O câncer me ensinou que eu não preciso dar conta de tudo
Eu sempre tive uma vida normal. Trabalhava, cuidava da minha família, fazia meus exames preventivos e seguia minha rotina sem imaginar que alguma coisa pudesse mudar de repente.
Foi por isso que, quando comecei a perceber um líquido saindo da minha mama direita, em abril de 2025, estranhei. A secreção aparecia de vez em quando, principalmente pela manhã, e tinha uma aparência curiosa, parecida com um cristalzinho de mel. Eu não sabia o que era, mas sabia que aquilo não era normal e que algo estava errado.
Como sou da área da saúde, procurei atendimento assim que percebi que aquilo estava se tornando mais frequente. Fiz mamografia e ultrassom, mas os exames não mostraram nenhuma alteração que explicasse a secreção.
Como o sintoma continuava e começava a fazer parte dos meus dias de uma maneira que me incomodava cada vez mais, insisti na investigação e repeti os exames, mas novamente não apareceu a causa.
A lesão estava dentro do ducto mamário, em uma região mais difícil de ser identificada pelos exames convencionais. Foi então que minha irmã, que trabalha no Instituto Nacional de Câncer, insistiu para que eu fizesse uma ressonância. Depois vieram a biópsia e, finalmente, a confirmação do carcinoma.
Sou do Rio de Janeiro, onde minha família continua vivendo, mas há cinco anos moro em São Roque, no interior de São Paulo, com meu filho e meu esposo. Quando recebi a confirmação do câncer, minha mãe, que tem 85 anos, veio do Rio para São Paulo, e minha irmã também esteve comigo, primeiro para a cirurgia e depois nos dias seguintes.
Foi naquele momento que comecei a perceber que não atravessaria aquilo sozinha. Até então, estava acostumada a cuidar da minha vida, do meu trabalho e da minha família, mas o tratamento foi mudando essa lógica aos poucos.
A cirurgia aconteceu em fevereiro deste ano. Retirei parte da mama direita e fiz um procedimento na outra para manter a simetria. Eu imaginava que, depois da cirurgia, faria radioterapia e seguiria adiante, mas o resultado da análise do material retirado mostrou que eu também precisaria fazer quimioterapia. Foi aí que senti mais medo.
O diagnóstico já tinha sido assustador, mas eu tinha uma imagem muito forte do que significava fazer quimioterapia e não sabia como meu corpo reagiria. Chorei durante um dia inteiro e, no dia seguinte, comecei a pensar em como conseguiria encaixar aquilo na vida que tinha antes do câncer.
Eu teria sessões semanais durante meses e morava a mais de uma hora do local do tratamento. Meu marido, que tinha limitações motoras depois de um AVC, não podia dirigir, meu filho tem apenas 17 anos e minha mãe também não dirigia. Por isso, eles não poderiam me acompanhar nas sessões.
Foi quando percebi que minha agenda, que sempre esteve nas minhas mãos, já não era mais só minha. Eu não sabia quais dias conseguiria trabalhar, quem poderia me levar, quando precisaria fazer exames ou como resolveria cada uma das burocracias que apareciam pelo caminho.
Foi quando as amigas do trabalho, amigas de São Roque e mães dos amigos do meu filho se organizaram para me levar e me acompanhar nas sessões de quimioterapia.
Criaram uma escala de caronas e eu brincava que tinha virado criança e ganhado minhas “babás”. Meus irmãos continuavam acompanhando do Rio, minha mãe me dava suporte nas tarefas de casa e, no trabalho, também encontrei compreensão para reorganizar meus horários, trabalhar de casa quando necessário e descansar nos dias em que meu corpo pedia.
Havia uma outra parte daquela rotina que eu nem percebia o quanto pesava até deixar de precisar cuidar dela. Minha concierge, disponibilizada pela clínica onde realizei o meu tratamento, a Croma Oncologia, conhecia meus horários, sabia os dias do rodízio dos carros e organizava consultas e exames de acordo com a minha disponibilidade, sem nem me consultar.
Quando surgia uma autorização, um medicamento ou qualquer outra questão burocrática, ela já sabia quem procurar e como encaminhar. Eu não precisava mais descobrir sozinha como resolver cada problema.
Foi aí que entendi que aquele cuidado ia muito além da logística do tratamento.
A copeira já sabia que eu não gostava de água gelada, o segurança me abraçava todos os dias quando eu chegava e ia embora, e a enfermagem já sabia que eu precisava de compressa de água quente para ajudar a puncionar a minha veia em dias frios, além disso me recebiam com abraços apertados todos os dias. Minha oncologista que estava sempre disponível me dando segurança e suporte.
Eram gestos simples, mas que faziam diferença porque mostravam que eu era vista como pessoa, e não apenas como paciente. Em uma das sessões, fizeram até uma festa junina para mim, levando comida e chapéu para dentro da sala porque eu não podia sair. Eu continuava com a mesma vida e as mesmas responsabilidades, mas não precisava mais cuidar de tudo sozinha.
A quimioterapia teve seus imprevistos, inclusive um problema vascular no braço esquerdo que fez algumas sessões serem adiadas e levou à descoberta de uma predisposição para esse tipo de complicação.
Depois vieram 15 sessões de radioterapia, encerradas em 1º de setembro. Ainda tenho consultas e exames pela frente e não gosto de dizer que estou curada, porque isso cabe aos meus médicos dizerem. O que posso dizer é que atravessei uma fase que, no começo, parecia muito maior do que eu conseguiria suportar.
Sempre fui muito prática e costumo pensar que existem duas opções, ou você fica chorando pelo leite derramado ou limpa o leite e segue em frente. Só que, durante esses meses, descobri que eu não precisava ser a única pessoa responsável por limpar tudo.
Descobri que também existe força em deixar que alguém cuide de você, em aceitar que outra pessoa organize uma consulta, resolva uma autorização, ofereça uma carona ou simplesmente saiba como você gosta da sua água ou quando eu precisava de um abraço.
Quando penso nesses oito meses, não quero lembrar apenas do câncer e de tudo o que ele exigiu de mim. Quero lembrar principalmente das pessoas que seguraram uma parte desse peso, das conversas nas estradas com as minhas “babás”, do meu filho que me acompanhou sempre que podia, da minha mãe que largou tudo para ficar comigo, dos meus parentes que vieram do Rio, das amigas de São Roque e do trabalho que reorganizaram suas agendas para caber na minha, da minha familia e dos amigos que rezaram por mim e dos profissionais da Croma Oncologia que fizeram com que eu pudesse atravessar o tratamento sem precisar pensar em cada detalhe.
Eu ainda não sei exatamente o que vem pela frente, mas uma coisa mudou para sempre. Eu achava que precisava dar conta de tudo para ser forte. Hoje sei que também é preciso saber quando deixar que alguém cuide de você. E, nessa jornada, eu tive a sorte de encontrar pessoas que fizeram com que eu não precisasse atravessá-la sozinha.
* Adriana Carvalho tem 54 anos e é farmacêutica.