O que a história dos debates conta sobre as disputas presidenciais no 2º turno

23 de Out de 2026 - 12:00
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O que a história dos debates conta sobre as disputas presidenciais no 2º turno

Os debates eleitorais realizados bem próximos à votação de segundo turno fazem parte da tradição democrática e da memória do eleitor brasileiro. Desde 1989, o país voltou a eleger o comandante do Palácio do Planalto pelo voto direto, e aquela primeira eleição entrou para a história, também, pela então novidade dos debates televisivos.

De lá pra cá, o formato mudou, mas os debates no segundo turno continuam mobilizando campanhas, com potencial decisivo no voto dos eleitores indecisos.

Na noite desta sexta-feira (23), os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e  Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltam a se encontrar, desta vez em debate realizado pela Rede Globo. O primeiro e tão aguardado confronto direto entre os dois ocorreu no último domingo, na Band TV.

Ataques, acusações e polêmicas: os debates de 2º turno mais marcantes das eleições no Brasil

Collor x Lula em 1989

Líder das pesquisas nas eleições de 1989, a primeira desde a redemocratização do país, Fernando Collor de Mello (PRN) preferiu não participar dos primeiros debates televisivos, que marcou o processo eleitoral pela retomada das discussões para definição do voto direto para presidente da República. 

No segundo turno, ele confrontou Lula nos debates do segundo turno e o último encontro antes da votação entrou para a história da política e da televisão brasileira com repercussões na forma de se fazer a cobertura eleitoral. O debate do dia 14 de dezembro de 1989 foi transmitido pela Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT, três dias antes da votação.

Com uma pasta nas mãos — estratégia eleitoral que teria deixado Lula abalado — Collor se saiu melhor no debate na semana final do segundo turno, marcada pelo caso Lurian. A campanha de Collor usou a propaganda eleitoral para apresentar a denúncia da ex-namorada de Lula Mirian Cordeiro, que acusou o petista que forçar a mulher a fazer o aborto de Lurian. Em resposta, Lula apareceu no programa eleitoral ao lado da filha. 

Apesar da polêmica envolvendo a menina e a troca de acusações no último encontro, o debate ainda entrou para a história por causa das edições exibidas pelo Jornal Hoje e pelo Jornal Nacional, na Rede Globo, exibidos às vésperas da votação. O canal mais assistido do país foi acusado de exibir matérias com edições tendenciosas sobre os melhores momentos dos candidatos no debate, o que teria favorecido a vitória de Collor. O “caçador de marajás” foi eleito com 53,03% dos votos válidos (35.090.206 votos) contra 46,97% de Lula (31.075.803 votos). 

Depois desse episódio, a imprensa brasileira deixou de editar debates presidenciais para exibir os melhores momentos dos encontros entre os candidatos.          

Lula x Alckmin em 2006

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) — hoje candidato à reeleição na chapa de Lula — foi uma dos mais ferrenhos críticos do petista durante debates eleitorais durante o período em que o ex-governador de São Paulo era uma das principais lideranças tucanas do país.

Em 2006, Alckmin foi o escolhido pelo PSDB, principal partido da oposição, para concorrer pela sigla contra à reeleição do presidente Lula. O governo petista sofria a maior crise do primeiro mandato devido ao escândalo do mensalão no ano anterior, quando o então chefe da Casa Civil José Dirceu (PT-SP) foi acusado de comandar um esquema de compra de apoio político na Câmara dos Deputados.

Alckmin teve 41,64% dos votos válidos contra 48%,61% a favor da reeleição do petista e conseguiu levar a disputa para o segundo turno, quando o ex-tucano subiu o tom e partiu para o ataque contra o petista nos debates. “Se tem alguém que não tem moral para falar de ética é o governo Lula”, disparou o então candidato do PSDB no debate da Band no segundo turno.

