Osteoporose: por que é preciso agir antes da primeira fratura
Quando uma pessoa descobre que tem osteoporose somente depois de sofrer uma fratura, parte importante da oportunidade de prevenção já ficou para trás.
É justamente aí que reside uma das contradições dessa doença: temos cada vez mais conhecimento sobre fatores de risco e opções de cuidado, mas ainda chegamos tarde para muitos pacientes.
A osteoporose evolui silenciosamente e, em muitos casos, só se torna evidente após uma fratura por fragilidade, aquela que ocorre depois de um trauma de baixa energia, como uma queda da própria altura, ou em uma situação que normalmente não causaria uma fratura.
A dimensão do problema ajuda a entender sua urgência. No mundo, ocorrem anualmente até 37 milhões de fraturas por fragilidade em pessoas com mais de 55 anos, o equivalente a cerca de 70 fraturas por minuto.
Estima-se ainda que aproximadamente 500 milhões de homens e mulheres com 50 anos ou mais vivam com osteoporose.
Os sinais de alerta para osteoporose
Por isso, reconhecer os fatores de risco é uma das principais oportunidades para mudar a trajetória da doença antes da primeira fratura.
Ter sofrido uma fratura após os 50 anos, perder mais de 4 cm de estatura, apresentar baixo índice de massa corporal, usar glicocorticoides por período prolongado, ter menopausa precoce, fumar ou possuir histórico familiar de osteoporose ou fratura de quadril são sinais de alerta.
Algumas doenças, entre elas o diabetes, também podem elevar o risco, conforme o perfil clínico de cada pessoa. Esses fatores não confirmam o diagnóstico, mas indicam a necessidade de avaliação por um profissional de saúde.
Por que tantos brasileiros ficam sem tratamento
No Brasil, a distância entre risco, diagnóstico e tratamento ainda é expressiva.
Um relatório elaborado pela International Osteoporosis Foundation em colaboração com especialistas brasileiros estima que cerca de 400 mil fraturas por fragilidade ocorram por ano no país e que aproximadamente 60% das pessoas em risco não recebam tratamento.
Entre pacientes de alto risco, apenas 20% tiveram tratamento farmacológico imediatamente após uma fratura por fragilidade.
Além de iniciar a terapia, é importante mantê-la conforme a orientação profissional: em mulheres que aderiram ao tratamento por pelo menos um ano, maior adesão esteve associada a menor ocorrência de fraturas.
+Leia também: Suplementos de cálcio e vitamina D não evitam problemas ósseos, diz estudo com 154 mil pessoas
Uma fratura aumenta o risco de outra
Esse cenário é especialmente preocupante porque uma fratura por fragilidade é um forte marcador de risco para outra.
Após o primeiro evento, o risco de nova fratura é maior, sobretudo nos dois anos seguintes; em mulheres de 50 a 80 anos, ele pode ser cinco vezes maior no primeiro ano do que entre aquelas sem fratura prévia.
A primeira fratura, portanto, deve funcionar como um alerta para investigação e prevenção secundária sem demora.
O olhar preventivo também passa pela redução do risco de quedas. Dados dos Estados Unidos mostram que mais de uma em cada quatro pessoas com 65 anos ou mais cai a cada ano e que uma queda prévia duplica a chance de um novo episódio.
Embora esses números não devam ser transpostos automaticamente para toda a população brasileira, eles ilustram a relevância de reconhecer e reduzir fatores que favorecem quedas, inclusive no ambiente doméstico.
O impacto de uma fratura de quadril na autonomia
As consequências ajudam a explicar por que esse desafio exige atenção. Após uma fratura de quadril, a mortalidade no primeiro ano pode chegar a 20% a 24%; entre os sobreviventes, cerca de 40% podem permanecer incapazes de caminhar de forma independente.
Além disso, apenas cerca de 40% recuperam plenamente a capacidade de realizar as atividades da vida diária de forma independente.
Discutir osteoporose, portanto, vai muito além da densidade mineral óssea. Significa falar de autonomia, qualidade de vida, prevenção de novas fraturas e capacidade dos sistemas de saúde de oferecer avaliação, tratamento apropriado e continuidade do cuidado no momento certo.
No Brasil, esse debate ganha relevância adicional: sem mudanças nas políticas de saúde, estima-se que o número de fraturas por fragilidade cresça 60% entre 2015 e 2030, acompanhando o envelhecimento da população.
Novos tratamentos e possibilidades
Nas últimas décadas, o desenvolvimento de tratamentos com diferentes mecanismos de ação, incluindo medicamentos biológicos, ampliou as possibilidades terapêuticas para a osteoporose e buscou responder a necessidades ainda não atendidas.
Ainda assim, custo, disponibilidade e organização do cuidado podem limitar o acesso a terapias biológicas. Nesse contexto, o avanço dos biossimilares representa uma das estratégias possíveis para ampliar alternativas e favorecer a sustentabilidade dos sistemas de saúde.
Biossimilares são medicamentos biológicos equivalentes a um medicamento biológico de referência já aprovado.
Para obter aprovação, devem demonstrar, por meio de um exercício abrangente de comparabilidade, que não apresentam diferenças clinicamente significativas em qualidade, segurança e eficácia em relação ao medicamento de referência.
Eles não são cópias idênticas nem equivalentes aos genéricos, porque medicamentos biológicos são estruturas complexas produzidas a partir de células vivas.
A Organização Mundial da Saúde reconhece os biossimilares como instrumentos relevantes para ampliar o acesso a medicamentos biológicos essenciais, especialmente em países nos quais os orçamentos de saúde são mais restritos.
Esse potencial, entretanto, depende de avaliação regulatória robusta, produtos com qualidade assegurada e políticas que transformem concorrência em acesso efetivo para os pacientes.
A incorporação dessas alternativas deve obedecer aos mesmos princípios de uso responsável aplicáveis aos medicamentos biológicos.
Isso inclui farmacovigilância, registro das suspeitas de eventos adversos e identificação do produto pelo nome comercial e pelo número do lote, de modo a assegurar sua rastreabilidade.
Prevenir antes da primeira fratura
O envelhecimento da população torna essa discussão cada vez mais urgente. No Brasil, será preciso identificar o risco mais cedo, prevenir mais fraturas e, ao mesmo tempo, construir caminhos sustentáveis para ampliar o acesso aos tratamentos de que os pacientes necessitam.
A expansão dos biossimilares pode ajudar a abrir parte desses caminhos, mas nenhuma inovação substitui o essencial: reconhecer o risco antes da fratura, diagnosticar corretamente, definir o tratamento de forma individualizada e garantir continuidade ao cuidado.
Se esperarmos pela primeira fratura para falar de osteoporose, continuaremos chegando tarde. A oportunidade está justamente em fazer com que prevenção, diagnóstico e acesso avancem juntos.
* Cleber Sato é diretor de assuntos médicos e regulatórios da Sandoz do Brasil