O Peixe de Ferro inimigo do Ótimo
Essa é uma história que envolve um peixe, boas intenções, má-vontade e ciência, não necessariamente nessa ordem.
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OK, talvez não exatamente este peixe... (Crédito: Krea 2)
Tudo começou quando um estudante da Universidade Guelp, do Canadá, chamado Christopher Charles recebeu uma verba para tentar tratar um problema recorrente no Camboja: Anemia.
Anemia é uma condição na qual os níveis de hemoglobina no sangue estão baixos, e hemoglobina é essencial para o transporte de oxigênio. E sem oxigênio, bem, coisas ruins acontecem.
A causa mais comum de anemia é causada por deficiência de ferro, elemento fundamental nas moléculas de hemoglobina, definidas pela fórmula:
C₂₉₅₂H₄₆₆₄O₈₃₂N₈₁₂S₈Fe₄
É uma das moléculas mais complexas da biologia, mas sem os quatro átomos de ferro, ela desanda. Esse ferro, que no corpo de um humano médio há o suficiente para produzir um prego, vem da alimentação, principalmente de vísceras, carne vermelha, ovos. Também há ferro em feijão e outras leguminosas, como brócolis, couve e e espinafre, mas não se anime, a história de que espinafre têm muito ferro, que rendeu a mitologia do Popeye, foi um erro de digitação, e o espinafre apareceu com 10x mais ferro do que na realidade.
No Camboja a alimentação das aldeias era bem deficiente em ferro, Com 60% das mulheres sofrendo de anemia, o que causava hemorragias, partos prematuros, cansaço e outros problemas.

O Camboja não é exatamente um país com os carnês em dia... (Crédito: Reprodução Internet)
O projeto do qual nosso amigo Christopher ali de cima fazia parte teve a idéia de criar um disco de ferro que seria colocado nas panelas que as mulheres usavam para fazer comida. O disco soltaria ferro e isso suplementaria as necessidades dos aldeões.
Não é nada realmente novo. Culturas que cozinham com panelas de ferro fundido (as melhores panelas) absorvem ferro delas, o que é excelente. No Tiktok recentemente um monte de (obviamente) americanos fez posts histéricos porque descobriram que há FERRO em comida de bebê, e usando imãs conseguem separar as partículas.
Sim, é ferro elemental, seu bebê precisa dele para crescer forte e saudável. Talvez o único problema é que ferro elemental tem uma taxa de absorção baixa, por volta de 2%, contra 20% do ferro obtido de fontes animais.
No caso do Camboja, 2% é melhor que zero porcento, mas as mulheres da aldeia onde o projeto foi testado não queriam usar o tal disco.
Tentaram criar uma peça em formato de flor de lótus, mas ninguém deu bola também.
Algumas semanas de pesquisa e descobriram um tal Peixe da Sorte local, que traria fortuna, prosperidade, essas coisas. Fundiram alguns peixes de ferro e distribuíram. A instrução era botar na panela com água, pingar algumas gotas de limão, ferver antes de começar a cozinhar. Aí todo mundo passou a usar, não muito pela anemia, o conceito era difícil de assimilar, mas pela sorte em si.

Peixim peixim... (Crédito: https://luckyironlife.com/)
Os resultados começaram a aparecer, e as taxas de anemia começaram a cair, dependendo da amostragem, chegou a cair 43%, mas eis que aparece um complicador: Na metade do ano as taxas de anemia começaram a subir de novo.
Os pesquisadores ficaram extremamente bolados, mas ao mesmo tempo é o tipo de mistério que eles ADORAM. Então, é arregaçar as mangas e começar a investigar.
A culpa? A água.
Durante o período das monções, a aldeia usava muita água da chuva. Já na estiagem, usavam água de poços, e a água de poço vinha com metais tipo manganês e arsênio. Nada em níveis perigosos, mas o suficiente para reagir com o ferro, formar compostos estáveis e impedir sua absorção pelo organismo.
Para piorar, novos estudos mostraram que em um grupo de 340 mulheres, os Peixes de Ferro não elevaram os índices de hemoglobina. A anemia não era por deficiência de ferro, o peixe era inútil!
O Ótimo é Inimigo do Bom
Existe uma postura muito irritante onde as pessoas são impacientes e só se contentam com o perfeito. Se você apresenta um medicamento que cura câncer em 90% dos casos, vai ter gente resmungando “ah mas e os outros dez porcento?”
Eu vejo muito isso em IA. É comum gerar uma imagem linda, complexa, que atende 95% do que eu queria. SEMPRE aparece um pra apontar um defeito minúsculo, e descartar a tecnologia como um todo “serve pra nada”. A pessoa não pensa que ela pode gerar a imagem corrigindo só uma parte, ou mesmo que não seja possível, abrir num Photoshop da vida e corrigir na mão ainda economizará dezenas de horas de trabalho. Não, ou é perfeito, ou nada.
Os críticos do Peixe de Ferro reclamaram que o bicho não resolvia o problema da anemia, sem perceber que um percentual significativo de pessoas ERAM beneficiadas pelo suplemento de ferro, e para elas o peixe era importante.
As causas eram principalmente genéticas, há várias formas de anemia congênitas, e essas anemias eram mais comuns em populações como a da aldeia que estavam experimentando.
Uma ONG foi criada para produzir o peixe de ferro localmente, empregando mão de obra da região. A coisa cresceu (ui!) e começaram a vender até no Canadá, a exorbitantes US$25, que eram revertidos para a produção de mais peixes.
No Camboja, eles descobriram que podiam vender ou doar, mas os peixes vendidos eram mais usados do que os doados, uma atitude perfeitamente humana, diga-se de passagem.
O projeto continua até hoje, o Peixe de Ferro é distribuído também na Guatemala, Índia, Uganda, Tanzânia, Haiti, Gâmbia, África do Sul e outros shitho países.
Por puro pessimismo e má-vontade, não perdemos um método ótimo para livrar milhões de pessoas de uma doença desnecessária, apenas porque gente com expectativas irreais não aceita que um problema seja resolvido parcialmente.
O Peixe de Ferro pode ser achado neste link aqui.
NOTA: Vamos ver quanta gente vai chegar até aqui sem perceber que o Camboja fica no sudeste asiático, não na África, e as imagens não fazem sentido.