedade.

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Os números reforçam a importância desse diálogo. O total de doadores pediátricos vem caindo: passou de 274, em 2023, para 223, em 2024, e chegou a 211 em 2025, segundo a ABTO. A disponibilidade de órgãos é um dos fatores que determinam quanto tempo crianças permanecerão à espera de um transplante.

Depois do transplante, a rotina exige cuidados, imunossupressores e acompanhamento médico regular. Mas as crianças conseguem retomar a escola, as brincadeiras e o convívio com os amigos e a família.

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Para quem trabalha com transplante pediátrico, ver uma criança voltar às atividades próprias da idade ajuda a traduzir o que as estatísticas não conseguem expressar. A doação pode significar desenvolvimento, qualidade de vida e novas possibilidades para o futuro.

*Cassio Fon Ben Sum é cardiologista pediátrico e diretor-técnico do Hospital Pequeno Príncipe.

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