No último encontro, realizado pela Rede Globo, Alckmin manteve a postura mais agressiva contra Lula. “O Brasil não pode mais continuar nesse retrocesso de natureza ética. O Brasil não pode mais continuar com governo ineficiente, 34 ministérios, desperdício de dinheiro, governo para os companheiros e para patota”, criticou. 

A mudança de postura do tradicional político, conhecido pela contenção e pela falta de carisma, não foi aceita pelo eleitorado brasileiro. Lula foi eleito com 60% dos  votos válidos e Alckmin teve menos votos do que no primeiro turno, deixando as urnas com 39,1% dos votos válidos.

Dilma Rousseff x Aécio Neves em 2014

A eleição de 2014 marcou o fim da polarização entre PSDB e PT e foi o pleito presidencial em que os tucanos tiveram mais próximos de vencer o lulismo e voltar a governar o país após as gestões de Fernando Henrique Cardoso. Novamente, o PT enfrentava denúncias de corrupção após o início da operação Lava Jato durante o final do primeiro mandato de Dilma Rousseff.

O tema foi a principal munição dos adversários e após Aécio surpreender na reta final do primeiro turno, o tucano passou a ter um desempenho melhor nos debates do que a ex-presidente, que passou a ser questionada sobre a corrupção na Petrobras no segundo turno. “Ou a senhora foi conivente ou a senhora foi incompetente para cuidar da maior empresa pública brasileira”, disse o ex-governador mineiro no debate do SBT.

No embate final, na Rede Globo, o tucano questionou a presidente da República sobre o financiamento de um porto cubano com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “O que o seu governo tem a esconder em relação ao financiamento do porto de Mariel em Cuba?”, perguntou Aécio. Dilma desconversou e atacou a gestão tucana no estado de Minas. “O meu governo, nada, agora acredito que o seu tem muito que esconder quando se trata dos gastos com publicidade.”

Apesar do desempenho nos debates e da ascensão pelo voto antipetista desde o final do primeiro turno, o ex-candidato do PSDB — hoje presidente nacional da sigla — não conseguiu vencer a eleição em uma das disputas mais apertadas da democracia brasileira: Dilma foi reeleita com 51,6% dos votos válidos, contra 48,3% para Aécio. A diferença foi de aproximadamente 3,5 milhões de votos a favor da petista.

Jair Bolsonaro x Lula em 2022

Na última eleição presidencial, os dois maiores líderes políticos da história recente do país, Jair Bolsonaro (PL) e Lula, ficaram frente a frente no segundo turno. O debate da Rede Globo foi realizado no dia 28 de outubro de 2022, dois dias antes da abertura das urnas.

O então presidente Bolsonaro lembrou da prisão do opositor durante a operação Lava Jato e do histórico de denúncias de corrupção contra os aliados de Lula nos governos petistas. “Os seus ministros quando deixaram o governo foram pra cadeia”, afirmou o ex-presidente.

Em 2022, Lula também teve problemas com formato do debate e pediu para Bolsonaro se afastar dele.

Bolsonaro não poupou nem o mediador do debate da Globo, o jornalista William Bonner, que explicou a situação eleitoral de Lula para concorrer ao Palácio do Planalto após as anulações dos processos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que haviam condenado o petista. “Você [Lula] dizer que foi absolvido? Só se foi pelo Bonner”, retrucou o ex-candidato do PL.

Em 2022, a Globo passou a adotar o formato de debate com banco de horas para administração dos candidatos com permissão para eles andarem pelo estúdio, sem obrigatoriedade de permanecer no púlpito. Assim como no debate contra Flávio no último domingo (18), Lula teve dificuldades com o modelo de confronto direto e chegou a pedir para Bolsonaro se afastar. “Não quero ficar perto de você”, afirmou o petista.

Em outro momento, ele questionou Bolsonaro sobre a compra de 35 mil caixas de Viagra para as Forças Armadas. “O Viagra é usado para vários tratamentos. A governadora do Rio Grande do Norte também comprou”, respondeu Bolsonaro, lembrando da ex-governadora petista Fátima Bezerra, aliada de Lula.