Ida de Flávio aos EUA pode reacender tensão entre Lula e Trump no início do quarto mandato
A ida do senador Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos, logo após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a apreensão de seus passaportes e proibi-lo de deixar o Brasil, pode abrir uma nova frente de tensão entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump às vésperas do quarto mandato do petista.
O episódio ocorre dois dias depois da derrota de Flávio na eleição presidencial brasileira e um dia após o presidente americano dizer a jornalistas nos EUA que a eleição brasileira "pareceu fraudada", comentário que foi reforçado durante discurso do republicano no Texas nesta terça-feira (27).
Flávio Bolsonaro teria viajado com a esposa e as duas filhas e, segundo a imprensa americana, o governo dos EUA pretende conceder vistos de entrada para eles. O Departamento de Estado foi procurado pela Gazeta do Povo para comentar o caso, mas não respondeu à demanda até a publicação da reportagem. O Itamaraty não quis comentar o caso.
A advogada de imigração Ingrid Domingues-McConville, que atua nos Estados Unidos e integra a Ordem dos Advogados da Flórida, explicou à reportagem que um eventual pedido de asilo, se Flávio o fizer, teria de ser fundamentado em alegações de perseguição política, acompanhadas de elementos que sustentem o caso. Segundo ela, a concessão dependerá da análise das circunstâncias individuais e das provas apresentadas às autoridades americanas.
A viagem de Flávio aos EUA acrescenta um novo ponto de complicação à já conturbada relação entre Lula e Trump, marcada até aqui por sanções americanas contra autoridades do Judiciário brasileiro e o tarifaço contra produtos brasileiros. O embate mais recente foi no campo diplomático: o Departamento de Estado dos EUA revogou o visto da embaixadora do Brasil, Maria Luiza Viotti, em razão da demora do governo brasileiro em aprovar o novo embaixador do governo americano no Brasil, Daniel Perez, indicado por Trump.
Analistas consultados pela reportagem avaliam que a presença de Flávio nos EUA pode aumentar a pressão de aliados da família Bolsonaro por novas medidas contra integrantes do STF e até mesmo sobre o governo Lula.
Uma eventual escalada também poderia afetar as negociações comerciais entre os países e os interesses do governo Trump em relação à exploração e comercialização de terras raras e à segurança regional. Durante a campanha presidencial brasileira, esses interesses parecem ter pesado na decisão de Trump de não expressar apoio público a Flávio.
Eventual proteção americana a Flávio pode provocar nova crise diplomática
A ida de Flávio aos Estados Unidos merece atenção, sobretudo, pela possibilidade de que autoridades americanas tenham participado da operação. Para o economista e doutor em Relações Internacionais Igor Lucena, é improvável que o senador tenha deixado o país sem alguma perspectiva de apoio político nos EUA. A concessão de asilo ou proteção, caso ocorra, seria lida como sinal de que Washington considera injusta a decisão do Judiciário brasileiro e vê Flávio como alvo de perseguição política. “Isso poderia gerar uma crise institucional e diplomática sem precedentes”, afirma.
Esse cenário depende de um passo formal. Segundo Clarita Maia, advogada especialista em Direito Internacional e consultora legislativa do Senado Federal, uma crise de maiores proporções só se configura se Washington assumir oficialmente algum compromisso de proteção ao senador. Para o analista internacional Cezar Roedel, mestre em Relações Internacionais, isso indicaria que os EUA estariam dispostos “a ultrapassar o campo das manifestações diplomáticas e oferecer proteção concreta a uma liderança da oposição”.
Ainda assim, uma ruptura não é o cenário mais provável. Marco Aurélio da Silva, consultor de negócios internacionais e professor de Comércio Exterior e Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), lembra que os interesses econômicos americanos no Brasil limitam uma escalada prolongada. Clarita Maia projeta, nesse quadro, “um pragmatismo mais volátil, sujeito a oscilações de curto prazo, mas não uma ruptura estrutural”, diante dos novos focos de tensão: o discurso de fraude de Trump, a eventual proteção a Flávio e o inquérito conduzido por Dino sobre financiamento estrangeiro de uma organização americana à campanha de Flávio
Flávio nos EUA pode fortalecer articulação contra o governo Lula
A permanência de Flávio nos Estados Unidos deve reforçar a atuação política da família Bolsonaro no exterior. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, já vive no país desde março de 2025 e mantém contatos com parlamentares republicanos e integrantes do movimento conservador americano.
Para Marco Aurélio da Silva, consultor de negócios internacionais e professor de Comércio Exterior e Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), a presença dos dois irmãos no país poderá facilitar o acesso a integrantes da administração Trump e a congressistas interessados nas denúncias da oposição brasileira, aumentando a pressão sobre autoridades do STF e estimulando novas iniciativas políticas contra o governo Lula.
“Essa presença física facilitará a apresentação de memoriais, denúncias e pedidos formais de audiência na Casa Branca e no Capitólio com o objetivo de questionar a lisura e a legitimidade do pleito brasileiro”, disse.
Marco Aurélio observa, contudo, que o Departamento de Estado americano ainda precisa considerar as relações econômicas e diplomáticas com o Brasil, independentemente de quem esteja no poder. Segundo os analistas, caso Flávio receba proteção do governo americano, haverá dificuldades na cooperação jurídica entre Brasília e Washington e um agravamento das tensões diplomáticas entre os dois países.
“As consequências diplomáticas para esse cenário incluem o congelamento de pautas bilaterais de cooperação judicial e policial, o tensionamento das discussões sobre extradição de cidadãos investigados e o aprofundamento da desconfiança mútua entre Brasília e Washington. A relação entre os governos passará a ser fortemente intermediada por atritos públicos e contestações em organismos internacionais de direitos humanos”, disse Marco Aurélio.
Novas sanções americanas
Os analistas consultados pela reportagem apontaram ainda que existe a possibilidade de o governo Trump voltar a sancionar Alexandre de Moraes ou outras autoridades brasileiras.
Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu Moraes na lista de sancionados pela Lei Magnitsky. A legislação permite impor restrições financeiras a estrangeiros acusados pelo governo americano de violações graves de direitos humanos ou corrupção. As medidas foram posteriormente estendidas à esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, e ao Instituto Lex, controlado pela família. Em dezembro daquele ano, os três foram retirados da lista de sancionados. Outros ministros do STF, entre eles Moraes, também tiveram seus vistos revogados.
Clarita lembra que o chanceler Mauro Vieira atribuiu a retirada das sanções a uma negociação direta entre Lula e Trump, realizada durante um encontro na Malásia. Para ela, voltar a sancionar Moraes significaria desfazer um entendimento político entre os dois presidentes.
A possibilidade das sanções, contudo, permanece aberta, apontou a analista, já que a lei americana permite que o Executivo dos EUA adote sanções individuais sob a Lei Magnitsky sem depender de autorização do Congresso brasileiro ou de qualquer decisão de seus tribunais.
O cientista político Leandro Gabiati, professor do Ibmec Brasília, avalia que a ordem de Alexandre de Moraes para apreender os passaportes de Flávio tem potencial para mobilizar aliados de Trump para a retomada dessas medidas, mas lembra que, para Trump, o custo de uma escalada é maior porque Lula acaba de ser reeleito.
Nova crise poderia afetar negociações comerciais entre Brasil e EUA
O caso Flávio pode ter reflexos diretos sobre as negociações comerciais em curso entre o Brasil e os EUA, um dos grandes desafios deste quarto mandato de Lula.
Em julho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciou uma tarifa de 25% sobre determinadas importações do Brasil, depois de uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras. Outra tarifa de 12,5%, relacionada ao combate ao trabalho forçado, também passou a atingir mercadorias nacionais. Dependendo do produto, as sobretaxas podem ser somadas, elevando a tarifa adicional a 37,5%.
Em agosto, Lula e Trump conversaram por telefone para discutir a retomada das negociações comerciais. No fim de setembro, os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, encontraram-se com o representante comercial americano, Jamieson Greer. Os governos concordaram em criar um grupo de trabalho para buscar soluções para as divergências comerciais. A reeleição de Lula e os acontecimentos desta semana colocam essas negociações diante de um novo cenário político.
Para Marco Aurélio da Silva, as negociações econômicas não deverão ser abandonadas mesmo diante de novos confrontos políticos.
"A tendência principal não é a busca por um confronto institucional prolongado, mas sim a aplicação de uma diplomacia transacional, na qual Washington utilizará tarifas e acesso a mercados como instrumentos de barganha econômica", afirma o professor.
O caso Flávio, contudo, pode aumentar as divergências dentro do governo americano. Segundo os analistas, de um lado, integrantes mais próximos da agenda conservadora poderão defender sanções e proteção a Flávio. De outro, representantes interessados em comércio, investimentos e estabilidade regional poderão tentar preservar as negociações com o governo Lula. Marco Aurélio considera que esse conflito de interesses poderá influenciar a intensidade da resposta americana. O resultado, segundo ele, dependerá da decisão de Trump sobre até onde deseja levar o confronto.
Clarita Maia considera que o pragmatismo econômico poderá continuar orientando parte da relação bilateral entre os governos Lula e Trump neste novo mandato do petista, embora os novos acontecimentos envolvendo Flávio Bolsonaro possam dificultar as negociações entre os dois governos.
Os Estados Unidos continuam sendo um dos principais destinos das exportações brasileiras. Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil vendeu US$ 27,46 bilhões ao mercado americano, uma queda de 6,5% em relação ao mesmo período do ano passado. As importações de produtos dos EUA chegaram a US$ 31,79 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Outro possível foco de possível tensão entre os dois governos surgiu nesta terça-feira (27), quando o ministro Flávio Dino, do STF, determinou que a Polícia Federal investigue suspeitas de financiamento estrangeiro à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. A apuração envolve possíveis tratativas com a Rockbridge Network, organização conservadora americana, e eventuais contrapartidas relacionadas à exploração de terras raras e minerais críticos brasileiros. A assessoria do senador negou ter recebido recursos financeiros ou estrutura estrangeira.
"Caso a investigação alcance organizações ou pessoas próximas à administração Trump, o episódio poderá ampliar as divergências entre Washington e o STF, com possíveis repercussões diplomáticas para o governo Lula", afirma Cezar Roedel.
Interesse americano em terras raras também entra na disputa
As terras raras estão entre os principais interesses econômicos dos Estados Unidos na relação com o governo Lula. Mesmo diante da possibilidade de novos atritos diplomáticos entre Brasília e Washington, o governo Trump busca ampliar o acesso aos minerais críticos brasileiros como parte de sua estratégia para reduzir a dependência da China nesse setor.
Esses recursos são utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos, baterias, motores elétricos e sistemas militares. O Brasil, que possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, ocupa uma posição estratégica nos planos americanos de diversificar seus fornecedores.
O interesse de Washington já se manifesta em investimentos no país. Em setembro, a companhia americana USA Rare Earth concluiu uma operação para comprar a mineradora Serra Verde, responsável pela produção de terras raras em Goiás. No mesmo mês, Lula sancionou uma lei que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação busca ampliar a exploração, o beneficiamento e a industrialização desses recursos no território brasileiro.
Para Bárbara Neves, doutora em Relações Internacionais e coordenadora de internacionalização da Universidade Positivo, o interesse americano nas riquezas naturais brasileiras continuará sendo um fator importante na condução das relações bilaterais entre EUA e Brasil, independentemente da vitória de Lula.
Escudo das Américas mantém divergências sobre segurança regional
Uma das principais consequências da reeleição de Lula para a política regional americana está relacionada ao Escudo das Américas, iniciativa lançada por Trump em março deste ano para ampliar a cooperação contra o narcotráfico, os cartéis e outras organizações criminosas. Lula não colocou o país no Escudo, diferentemente de Flávio, que prometeu durante a campanha presidencial inserir o país na iniciativa.
Em junho, o governo Trump formalizou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, decisão que encontrou resistência no governo Lula.
Para Clarita Maia, a permanência de Lula no poder limita o alcance da estratégia americana na região, embora não inviabilize o funcionamento do Escudo. Segundo a especialista, a ausência do Brasil no Escudo representa uma dificuldade para Washington não apenas pelo peso econômico do país, mas também por sua posição geográfica. O território brasileiro faz fronteira com Colômbia, Peru e Bolívia, três dos maiores produtores mundiais de cocaína, e ocupa uma posição estratégica nas rotas comerciais e de transporte do Atlântico Sul.
Marco Aurelio afirmou que a derrota de Flávio Bolsonaro no Brasil dificulta os planos de Trump de ampliar o alinhamento político na região, mas não retira totalmente de Washington a capacidade de pressionar o governo brasileiro.
"Washington perde a garantia de uma parceria irrestrita na agenda geopolítica regional e em órgãos multilaterais, mas preserva forte capacidade de exercer pressão econômica e mantém canais abertos com parlamentares conservadores e governadores de oposição no Brasil", afirma.